A morte da leitura. Escreveremos apenas para o Google.

Plínio Fraga, numa crônica publicada na Folha de São Paulo dia 02/07/08, cita alguns dados alarmantes de pesquisa divulgada pelo Instituto Pró-livro. No Brasil, cerca de 77 milhões de pessoas dizem não gostar de ler. Razões:

  • 17% dizem que lêem muito devagar,
  • 11% não têm paciência para ler,
  • 7% não compreendem o que lêem,
  • 7% não têm concentração para ler,
  • os demais têm explicações outras.

Os poucos que lêem não chegam a concluir 5 livros por ano. E estes leitores, em média, não chegam a comprar 2 obras no mesmo período. Minha conclusão: a leitura está morrendo.

Os sinais de enfermidade da leitura não são recentes. Já faz algum tempo que os diagnósticos apontam sérias crises na área. Em Endangered Minds, por exemplo, Jane M. Healy mostra que as dificuldades de leitura entre os estudantes de países com EUA e França vêm crescendo desde os anos setenta. Em levantamentos feitos pela autora, professores revelam que os níveis de leitura de seus alunos estão sofrendo atrasos de 2 ou 3 anos. Em conversas informais, amigos meus contam que nos anos cinquenta as criança estavam lendo livros no final do primeiro ano escolar. Hoje muitos alunos ainda não estão alfabetizados no terceiro ano do ensino fundamental. E mais: há um número razoável de alunos de cursos superiores que não entendem o que lêem. Nas faculdades, professores pedem desculpas aos alunos quando têm de solicitar leitura de textos de umas duas dezenas de páginas para a aula da semana subsequente …

Gente otimista anda dizendo que há um revival da leitura com a internet. Acho que tal impressão é um equívoco. O que há é um crescimento muito grande de publicação, facilitado pelo ambiente web. Mas navegações pela internet não são sinônimo de leitura. Ou, pelo menos, não o são no mesmo sentido da leitura que foi promovida pela era da imprensa. O que a gente sabe é que há muito acesso. Mas uma clicada numa página web nada diz sobre processos de assimilação de seu conteúdo.

Trabalho bastante com projetos em laboratórios de informática. Quase sempre meus alunos estão fazendo algum projeto que depende de muitas consultas a fontes da web. Houve tempo em que achava que consultas a certas fontes iriam resultar em leituras atentas. Estava enganado. Nas minhas andanças pelo laboratório, constato que os estudantes vêem as páginas, mas não as lêem [pelo menos no velho sentido de leitura a que estávamos acostumados com os livros]. Mas, não se apressem, concluindo que sou um velho rabugento sempre pronto para criticar comportamentos da nova geração. Depois de descobrir que meus alunos mais vêem que lêem textos na web, percebi que faço a mesma coisa. O fenômeno nada tem a ver com estilos de uma ou outra geração. O fenômeno tem a ver com o ambiente. A web é imagética, não é textual. Nela o texto é uma imagem, talvez como uma sombra ou background para imagens mais brilhantes e atraentes. O ritmo de leitura na web é o ritmo de reconhecimento de imagens. Se a gente quiser continuar a falar em leitura neste caso, é preciso reconhecer que estamos falando numa nova espécie de leitura.

A leitura que está morrendo é a leitura da Galáxia Gutenberg, que foi se estruturando a partir do surgimento da imprensa. Para consumir os milhares de livros que a produção tipográfica podia colocar no mercado eram precisos leitores. E esses leitores já não eram mais nem os eruditos dos mosteiros nem os lentes que, em leituras públicas, facilitavam o acesso ao conteúdo dos livros. A partir de Gutenberg, era conveniente converter a leitura num ato silencioso e individual. Tal forma de leitura exigia dedicação, atenção, concentração, tempo, interpretação. Um leitor de livros separa-se do mundo e cria um universo próprio e pessoal na medida em que se concentra e procura dar sentido ao texto. Essa exigência promovida pelo livro impresso trouxe muitas vantagens. Generalizou acesso antes concedido apenas a uns poucos intelectuais. Possibilitou treino importante para concentração necessária no campo da produção científica. Promoveu possibilidades de desenvolvimento de capacidades analíticas. Abriu novos campos para vôos imaginativos. Popularizou a boa literatura. E muito mais.

Comunicação escrita não é “natural”. Ela não integra as estratégias básicas para reprodução e sobrevivência da nossa espécie. Precisa ser aprendida com certa disciplina e dedicação. Por isso a leitura sempre é uma atividade exigente. Fugir de obrigações de leituras “sérias” é, portanto, um mecanismo de defesa. Sempre que podemos, evitamos esforço (isso não é preguiça, é muito mais aplicação de uma lei de economia: nós, como qualquer outro animal não investimos espontaneamente em atividade que não flua de modo natural). Por outro lado, a escrita e a leitura são ferramentas que deram a nossa espécie oportunidades de saltos significativos em termos produção, armazenamento e acesso a informação. A riqueza de tais ferramentas não tem substitutos. Seres humanos incapazes de ler e escrever de modo competente perdem pontos em alguns jogos que tornam o viver mais rico e significativo.

Todas essas minhas constatações sobre a leitura promovida pelos livros deve gerar alguma reflexão por parte dos educadores. É possível que alguns trabalhadores continuem a precisar da leitura tipográgica. Parece, porém, que a grande maioria vai dispensar esse modo de ler. Lerá por cima, sem se aprofundar. Se um texto exigir concentração, a maior parte dos leitores irá dispensá-la, perguntando se não há outra maneira de aprender o conteúdo lá armazenado. Na busca de informações mais objetivas, com baixo teor interpretativo, isso já está acontecendo. Matérias publicadas na internet não são lidas, são gugladas.  A maior parte da pessoas usa buscadores para obter informações e em vez de procurá-las nas páginas apontadas, tenta encontrá-las nas linhas de resumo apresentadas pelo buscador. Tal circunstância me sugeriu uma hipótese muito provável: o que escrevemos na internet não é para leitores humanos. Escrevemos e escreveremos cada vez mais para os buscadores. Eles serão nossos leitores principais. Você, que chegou até aqui, é uma exceção.

Este texto deveria ser mais completo. Boa parte dele estava pronta em outubro passado. Cheguei a aproveitar um trecho para artigo que publiquei numa revista eletrônica. Hoje descobri que o texto imaginado na segunda metade do ano passado ainda esperaria alguns meses para chegar ao fim. Resolvi fazer uma cesárea. Cá está a criança. Ficará algum tempo no oxigênio, mas acho que ele já tem substância para boas conversas. A ver, como dizem os espanhóis.

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10 Respostas to “A morte da leitura. Escreveremos apenas para o Google.”

  1. Débora Says:

    Olá professor Jarbas,

    Leitura tem sido tema de muitas discussões mesmo. Como já lhe disse leciono para a 4ª serie do ensino fundamental (ou 5º ano), e acredita que no começo do ano quase metade dos alunos ainda não estavam alfabetizados? E os que estavam não tinham o hábito de ler. Estou tentando mudar isso, lendo todos os dias uma historia e deixando a diposição dos alunos livros e revistas para manusearem e ler. Eu acho que a falta da leitura nas crianças pode estar associada à televisão, porque as informações são mastigadas, rapidas e de facil entendimento, pra que ler, pra que se dar ao trabalho? Acredito também que os professores lêem cada vez menos e têem menos prazer em fazer isso, o que faz com que pouco estimulem as crianças a ler.
    Apesar disso acho que o habito da leitura nao vai acabar não, pode até diminuir o que fará dos amantes das letras unicos e raros, não acha?

    Um beijo

    • jarbas Says:

      Oi Débora,

      Hábitos estão mudando porque novos meios de comunicação brigam por freguesia. TV e Internet fazem isso. Não acho que seja preguiça. O que vem acontecendo é uma mudança radical. Mesmo assim, atrasos em leitura são, em parte, culpa dos educadores. Já tive, na Licenciatura, aluna de letras que declarou que não gostava de ler (muito menos de escrever). Gente assim em nada ajuda nossos alunos.

      Fico com a impressão que o fim da leitura é uma fatalidade. Por outro lado, sinto que muitas profissões importantes continuarão a exigir as virtudes dos bons leitores. Assim, é provável que num futuro não muito distante venhamos a assistir algum movimento de inclusão letrada. Talvez isso seja necessário já. Falam tanto em inclusão digital. Acho que podemos iniciar uma campanha por inclusão nas letras.

      Abraço grande,

      Jarbas

  2. Conceição Rosa Says:

    Oi professor
    Como sempre, instigante…
    Será que a verdadeira “Sociedade do Conhecimento” ainda depende de bons alfabetizadores, de pais e professores que gostem, e por isso mesmo estimulem hábitos de leitura?

