Tecnologias da informação e literatura

Novas tecnologias mudam o mundo da cultura. Mudam valores. Mudam modos de ver a vida. Não são apenas instrumentos que podem ser usados de acordo com os desejos humanos. Na verdade, elas mudam também os desejos. As dimensões de mudanças profundas causadas pelas TI’s não são, creio eu, por enquanto bem entendidas. Sobre a questão, há ainda outro aspecto a ser considerado: a naturalização dos desdobramentos sócio-historicos das novas tecnologias. Há muita gente que vê as mudanças em curso como decorrências “naturais”, ignorando completamente cultura e história. Ás vezes fico com a impressão de que certos analistas – educadores inclusos – entendem as novas tecnologias da informação como uma dádiva de “deuses astronautas” (conf. http://budurl.com/3wph), não uma criação histórica dos homens.

Análises sobre TI’s e cultura já foram feitas por alguns pesquisadores importantes. Gosto particularmente das abordagens de Joseph Weizenbaum, Alan Kay e Neil Postman. Mas acho que esses autores não foram suficientemente lidos. E, muitas vezes, quando lidos, são vistos como inimigos das novas tecnologias. Já vi essa crítica feita principalmente a Weizenbaum, em que pese a contribuição fundamental dele à ciência da computação.

diagnosisAcho que nosso entendimento das dimensões culturais associadas às novas tecnologias ficará mais claro na medida em que obras de ficção tratarem do assunto. E essas obras começam a aparecer. Uma delas é The Diagnosis, da Alan Lightman. Para os interessados, indico um link que aponta no Google para a tradução de diversas fontes mostrando quem é Lightman, e para comentários sobre a obra desse autor:

Estou relendo pela segunda vez a obra em tela. É um romance imperdível que merece várias leituras. Quando o li pela segunda vez, fiz alguns registros sobre o aproveitamento de ambientes informativos da Web em sua estrutura narrativa. Esses registros apareceram em dois posts do Aprendente destacados a seguir:

Em minhas observações de 2006 não abordei uma dimensão de TI que aparece no romance da Alan Lightman: os aspectos da cultura da informação que integram a trama da história de Bill Chalmers, executivo acometido por uma paralisia progressiva cujas causas não são diagnosticadas.

Chalmers trabalha como executivo júnior numa empresa cujos negócios não ficam muito bem evidenciados na narrativa. Mas, a natureza de sua profissão é desvelada num diálogo que ele mantém com seu psiquiatra. No diálogo havido na primeira sessão, o médico pergunta a Chalmers:

  • Qual a natureza do seu trabalho?

A resposta do paciente é interessante considerado o tema deste post:

  • Eu processo informação.

E o diálogo prossegue:

  • Sim, informação sobre o quê?
  • Todo tipo de informação. Sobretudo informação na área de negócios … não toda ela.
  • Para quem?
  • Para todo tipo de gente. Eu faço negócios com clientes do mundo inteiro.

O psiquiatra faz uma pausa para atender a um chamado de urgência. Quando retoma o diálogo com Chalmers, pergunta:

  • Você estava me falando sobre seu trabalho. Você analisa informação. Você também recolhe informações?
  • Não, há outras pessoas e companhias que as recolhem. Nós não temos pesquisadores nesse ramo.
  • Você envia informação de A para B, qual é o valor agregado? Parece que você é um intermediário. Eu não entendo (…)

Temos pois um herói cujo trabalho profissional é processar informação. Tal tipo de trabalho supõe um mundo no qual as informações foram convertidas em mercadoria. Talvez seja isso que o psiquiatra diz não entender. Mas, o trabalho de Chalmers tem uma outra dimensão que precisamos considerar. Ele diz que processa informação. Esse trabalho é contratado por organizações e pessoas que não entendem muito bem o sentido de informações já existentes. A tarefa de Chalmers é a de dar sentido à informações fornecidas por seus clientes. A situação descrita lembra observação feitas por Alan Kay. Este autor, em artigo que escreveu para a Scientific American nos anos 90 observa que corremos o risco de ter uma população muito informada mas sem nenhum conhecimento. E Kay vai mais longe. Ele afirma muita gente não saberá dar sentido à informação. Saberá apenas reconhecer a existência desse bem de consumo.

Não vou aprofundar a conversa sobre uma sociedade que precisa de profissionais que processem informação. Em tal sociedade, os não especialistas dependerão de tais processadores para tomarem decisão, para entenderem o mar informacional que os cerca. Esse cenário, que não é uma invenção ficcional de Alan Lightman, mas aproveitamento dramático de uma tendência cada vez mais evidente, tem consequências sérias para a educação. Temo que os educadores não estejam muito conscientes do problema. Talvez precisem do auxílio de profissionais capazes de processar as informações existentes…

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2 Respostas to “Tecnologias da informação e literatura”

  1. Fátima Campilho Says:

    Olá, Jarbas!
    Tanto tempo, não é? Sem tempo para processar, apenas para receber!
    Muitos têm consciência, pelo menos os colegas do 2º segmento do Ensino Fundamental. Mas a nossa realidade de Escola Pública está muito distante daquilo que os teóricos pregam. É preciso uma mudança radical nas faculdades de formação de professores. Os novos ficam perdidos e os antigos tentando melhores condições de trabalho nas escolas particulares para não desistirem antes da aposentadoria.
    Abraços

  2. NOVAS TECNOLOGIAS: RESISTÊNCIA E SUBMISSÃO | Boteco Escola Says:

    […]  The Diagnosis […]

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