Televisão não faz mal

Continuo a mexer em velhos arquivos. Tento limpar minha máquina para ganhar mais espaço de memória. Nessa atividade acabo descobrindo velhos textos que ainda merecem uma chance de leitura. No final do século passado, escrevi uma sinopse para um programa de TV. Num outro escrito, comento essa sinopse. Tal comentário era início de um artigo que eu queria escrever. O artigo não saiu. Ficou um rascunho da introdução. Algumas das idéias apareceram em outros escritos (publicados). Outras continuaram arquivadas.

Acho que vale a pena submeter o referido comentário a prováveis leitores. Faço isso a seguir sem nada mudar do que escrevi há uns dez anos.

TELEVISÃO NÃO FAZ MAL

Em dezembro de 1998, produzi um conjunto de questões para subsidiar uma mesa redonda da TV Senac sobre o papel educacional da televisão. Os produtores da televisão senaqueana queriam que escrevesse uma ou duas páginas como referência para o âncora do programa. Fiz mais do que o esperado e acabei produzindo um conjunto de dez questões que, quase sempre, surgem em discussões sobre o tema televisão e educação. Não fiquei só nas perguntas. Tentei situar as questões, fazendo comentários que poderiam dar mais sentido às perguntas e, ao mesmo tempo, gerar muitas outras indagações.

Meu questionário revela alguns vieses. Assumo claramente posição não muito otimista quanto às possibilidades concretas de uma ‘televisão educativa’. O engano de Edison, imaginando que um conjunto de seis mil películas poderia substituir, com vantagens, a escola fundamental, tem nova versão. Educadores ilustres e leigos com boas intenções, impressionados com o suposto poder da TV, acham que uma televisão educativa bem feita seria um ótimo substituto para a escola fundamental que está caindo aos pedaços. Há nesta posição muitos equívocos. O poder da televisão não é tão avassalador quanto pensam os alarmados críticos dos produtos da telinha. É certo que ver muita televisão é fator que favorece a imbecilização das massas. Mas a TV não é o único meio capaz de conservar a ignorância. Muitos são os circos que podem ser utilizados para cevar sentimentos irracionais da turba ignara. Além disto, a escola fundamental pública não está caindo aos pedaços. Está, muito mais, passando por uma transformação radical que nós, educadores, não entendemos muito bem.

Não quero ser mal interpretado. A crise pela qual passa a escola pública é imensa. Não encontramos ainda um caminho adequado para tal escola desde a época em que ela passou a ser acessível para a maioria da população. O que estou querendo dizer é que a velha escola pública de elite não é um bom termo de comparação para a nova escola pública. Vou parar por aqui, uma vez que a questão da escola pública não é o centro deste trabalho. Voltemos à televisão.

TV E VELEIROS. Convém tentar explicitar os pressupostos que me levaram a elaborar as questões que serão aqui apresentadas. Quando meu filho tinha uns sete anos de idade, a TV brasileira foi invadida por uma enxurrada de  filmes B e C de lutas marciais. Em tais filmes predominava uma violência gratuita que envolvia, entre outras coisas, tortura e cabeças decepadas. Muita gente ilustre frenqüentava os meios de comunicação para condenar aquele lixo que conquistara nossas crianças. Os críticos condenavam sobretudo o poder da TV. Era ela, diziam eles, a promotora da violência. E infelizmente, continuavam, as crianças não tinham como escapar da influência avassaladora da telinha.

Em negociações familiares sobre o que fazer num final de semana, meu filho declarou que já tinha programa para o domingo de manhã: ver um clássico B de lutas marciais. A família desistiu de uma viagem ao litoral. Sabíamos que o garoto reclamaria o tempo todo no trajeto para a praia. Mas meu filho não viu o tal filme. Em vez de ver televisão, foi para uma represa velejar com dois colegas num barco pilotado por um membro da equipe olímpica do Brasil. [citar aqui o autor de Complexity and Simplicity?]

O caso do meu filho ilustra o problema da atração da TV. Preferimos a telinha quando não temos alternativas mais interessantes.. É claro que no dia do filme que meu filho tanto queria ver, milhares de garotos ficaram com os olhos grudados na tela, esmurrando o ar para imitar as técnicas de luta do herói, e gritando com entusiasmo a cada cena chocante de violência.. Mas eu tenho certeza de que todos eles trocariam a TV por aventuras parecidas com a possibilidade de velejar com um atleta olímpico. Não me parece que a alternativa fosse educar as crianças para que estas escolhessem programas educacionais com mensagens construtivas. Quem pensa nesta solução pouco entende de TV. E mais que isto, não entende que a televisão é uma alternativa de diversão que conquista corações e mentes quando não há algo mais interessante para fazer.

Há lugar aqui para um paralelismo. Nos anos setenta, no auge da discussão sobre a escola de tempo integral, Francesco Tonucci, secretário de educação de Roma, remava contra a corrente [referência de Cuadernos de Pedagogia, 1977/]. Para o educador italiano, a escola de tempo integral era sobretudo um modo de atender expectativa de pais que queriam proteger suas crias dos perigos da rua. [a visão da escola como agência de segurança ainda está muito presente!] Tonucci, convencido de que a escola é um local de re-elaboração do saber, defendia uma escola de tempo parcial, uma vez que é preciso experenciar o mundo em vez de tudo aprender em jogos de faz-de-conta. Por esta razão, denunciava as intenções protetoras da escola de jornada plena. E mais, afirmava ser necessário lutar pela recuperação da rua como um espaço de convivência e aprendizagem. Sem aprender na rua, não há o que re-elaborar na escola.

À semelhança da proposta de Francesco Tonucci para a questão do tempo escolar, é preciso deixar claro que a solução para os supostos males da televisão não é a de domesticar a TV, mudando a programação em vez de reexaminar a questão mais ampla das ofertas culturais. É preciso perguntar que outras alternativas culturais estão à disposição da população. Sem alternativas equivalentes ao veleiro olímpico que substituiu, para o meu filho, uma grande atração de TV, sobra apenas o discurso moralista que pede mais programas educacionais ou diversão televisiva familiar.

Anúncios

Uma resposta to “Televisão não faz mal”

  1. margaretebarbosa Says:

    Caro Jarbas,
    A discussão sobre o papel educacional da televisão me fez lembrar uma outra postagem sua, que era sobre o uso dos blogs como ferramentas de comunicação, e não como ferramentas pedagógicas. Penso que sejam discussões muito parecidas, muito próximas. Mas uma coisa é fato, e você frisou bem: “a televisão é uma alternativa de diversão que conquista corações e mentes quando não há algo mais interessante para fazer.” Isso me fez lembrar que nos anos 80, um grupo de rock, chamado Titãs, também fizeram (e cantaram) uma crítica a esse veículo de comunicação, com a música “Televisão”. Algumas frases da canção me chamam a atenção e, talvez valha a pena destacar, como: “A televisão me deixou burro/ muito burro demais/ agora todas as coisas que eu penso/me parecem iguais” e, também o trecho: “tudo que a antena captar meu coração captura”. A televisão não faz mal, mas talvez nós ainda desconheçamos como melhor utilizá-la, bem como com os demais recursos tecnológicos disponíveis.

    Um abraço!

    Margarete Barbosa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: