Um médico deverá ser consultado

chacrinha

Homenageio aqui o Velho Guerreiro, Aberlardo Chacrinha Barbosa, que dizia “eu vim para confundir, não para esclarecer”. Essa frase e o estilo do Chacrinha casa-se bem com certos usos  da voz passiva, objeto de conversa proposto por este post.

Você já viu certamente propaganda de remédio que termina com a frase que dá título a este post. Sempre que a vejo  fico incomodado. Os publicitários que a bolaram não agiram inocentemente. Usaram a voz passiva de caso pensado. A “mensagem” é a de um analgésico que pode ser comprado sem receita médica. Acontece que o próprio pode mascarar sintomas de doenças graves. Por essa razão, os órgãos de saúde exigem que o comprador seja informado sobre necessidade de consultar um médico caso o remédio não produza os  efeitos esperados. Em resumo, a propaganda tem dois momentos. O da promoção da venda. O de cumprimento de norma legal para manter consumidor bem informado. No primeiro momento a propaganda diz:

  • Compre X…

No segundo momento, a propaganda diz:

  • Um médico deverá ser consultado.

Por que voz ativa no primeiro caso e passiva no segundo? Simples. Voz ativa sugere ação (compre X). Voz passiva não determina quem é o sujeito da ação, determina apenas o objeto. Em situações nas quais pessoas ou organizações têm culpa no cartório, é comum o uso da voz passiva para deixar o freguês na ignorância. Caso famoso nesse sentido é um comentário de Nixon sobre WaterGate: “erros foram cometidos“.

Alguém deve estar perguntando qual o motivo desta entrada num blog cujo objetivo principal é falar de blogs e recursos tecnológicos em educação. Esclareço que tem tudo a ver. A propaganda que cito procura aliviar consequências danosas do medicamento que quer vender. Voz passiva é boa para isso. É provável que apenas pessoas bem educadas percebem o truque. Um outro motivo me leva a considerar o caso. Ele é um bom exemplo para analisarmos a questão da linguagem em materiais de ensino. Meus alunos, por exemplo, aprendem a escrever “cientificamente” na faculdade. A linguagem convencional de escritos científicos tem muitos trechos com voz passiva. O uso de tal voz é muito conveniente para não comprometer o autor com resultados da investigação. Há gente que pensa que isso é um modo de ser “objetivo” . Bobagem!

Tenho muita dificuldade para mostrar a meus alunos que textos de WebGincanas e WebQuests exigem voz ativa, principalmente em segmentos que dizem ao aluno o que este deve fazer (caso típico do Processo em WebQuests). Eles tendem a escrever WebGincanas e WebQuests de um modo acadêmico, com muitos usos da voz passiva. Afinal, durante anos aprenderam a escrever “cientificamente”.

Ao rever um velho material elaborado por meu amigo Brock Allen (POSIT – Principles for One-Stop Information & Training, San Diego: SDSU, 1997) cruzei com um texto muito útil que traduzo a seguir.

Use a voz ativa em vez da passiva

Na gramática, “voz” indica a relação do sujeito com a ação do verbo no interior da sentença. Quando o verbo está na voz ativa o sujeito age.

  • A tecla “home” levará você de volta à introdução.

O uso da voz ativa força o autor a nomear o agente específico da ação. A voz ativa é mais fácil de ler e processar porque as sentenças geralmente são mais diretas, contêm menos palavras, e utilizam a ordem sujeito-verbo-objeto mais comum em bom português.

Ao contrário, quando o verbo é escrito na voz passiva, o sujeito sofre a ação. A voz passiva inverte a ordem direta de agente-ação-meta e torna o texto menos fluente.

  • Você será levado de volta à introdução por meio da tecla “home”.

Os leitores têm grande dificuldade para entender a voz passiva porque ela tende a ser palavrosa e indireta. Mas, os autores podem utilizar a voz passiva de modo efetivo em algumas circunstâncias. Por exemplo: o autor pode escolher a voz passiva quando não quer apontar quem é responsável pela ação, em casos de agentes desconhecidos ou quando saber quem é o sujeito não é importante.

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2 Respostas to “Um médico deverá ser consultado”

  1. Francisco de Moraes Says:

    Muito oportuna essa sua abordagem da voz passiva, Jarbas. Além dos gerúndios e outros vícios mais graves na comunicação escrita, o uso inadequado da voz passiva em textos pretensamente didáticos ou pretensamente científicos é um dos problemas muito comuns.

    Usem mais a voz ativa, redatores de materiais didáticos!

    Assim, menos erros serão cometidos!!! 🙂

  2. margaretebarbosa Says:

    Caro Jarbas,

    A imagem e a frase do “velho guerreiro” com o “troféu abacaxi” me fez pensar sobre algumas coisas: O que realmente representa a imagem do Chacrinha? Qual será a confusão que ele representa?
    Será a confusão que a mídia nos impõe diariamente, com a grosseira aparência de “boa” informação e divertimento?
    Quantas e quantas mensagens introjetamos e repetimos sem pensar, alienadamente por aí afora, da mesma maneira como “tomamos” determinado medicamento sem “consultar o médico”?
    Considero sua discussão sobre a voz passiva muito pertinente para repensar sobre aquilo que dizemos e escrevemos, e sobre o que realmente queremos nos fazer entender…
    Se nos confundimos, devemos pensar se é realmente cômodo ficar nessa ‘voz passiva’ e, se assim for, cada um de nós deve responsabilizar-se (na voz ativa) pela ‘parte que te cabe deste latifúndio…’, ou então, merecidamente devemos levar o troféu abacaxi… ( e nisso também me incluo…)

    Um grande abraço
    Margarete Barbosa

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