Saber do trabalho não está nos livros

Faz algum tempo que entrevistei o escritor e educador americano Mike Rose. Na conversa, via muitos e-mails, falamos sobre o saber do trabalho. No final da conversa, o papo foi transformado numa entrevista que apareceu em publicação comemorativa dos cinquenta anos do SENAC. Em aula recente, conversei com meus alunos de filosofia sobre o dualismo epistemológico que domina nossa cultura, separando corpo e mente, conhecimento e habilidade, teoria e prática. Tal dualismo vê o trabalho manual como simples repetição mecânica de algo que foi concebido por mentes mais brilhantes que as dos trabalhadores. Em estudos filosóficos a questão é nova. Mas deixemos esses estudos de lado para ouvir o Mike. Para tanto reproduzo aqui as dois últimos comentários do educador americano às minhas provocações.

Na sua opinião, de onde vem a dificuldade de entender o conhecimento que é produzido na ação? No Ocidente, desde Aristóteles, vivemos uma longa tradição cultural que faz distinções dicotômicas entre conhecimento puro e aplicado, teoria e prática, educação acadêmica e profissional, cérebro e mão. Mas quando você se aproxima do trabalho – o trabalho de um cabeleireiro ou de um cirurgião – essas distinções começam a perder sentido. Existem muitos momentos de pensamento abstrato, envolvendo conceitos e resolução de problemas, no trabalho de um bom cabeleireiro. Perguntei a um profissional da área o que ele faz quando uma pessoa aparece com um corte ou uma coloração malfeita por outro cabeleireiro. “A primeira coisa que você tem que fazer”, ele disse, “é descobrir onde o outro profissional estava tentando chegar”. Considere todo o conhecimento e o pensamento hipotético que entram em ação nesse caso. Vejamos outro exemplo: o trabalho do cirurgião. Passei um verão observando residentes em cirurgia e me deparei com o fato de que o conhecimento considerável que eles tinham sobre anatomia e fisiologia retirado do livro-texto tem pouca utilidade até o momento em que conseguem convertê-lo em habilidades tácteis. Eles têm de desenvolver uma sensibilidade para a aparência e a consistência do tecido, além de uma destreza manual considerável. Precisam converter todo o conhecimento do livro em conhecimento sensorial. Os conceitos precisam tornar-se concretos. Eles precisam resolver de maneira muito concreta problemas envolvendo um grau elevado de aprendizagem abstrata sobre doenças. Observando tudo isso, é difícil saber onde a teoria e a abstração terminam e onde a habilidade manual e sensorial começa.

O que pode ser feito para superarmos preconceitos contra o trabalho manual? Superar essas distinções problemáticas entre tipos de conhecimento é um enorme desafio. As distinções entre mão e cérebro estão arraigadas na cultura e são reforçadas por distinções de classes sociais e status ocupacional. Nós, educadores, temos de examinar nossos próprios preconceitos, porque crescemos com eles. Temos de discutir a dimensão cognitiva do trabalho, olhar para a teoria da atividade elaborada pelos sucessores de Vygotsky, estudar as descobertas recentes nas ciências do conhecimento e da aprendizagem, áreas nas quais os pesquisadores estão desafiando maneiras simplistas de entender o trabalho e classificar o conhecimento. Uma vez que entendam bem esses assuntos, os educadores poderão voltar-se para metas educacionais, objetivos e currículos. Já sabemos que em bons programas de educação profissional os alunos desenvolvem perspicácia na percepção, descobrem as capacidades e limitações das ferramentas, melhoram suas habilidades para planejar e priorizar tarefas, resolver problemas rotineiros e eventuais, usar e comunicar uma variedade de símbolos, inclusive símbolos matemáticos. Servem-se da matemática para fundamentar seu planejamento e a resolução de problemas, e da leitura e da escrita para auxiliar a aprendizagem e a execução de tarefas. Aprendem a se comunicar e a trabalhar cooperativamente. Refletem sobre suas próprias ações para evitar prejuízos e erros. Desenvolvem valores estéticos e profissionais. Nossa missão como educadores é colocar em primeiro plano a dimensão cognitiva do trabalho. E realizar um grande esforço para influenciar políticas públicas e promover discussões sobre a inteligência e o conhecimento dos trabalhadores.

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Uma resposta to “Saber do trabalho não está nos livros”

  1. Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21? | Caldeirão de Ideias Says:

    […] ( Spare Parts, A Rainha de Katwe,  Moonlight, A Chegada e Estrelas Além do Tempo) , textos ( 1 2 3 4 5 ) e livros (1) que leio e até andar sem rumo nas redes sociais tá nesse rolo ( 1 2 3 ). Essa […]

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