Archive for fevereiro \21\+00:00 2009

Mais informações sobre digitalização de livros

fevereiro 21, 2009

Encontrei diversas análises e referências sobre o artigo de Darnton a respeito do projeto Google Book Search, objeto de meu post anterior. Um deles é a tradução eletrônica do blog de Jorge Ledo. O texto tem aquelas trapalhadas dos tradutores eletrônicos, mas é uma boa referência para quem quiser saber mais sobre o artigo que comentei. Quer ver? Clique em

Digitalização de livros: perigos e esperanças

fevereiro 21, 2009

books-digitalizationAcabo de ler Google & the Future of Books, artigo de Robert Darnton. A matéria comenta situação e prováveis desdobramentos de um acordo entre a Google e detentores de direitos sobre obras digitalizadas.  A gigante da internet, conhecida por seu serviço de busca, digitalizou nos últimos cinco anos cerca de sete milhões de livros. Deste total, cerca de cinco milhões tem ainda algum tipo de copyright.  Por essa razão, editoras e autores  entraram numa ação contra a Google, alegando que a cópia eletrônica de livros fere direitos sobre a obra. As partes entraram em acordo no final de 2008. Os termos de tal acordo aguardam aprovação judicial favorável.google-book-search-3

Obras ainda protegidas por algum direito poderão ser liberadas pela Google para acesso em um terminal de computador nas bibliotecas públicas mediante pagamento de uma taxa institucional (relativamente baixa). O acordo inclui também possibilidade de acesso individual mediante pagamento de uma taxa de uso. Com tais providências, será possível contar com uma biblioteca virtual que, no momento, tem um acervo de sete milhões de obras.

Para situar a digitalização efetuada pela Google,  Darnton dicute algumas questões relacionadas com o acesso público ao saber produzido pela humanidade. Lembra que o sonho do Iluminismo no século XVIII era a República das Letras, uma sociedade onde qualquer cidadão, não importando origem social, teria acesso livre a toda a produção científico-cultural da humanidade. Os iluministas acreditavam que livros e outros recursos impressos instrumentariam tal sonho. Infelizmente a República das Letras acabou funcionando apenas para a elite.

Um dos obstáculos para o acesso livre ao saber é o direito sobre a obra, mantido por empresas produtoras de bens culturais e autores. A primeira lei de copyright surgiu na Inglaterra em 1710. Tal lei procurou conciliar direitos individuais com o direito coletivo de acesso ao saber. Originariamente os direitos de copyright limitavam-se a quatorze anos, com possibilidade de uma renovação. Ou seja, direitos sobre a obra não podiam ultrapassar vinte e oito anos, tempo suficiente, pensava-se, para que autores e editores tivessem justa remuneração por seu trabalho. Depois disso, a obra passava a ser de domínio público. A lei inglesa influenciou a lei americana de copyright. Os mesmos vinte e oito anos de conservação de direitos propostos pelos britânicos foram a medida que orientou a legislação de copyright do pais do Norte. Mas batalhas legais em defesa de direito sobre obras fizeram com que nos EUA o domínio privado das produções culturais se alonguem por mais de um século. É preciso mudar isso para prazos mais razoáveis.

A digitalização de livros feita pela Google aconteceu sobretudo a partir de acervos da grandes livrarias públicas americanas. Darnton lembra que essas instituições são locais de pesquisa. E mais. São locais de acesso público ao saber. Essas características dão às bibliotecas públicas americanas uma cor democrática. Num certo sentido, o funcionamento delas revive o ideal da República das Letras. Essa esperança é alimentada pelas atuais práticas da Google. Mas nada assegura que no futuro a empresa não venha a aumentar substantivamente os preços da permissão de uso, fazendo coisa parecida com o que aconteceu com as revistas científicas, fontes importantes de acesso ao saber científico, cujas a assinaturas anuais chegaram à casa de milhares de dólares. Outro perigo: os termos do atual acordo da Google com editoras e autores configura um monopólio. Dificilmente outras empresas conseguirão entrar no mercado de digitalização de livros  na mesma escala que a gigante de mecanismos de buscas na web.

