Redação: imaginação para começar

Nestes dias conversei com meus alunos de filosofia sobre resultados da prova do primeiro semestre. Disse-lhes que não fiquei muito seguro na hora de julgar resultado do que escreveram. A razão principal de minha insegurança é a orientação de que as provas nos cursos de Comunicação Social privilegiem redação. Concordo com a orientação, mas acho que alunos que escrevem bem já entram na prova com certa vantagem. Por outro lado, os alunos que não redigem de modo satisfatório perdem pontos mesmo que dominem o conteíudo da matéria. A aparente punição para redatores com limitações tem valor educativo. Alunos de comunicações precisam escrever bem. Isso é uma exigência profissional. Jornalistas, radialistas e publicitários com texto ruim têm pouca ou nenhuma chance profissional. Assim, alunos com déficit no campo da escrita precisam saber desde o começo que melhoria no escrever é uma necessidade para eles.

Alguns alunos conversaram comigo para saber como melhorar. Outros, ao se manifestarem, acharam que eu estava falando de gramática ou ortografia. Para estes últimos, respondi que a meu ver a boa redação começa pela imaginação e capacidade de se comunicar com clareza. A gramática não é essencial neste sentido. Algumas vezes sinto que professores universitários fazem a mesma confusão. Acham que boa redação se define a partir de padrões gramaticais. Isso tem a ver com ensino de redação que ressalta em demasia correção formal. Acho que o ponto de partida é outro. Neste blog, um exemplo de ensino de redação que enfatiza a criatividade aparece em registros feitos sobre redação cooperativa (com uso de recursos tecnológicos). Se quiser ver o que já escrevi sobre isso, comece por aqui.

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8 Respostas to “Redação: imaginação para começar”

  1. Suely Says:

    Oi, Professor Jarbas!

    Trabalho no ensino médio… língua e literatura… invisto na leitura, na escrita e na análise linguística, os alunos questionam: quando vou dar aula de português?
    Os meninos e as meninas chegam ao ensino médio sem história de leitura e escrita. Então? Lemos e escrevemos e refletimos sobre o lido e sobre o escrito (nessa reflexão entram várias questões do uso da norma padrão – essenciais na produção escrita – e eles/elas nem percebem)!
    Na hora de analisar o escrito, sempre que possível, sentamos juntos (aluno e professora ou dois alunos), lemos e discutimos a maneira de qualificar a expressão da ideia… e por aí vai… e o que acho fundamental, reescrevemos…
    Em muitos casos, para desconstruir a ideia de que corrigir o texto é, apenas, corrigir os erros de gramática, comento o conteúdo, a clareza, a adequação ao tema, à linguagem… nem menciono eventuais problemas de regência, concordância, pontuação… uma boa provocação, saem bons debates…

    Assim construí a fama de não dar aulas de português! Ossos do ofício!

    Penso que, especialmente no ensino fundamental, deveríamos insvestir na formação do comportamento leitor e produtor de textos…. Mas…

    Abraços!

  2. Conceição Rosa Says:

    Mas…

    A Suely deixou-nos a conclusão: ainda não formamos leitores e produtores de textos.
    E o que nos falta para isso? Quais são as exigências que construímos ao longo do processo escolar que impede que esta formação leitora e escritora se constitua? Será que os alunos não percebem seus escritos como outra forma de se comunicar e exprimir-se? Por que a gramática e a ortografia são a tônica de suas correções? E que gramática é esta?
    Tantas perguntas, tantas perguntas…
    Eu acho que escrever poderia ser um prazer, assim como ler, fotografar, falar, atuar…

  3. Suely Says:

    Oi, Professor Jarbas! Oi, Conceição!

    “E o que nos falta para isso?” pergunta Conceição. Nos faltam professores leitores e professores “escritores”… Como vou formar leitores, se não leio? E ler aqui implica a paixão pelo texto! de qualquer gênero, em qualquer suporte!
    Como vou formar “escritores”, se não escrevo? Se não enfrento o papel ou a tela ou o suporte que for?
    Penso que devemos, minimamente, buscar essas vivências para compartilhá-las… Acho que isso é trabalho colaborativo…
    “Quais são as exigências que construímos…?” regras e macetes de como fazer uma dissertação, por exemplo; mas poucas práticas. Muita metalinguagem, quase nenhum uso da língua!
    “Que gramática”? Apenas a da norma padrão… a dominação e a exclusão social também passam pelo ensino de língua na escola! A única variante da língua que vale socialmente é a norma urbana culta…
    A gente acaba perdendo o gosto pela palavra, pois fica com medo de errar! Então nos calamos!
    E fazemos os alunos calar…

    Muito trágico? É que me empolguei!

    “Acho”, como o professor Jarbas, “que o ponto de partida é outro”!

    Abraços!

  4. jarbas Says:

    Caras Conceição e Suely,

    Essa conversa é boa e necessária. Escrever é comunicação. Ou seja, forma de compartilhar o que pensamos, o que sentimos, o que achamos que outros devam entender. Mas, o rigor formal de uma gramática cristalizada pode matar a vontade de escrever.
    Conto aqui um caso para mostrar como muitos educadores não entendem a prioridade da comunicação na escrita. Quando trabalhava no Senac, durante almoço num restaurante-escola, um aluno do curso de garçom escreu na comanda: “serveja gelada”. Meus companheiros de mesa, educadores, começaram a fazer uma crítica severa à escola de hotelaria em que estávamos. A conversa entrou por um campo de ironias que beiravam ofensa. Não me contive. Expliquei a meus amigos que talvez “serveja gelada” não impedisse a comunicação entre sala e cambuza. Se a cerveja chegasse bem geladinha para nós, ficaria evidente que houve comunicação. E houve. A cerveja veio como devia.
    Não defendo vale tudo na escrita. Mas, se não entendermos para que ela serve, acabaremos por inibir gente que tem dificuldade com ortografia, concordância, regência etc. Acho que norma culta é uma meta. Mas não devemos priorizá-la. Acho que bons educadores devem ajudar um garçom que escreve serveja a superar suas dificuldades ortográficas. Mas, isso deve ser feito com cuidado para não inibir a escrita.
    Como sugere a Suely, muita gente escandaliza-se com supostos erros de pessoas mais simples. O escândalo funciona como justificativa para rotular as classes subalternas de “ignorantes”, “rudes”, “pouco inteligentes”. No caso narrado aqui foi isso que aconteceu. Gente de classe média, com formação universitária, divertiu-se com a “serveja” do garçom para mostrar inferioridade intelectual daquele trabalhador. No geral, tais críticos tem um texto horroroso…
    Tenho que parar por aqui, pois já escrevi muito mais que o limite de linhas permitido para um comentário. Mas vamos continuar a conversa. Que venha mais um serveja. Bem gelada! Abraço,

    Jarbas

  5. Doralice Araújo Says:

    Ótimo tema para uma conversa no seu Boteco Escola, Jarbas.

    Proporcionar condições favoráveis à leitura é compromisso que começa na família e avança na escola, mas quando a criança e o jovem não encontram exemplos vivazes de leitores nesses ambientes o trajeto empreendido pelo professor de LP será mais difícil. Sem o exemplo nem a criança e nem o jovem ficarão seduzidos pela janela espetacular oferecida pela leitura. Como poderão concatenar ideias, através da escrita sem o domínio temático, sem identificar os objetivos do texto, sem saber ajustar o nível linguístico para interagir com o suposto interlocutor e, sobretudo sem o amparo da mistura bem temperada dos recursos textuais?

    Você já reparou como raríssimos professores de LP efetivamente escrevem? Muitos indicam tarefas de escrita, mas nunca produziram um único texto na frente da turma; eu sempre desconfiei de quem diz faça isso e faça aquilo sem mostrar de fato como se faz, por exemplo um resumo, um comentário opinativo ou um artigo revendo a prática da escrita. O bom exemplo envolve, seduz e arregimenta valores, concorda comigo?

    • jarbas Says:

      Cara Doralice,

      Obrigado por esta visita e comentários esclarecedores. Não sei dar bons palpites sobre redação para meus alunos. Mas, sei que gramatiquices não é o caminho. Sei também que redação é forma de compartilhar saberes, sentimentos, sempre com tentativas de escrever bonito e conquistar leitores. Correção gramatical, neste sentido, nunca pode ser ponto de partida. Gostaria que mais professores de português entrassem na conversa.
      Confesso-me devedor. Tempos atrás, você me pediu para palpitar sobre o uso de palavras estrangeiras no nosso dia-a-dia. Qualquer hora dessas pago minha dívida. Espere com um pouco de paciência. Abraço grande, Jarbas.

  6. Thiago Pignataro Oshiro Says:

    “Olá colegas,
    Deixo aqui a divulgação da Primeira Olimpíada Nacional em História do Brasil, iniciativa inédita no país, organizada pelo Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com o apoio do CNPq. A Olimpíada é para escolas públicas e particulares e acontece pela internet, com equipes formadas por estudantes do oitado e nono anos do ensino fundamental e por estudantes do ensino médio, juntamente com seu professor. As inscrições já estão abertas!
    http://www.mc.unicamp.br
    Obrigado”

  7. Adriana Karnal Says:

    Jarbas,
    Sua discussão é extremamente importante, e tem muita gente que corrobora com vc…Conhece o linguista Marcos Bagno? Ele escreveu os ótimos livros ” Preconceito linguístico” e a língua de Eulália”…devem ser lidos por porf. de Comunicação, pois falam exatamente sobre a discussão aqui…além disso, escrever tem a ver muito mais com discurso, o texto como um todo, e não só aspectos gramaticais, ou sintáticos, como a escola tradicional faz(ia).
    abç

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