    • jarbas Says:

      Oi Conceição,

      Bom receber visita sua outra vez. No geral não examinamos os efeitos das TIC sobre velhos hábitos. A questão da leitura nos novos tempos precisa ser considerada. Abraço grande,

      Jarbas

  3. Prof. Luís Dhein Says:

    Olá Professor Jarbas.
    Primeiramente é preciso agradecer pela reflexão. Muito instigante e potencializadora. Temos um cotingente gigantesco de pessoas que ainda nem chegaram a galáxia gutenberg e outros que recém chegaram já precisam se reciclar.

    Lendo seu texto muitas perguntas foram surgindo, bobas talvez.

    O que significa ler nessa “sociedade da informação”? Vale trazer para a discussão a ideia do hipertexto. A leitura do hipertexto nos abre um campo ainda quase desconhecido. Temos uma ruptura de ideias modernistas. E, em termos cognitivos, o cérebro processa o texto digital da mesma forma que o texto impresso?
    Entre encantos e espantos, nesses novos tempos, ficam muitas perguntas. Como trabalhar com essa “overdose” de informações diárias? E aqui vejo uma reflexão apontando para a ideia de tempo.
    Ler, a princípio é o movimento de decodificação, significação da informação. É um tempo lento que exige reflexão, movimento. E aqui que muitas vezes eu me perco nas reflexões. Não seria a escola o espaço do tempo lento? Tempo da reflexão, da significação e ressignificação?

    Jarbas, forte abraço e tudo de bom para você.

    • jarbas Says:

      Oi Luis,

      Obrigado pela visita. Você faz muitas observações interessantes. Enfatizo uma delas: a escola como um espaço de tempo lento. Velocidade tornou-se um must em nosso tempo. Tudo é para um aqui-agora urgente, sem pausa para pensar, sem tempo para fruição. Talvez a escola pudesse aproveitar idéias do fast movement. Reflexão não pode ter urgências, Ela deve ter o tempo necessário. Essa é um marca da leitura que surgiu com a tipografia.

      As novas formas de comunicação estão a exigir novos modos de conferir significado à informação. Mas acho que a gente não sabe ainda muito bem o que vai rolar em termos de exigências cognitivas. Há pouco coloquei aqui, em Páginas, um uma fala do Edgar Morin. Acho que ele aponta algumas coisas interessantes na direção de nossa conversa.

      Abraço grande,

      Jarbas

  4. Legal » Blog Archive » A morte da leitura? Says:

    […] Muito mais detalhes com o Jarbas, no Boteco Escola, bem neste link aqui. […]

  5. José Erigleidson Says:

    Prof. Jarbas,
    Parabéns pelo blog! Irei retornar mais por aqui.

    Muito importante as questões levantadas pelo senhor neste post.
    O avanço das chamadas mídias em tempo real, como a tv e games, estaria provocando uma diminuição da capacidade do pensamento crítico e da análise baseados em textos, pelo menos é o que aponta estudos recentes. Por outro lado, os alunos de hj são mais preparados para captar informações por meio das mídias visuais, o que parece criar um desafio duplo para os educadores: primeiro, não deixar a leitura do texto escrito morrer pq ele é necessário para o pensamento reflexivo; segundo, desenvolver competências para lidar com mídias visuais, pois como diz a pesquisadora Patricia Greenfield, é preciso criar uma “dieta de mídias” equilibrada para a sala de aula.

    Concordo plenamente com sua observação quanto ao perfil do leitor de internet, que ultrapassa a questão das gerações. A prof Lucia Santella tem um livro onde ela elabora muito bem os perfis cognitivos dos leitores no ciberspaço. O livro chama-se “Navegar no Ciberespaço”.

    Obrigado pelo compatilhamento de suas reflexões

    Eri

    • jarbas Says:

      Caro Eri,

      Obrigado pela visita e comentários. Gostaria de fazer mais observações. Mas, de férias em Bardelona, meu acesso à interenet está bem limitado. Estou sempre na rua vendo e revendo as belezas a da terra onde brilhou nosso Ronaldinho (hoje, ex-jogador). Abraço,

      Jarbas

  6. Vanessa dos Santos Nogueira Says:

    Olá,

    Passando por aqui resolvi ler…fazia algum tempo que não visitava os blogs que gosto de ler, pois os livros que tenho que ler gastam quase todo o meu tempo, ler não é problema o problema é entender o que esta escrito, esse pelo menos é o meu problema, os sentidos que atribuimos aos textos… e como o senhor coloca “Reflexão não pode ter urgências, Ela deve ter o tempo necessário.” e isso implica em tempo, vontade e desconstrução dos conceitos que tinhamos como verdade.

    Abraços e uma boa leitura das imagens da cidade….

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