O autor sugere a necessidade de uma vigilância cidadã no caso. O movimento da Google pode assegurar certa margem de acesso público ao saber produzido pela humanidade. Em parte tal, possibilidade depende de nosso engajamento na defesa de ideais parecidos com o sonho da República das Letras tão caro ao Iluminismo.

Para acessar as obras digitalizadas pela Google, clique na marca que segue.

google-b-search

O livro da minha vida

fevereiro 19, 2009

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Estes dias há uma blogagem coletiva no ar. Vários blogs enredados com este Boteco já entraram na dança. Minha última leitura sobre o empreendimento é a de  um post de Ufa! Bloguei! Resolvi participar.

Nunca pensei antes sobre o livro da minha vida. O desafio de agora me obriga a fazer uma escolha. Eu era um menino da periferia francana (menino de rua, diriam hoje) e ia descalço à escola, o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins. coronelAprendi a ler muito rapidamente e era escalado para leituras públicas quando a classe recebia alguma visita. No final do primeiro ano de grupo a escola premiou os melhores leitores com um livro. Ganhei uma obra sobre Zumbi dos Palmares, meu primeiro livro.

Minha escolha nada tem a ver como mérito literário da obra.Tem a ver com um evento que levou um menino da periferia, filho de operário, a tomar gosto por literatura desde cedo.  Pena que Zumbi dos Palmares se perdeu. E minhas lembranças dele são imprecisas, embora eu tenha certeza de que a capa era amarela. Não posso por isso falar do autor ou do conteúdo da obra. Mas, ele é sem dúvida o livro da minha vida.

O livro que ganhei encheu de orgulho meus velhos e foi uma presença quase que luxuosa num lar de gente sem recursos para munição de leitura. O título poderia ser outro. A cor da capa também. O que mais valeu foi a presença física de um objeto improvável numa casa operária dos anos de 1950.

A pequena foto que ilustra este post é um retrato do primeiro prédio do Grupo Escolar Coronel Francisco Martins (circa 1905). Encontrei-a no Centro de Referência em Educação Mário Covas. Estudei num prédio mais moderno, contruído nos anos de 1930

Francesco Tonucci: FRATO

fevereiro 18, 2009

tonucci-infantil1O educador italiano Francesco Tonuci é também um ótimo desenhista e ilustrador. Seus desenhos foram inspiração para um trabalho bonito sobre educação infantil feito por alunas de pedagogia da Federal de São Carlos. O material foi publicado no formato de revista eletrônica.

Arquitetura e educação: escola-favela

fevereiro 17, 2009

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A Folha de São Paulo de hoje (17/02/2009) publica, em C1, uma reportagem entitulada Estado põe aluno em ‘puxadinho’ de madeira. O jornal noticia e comenta a construção de seis salas de aula dentro da quadra esportiva da escola. Na verdade, a ‘construção’ se resume em montar na quadra seis barracos de madeirite. Os alunos que usarão o puxadinho, como diz a Folha, vivem no Jardim Ângela, periferia de São Paulo. Na matéria, a repórter enfatiza a falta de planejamento e faz perguntas sobre prováveis dificuldades para aulas de educação física. As autoridades não se abalam. Suas declarações sugerem que o acontecimento não trará prejuízos de ordem pedagógica.

A escola que vai ganhar o puxadinho tem outros problemas. Lá há ainda três turnos diurnos: 7h-11h, 11h-15h, e 15h-19h. Cabe reparar que não há qualquer intervalo de tempo entre os turnos. O que faz supor um problema de circulação na entrada e saída de alunos. Outra coisa: os puxadinhos não resolverão o problema: a escola continuará com três turnos diurnos.

Tudo isso está acontecendo num período em que as aulas deveriam ter começado. Por isso a reportagem sugere falta de planejamento, incúria administrativa, improvisação, má qualidade da oferta de oportunidades educacionais. Tudo a ver com o fato noticiado. Mas, quero aqui sugerir uma análise que pouco aparece em comentários de casos como o que  mereceu atenção da Folha. Quero situar o fato no campo daquilo que venho chamando de arquitetura e educação.

A escritora Alison Lurie, em artigoque já citei aqui,  observa que a organização da arquitetura escolar que dá  às crianças espaços pessoais, elementos de conforto, móveis e materiais de qualidade, variedade de espaços próprios para diferentes atividades passa uma mensagem positiva. Diz tacitamente  para as crianças que elas são valiosas. Essa mensagem é mais importante ainda para crianças pobres que não tem em suas casas espaços semelhantes.

