Pesquisa na internet e ignorância bem informada

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Cibercidadãos de todo o planeta estão curiosos para saber com vai funcionar um novo buscador de informações no ambiente Web. Trata-se do Wolfram Alpha que promete grandes feitos em termos de “pesquisa na Internet”. Muita gente anda dizendo que o Wolfram vai desbancar o Google. De qualquer forma, a proposta é nova e diferente das que animaram os buscadores que utilizamos até hoje.

Desenvolvedores da nova ferramenta dizem que os resultados de busca terão qualidade muito superior à que obtemos hoje com Google, Yahoo e assemelhados. Para tanto, o Wolfram aplicará formidáveis poderes computacionais para “entender” o que o freguês procura. Resta ver como será isso. Os desenvolvedores da novidade prometem que a ferramenta estará disponível no espaço Web a partir do próximo mês de maio.

Confesso que as promessas do Wolfram me preocupam. Elas sugerem que, cada vez mais, seremos dispensados da tarefa de interpretar informações. E quando isso acontece, as coisas podem caminhar na direção de um comentário que Victor Weisskopf (citado por  Sennett em The Craftsman, p. 41) fazia  para seus alunos no MIT:

Quando vocês me mostram esse resultado, o computador entende a resposta, mas eu não sei se vocês  a entendem.

A questão não é nova. A facilidade para se conseguir informações via computador, sem ter de utilizar capacidades humanas de interpretação aparece logo no início de um artigo escrito, nos anos de 1990, pelo cientista da computação Alan Kay:

O físico Murray Gell-Mann observou que a educação no século vinte assemelha-se a ida ao maior restaurante do mundo para alimentar-se (literalmente) com o livreto do cardápio. O autor, com esta metáfora, pretendia mostrar que as representações de nossas idéias substituíram as próprias idéias; os estudantes são ensinados superficialmente sobre grandes descobertas em vez de serem ajudados a aprender profundamente por si mesmos.

No futuro próximo, todas as representações já inventadas pelos seres humanos serão imediatamente disponíveis em qualquer parte do mundo por meio de computadores pessoais “de bolso”. Mas seremos capazes de passar do cardápio para o alimento? Ou não seremos capazes de distinguí-los? Ou, pior ainda, perderemos a habilidade de ler o cardápio e ficaremos satisfeitos apenas em reconhecê-lo? [Original: Computers, Networks and Education, publicado em Scientific American, 1995, special issue: The Computer in the 21st Century. P. 148-155.]

Penso que não preciso comentar o que diz Kay. Infelizmente o tema é muito pouco discutido. Com isso vamos ficando cada vez mais informados e cada vez menos sabidos.

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4 Respostas to “Pesquisa na internet e ignorância bem informada”

  1. Marcos Benassi Says:

    Prezado Jarbas, sua preocupação é relevante e de alto nível. Eu tenho algumas mais rasteiras: esses dias, tomei uma paulada via e-mail de um infeliz que me batia por erros ortográficos. Dizia ele algo como “como é que vc quer falar de educação se nem sabe colocar os assentos de acordo com a nova ortografia??”
    Tive que me conter para não responder que eu sei, sim, onde ponho meus assentos, e que isso é mais relevante na vida da pessoa do que os acentos naquilo que ela escreve. Ignorei, apaguei e bloqueei, fim de papo. Mas isso é triste, e me deixa inicialmente furioso – depois, cabisbaixo. Muitas vezes preciso de freelancers para projetos, e é desse tipo de pobreza mental que fico desviando. Dá trabalho, muito trabalho, escolher pessoas que vão compilar informações, produzir textos, construir representações relevantes.
    Embora mais rasteira, acho que são preocupações correlatas. O que é que anda pela cabeça do pessoal? O que entrou nessas cabecinhas, o que é que elas estão expelindo, e com qual qualidade? Morro de medo de que passe a existir somente uma elite de meia-dúzia de gentes de bom quilate, e um resto, uma escuma volumosa, que não processa, não digere, não transforma.
    Caí de pára-quedas em seu blog, gostei, explorarei, voltarei. Abraço cordial,
    Marcos

  2. Michel Goulart Says:

    Jarbas, boa discussão. A internet aumenta o nosso fluxo de informações, mas isso não significa que ficamos mais inteligentes com isso. O grande paradoxo atual, é justamente usar todos estes recursos como forma de desenvolvimento integral humano. O problema é que exige esforço. Um abraço

  3. antoniomorales Says:

    Costumava dizer sobre esse assunto que chamar a nossa sociedade atual de “sociedade do conhecimento” é um exagero e uma impropriedade. Chamar de “era da informação” ou “sociedade da informação”estaria mais próximo da verdade.

    Uma coisa é termos um monte e informações e facilidade para obtê-las. Outra é transformar esse imenso volume de informações em CONHECIMENTO.

  4. Muita informação, pouco conhecimento « Boteco Escola Says:

    […] informação, pouco conhecimento By jarbas Em post recente cito uma passagem de artigo que Alan Kay publicou na Scientific American nos anos 90. Basicamente o […]

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