Ao ver a notícia publicada pela Folha fiquei pensando nas palavras de Alison Lurie. E, infelizmente, fui levado a tirar conclusões desagradáveis. Os puxadinhos mandam uma mensagem negativa para as crianças. Eles, mais que falar, gritam que os alunos daquela escola valem muito pouco. Qualquer improvisação do espaço “resolve o problema”. É tudo que merecem, uma escola favelizada em sua arquitetura.

A figura que abre este post é um ensaio para capa do famoso livro de Ivan Illich, Sociedade sem Escolas (cf. tupi’s photostream). O artista, a meu ver, faz uma leitura muito original da obra de Illich. Em vez de interpretá-la a partir das lentes da Escola Nova (coisa muito frequente), considera a desescolarização crescente dos prédios escolares destinados aos pobres.

Scratch: informações e dúvidas

fevereiro 16, 2009

scratch-2Já registrei aqui proposta de Bernie Dodge caracterizando uma  oficina sobre o Scratch para professores. Anuncio agora um roteiro de slides que Bernie utilizou para apresentar o assunto e desafios de produção na citada oficina. Creio que isso pode ser útil para quem estiver interessado em trabalhar com a ferramenta construída pelo pessoal do MIT.

Por outro lado, certo anjo cantado por Drummond me soprou dúvidas sobre a ferramenta que vem despertando tantos entusiasmos. Talvez seus evangelistas estejam prometendo demais. Esta, pelo menos, foi a impressão que me ficou da leitura de um artigo de Mitchel Resnick,  o pai do Scratch.  Minhas dúvidas estão registradas em post recente:  Crikets, Scratch e Machados de Pedra.

Botecos de referência

fevereiro 16, 2009

blogbeer-1Tem hospital de referência. Tem clínica de referência. Tem referência literária. Nada mais justo e adequado, portanto, que botecos de referência. Por isso, procuro neste canto indicar os botecos virtuais que valem a pena, locais exemplares para bons papos na blogosfera.

Com o passar do tempo, a história dos negócios faz com que certas casas deixem de funcionar. Mas o mercado é dinâmico, outras boas casas vão surgindo. Por isso, planejo reformular minha lista de botecos que aparece aí do lado. Enquanto a nova lista fica aguardando  oportunidade,vou adiantar aqui nome de boas casas que ando encontrando recentemente. Interessados poderão visitá-las com o recurso normal da clicada. Aqui vai o primeiro dos novos botecos que merece visita:

Mais música na escola

fevereiro 15, 2009

well-tempered-mind

Continuo, lá no Aprendente a comentar a obra A Well-Tempered Mind, livro que narra a aventura e resultados da presença de um quinteto de sopro da orquestra sinfônica de Wiston-Salem numa escola pobre e com alunos que tinham dificuldades de aprendizagem. Estou indo devagar, no estilo slow blogging. Desta vez resumo e comento o primeiro capítulo da obra: Fanfare. O espaço já mereceu a honra da visita de Carme Miró, grande educadora catalã.

Interessados podem ir até lá com um clique aqui.

Botecos e academias

fevereiro 15, 2009

Para clarear o sentido da conversa em botecos e bares da vida prometi, desde a inauguração deste Boteco Escola, postar aqui de vez em quando coisas  relacionadas com a cultura botequeira. Mas, quase sempre, me esqueço do compromisso. Por sorte, acabo de receber mensagem de meu amigo Juvenal com informação sobre a cultura maior de todos nós. Trata-se de uma reflexão comparativa que procura ver quais são as vantagens de frequentar bares e academias. Vejam o resultado no texto que segue.

Por que será que é mais fácil freqüentar um bar do que uma academia? Para resolver esse grande dilema, foi necessário freqüentar os dois (o bar e a academia) por uma semana. Vejam o resultado desta importante pesquisa:

Vantagem numérica:
– Existem mais bares do que academias.
Logo, é mais fácil encontrar um bar no seu caminho.
*1×0 pro bar.**

Ambiente:
– No bar, todo mundo está alegre. É o lugar onde a dureza do dia-a-dia amolece no primeiro gole de cerveja.
– Na academia, todo mundo fica suando, carregando peso, bufando e fazendo cara feia.
*2×0.**

Amizade simples e sincera:
– No bar, ninguém fica reparando se você está usando o tênis da moda. Os companheiros do bar só reparam se o seu copo está cheio ou vazio.

*3×0.*

Compaixão:
– Você já ganhou alguma saideira na academia?
Alguém já te deu uma semana de ginástica de graça?
– No bar, com certeza, você já ganhou uma cerveja ‘por conta’.
*4×0.*

Liberdade:
– Você pode falar palavrão na academia?
*5×0*.

Libertinagem e democracia:
– No bar, você pode dividir um banco com outra pessoa do sexo oposto, ou do mesmo sexo, problema é seu…
– Na academia, dividir um aparelho dá até briga.
*6×0.**

Saúde:
– Você já viu um ‘barista’ (freqüentador de bar) reclamando de dores musculares, joelho bichado, tendinite?
*7×0.*

Saudosismo:
– Alguém já tocou a sua música romântica preferida na academia? É só ‘bate-estaca’ , né?
*8×0.*

Emoção:
– Onde você comemora a vitória do seu time?
No bar ou na academia?
*9×0.*

Memória:
– Você já aprontou algo na academia digno de contar para os seus netos?
*10×0 pro BAR!!!**

Portanto, se você tem amigos na academia, repasse este e-mail para salvá-los do mau caminho!**

PS: Você já fez amizade com alguém bebendo Gatorade???

ENTÃO, VAMOS SIMBORA PRO BAR!!!
BEBER, CAIR E LEVANTAR…

Crickets, Scratch e Machados de Pedra

fevereiro 15, 2009

Acabo de ler o artigo Sowing the Seeds for a more Creative Society,  de Mitchel Resnick, do MIT Media Lab. No texto, o autor procura mostrar que nosso mundo hoje é uma Sociedade Criativa, uma compreensão que vai muito além de conceitos como os de Sociedade da Informação ou Sociedade do Conhecimento. No confronto com este último conceito, a Sociedade Criativa exige, além de construção de conhecimentos, capacidades para resolver de modo criativo os problemas que vão surgindo com muita rapidez em nossa sociedade.

scratchResnick aponta a necessidade de uma educação atenta e capaz de promover aprendizagens sintonizadas com nosso mundo. Sugere que duas tecnologias que desenvolveu no MIT com suas equipes de trabalho, o Cricket e o Scratch, são ferramentas que podem ajudar as crianças a desenvolverem as habilidades criativas demandadas pelos novos tempos. Ambas as tecnologias permitem que as crianças inventem e  elaborem produtos interessantes. No processo, a produção irá exigir  imaginação, domínio de determinados conteúdos e alguma programação para que os computadores concretizem  os resultados desejados. Aqui e ali, o texto de Resnick ia me lembrando promessas feitas pelos entusiastas do Logo [e no final do artigo o próprio Resnick nota que ambas as tecnologias tem certas ligações com as idéias já presentes na famosa programação da tartaruga].crickgirl-new

Sou professor de tecnologia educacional com mestrado na disciplina num dos mais afamados departamentos de tecnologia educacional das universidades americanas, o EdTech Department da San Diego State University. Deveria, portanto, anunciar o artigo do Resnick com um sentimento de esprit de corp orgulhoso das novas conquistas de nossa corporação. Mas na leitura, um anjo torto me soprou dúvidas que não querem calar. Fiquei pensando: criatividade não é uma demanda dos novos tempos, é uma demanda humana de sempre. Nossos ancestrais, capazes de ver nas pedras machados muito bem talhados, às vezes mais bonitos que funcionais, eram criativos. E criativos tinham de ser os aprendizes da arte de fazer machados na distante cultura auchelense.

O tal anjo torto ainda me sugeriu outra heresia. O entusiasmo pelo Cricket e pelo Scratch lembra certas virtudes que se proclamou certa vez com relação  à aprendizagem do xadrez. Mas como já disse o arguto Jaguar: “aprender xadrez desenvolve de modo significativo … a capacidade de jogar xadrez”.