Celular: inferno para os outros

proibido-celularAcabo de voltar de uma clínica de fisioterapia. O tornozelo do pé fraturado continua uma bola. Hoje, a fisioterapeuta resolveu tentar algo novo, um tratamento com calor no final da sessão. Deitei-me numa maca. Meu tornozelo foi envolvido por duas chapas ligadas a um aparelho. Durante vinte minutos tive que ficar com a perna imóvel recebendo os benefícios da aplicação que a fisioterapeuta resolveu fazer.

Na clínica, as macas estão separadas umas das outras por cortinas de plástico ou finas paredes de gesso. Assim, diversos pacientes podem receber tratamento devido sem invasão de privacidade. Como deveria ficar praticamente imóvel por vinte minutos, peguei um livro e pus-me a ler. Outra alternativa seria a de aproveitar o momento de relativa tranquilidade para uma meditação.

Não consegui ir longe na minha leitura. Nem pude meditar. Na maca ao lado, uma paciente fazia contínuas chamadas telefônicas. Num dos diálogos a coisa rolou mais ou menos assim:

_ Onde cê tá? (…) Ah! Bão. (…) … Unhum. (…) Tô aqui na fisioterapia. Não te contei? (…) (…). A gente se fala. Vou sair logo. Ligo daqui meia hora. (…) Ligo sim. Vamos ver se a gente sai hoje. Te ligo. (…)  Sim, quando sair daqui. (…) Te ligo. Tchau.

E vieram outros telefonemas. Os assuntos eram sempre os mesmos: estou aqui, te ligo, te ligo hoje mesmo. Tudo dito em voz alta, desconsiderando outros pacientes deitados nas macas ao lado e condenados a escutar conversas pessoais sem sabor. Fiquei irritado. Tive vontade de falar umas bobagens em voz alta. Me contive. E,claro, não pude aproveitar aquele momento que prometia ser tranquilo.

Saio da clínica e pego um ônibus para voltar para casa. Sento-me ao lado de um moço que não para de manejar o celular. Olha a tela. Põe o aparelho no bolso. Tira-o do bolso. Aciona uns botões. Põe o aparelho no bolso. Faz chamadas rápidas (não mais que três palavras). Põe o treco no bolso outra vez. Toda essa movimentação me traz desconforto pois o bolso do celular está do meu lado. Sou obrigado a me encolher cada vez que o celular vai ou vem. Além disso, sou obrigado a escutar os grunhidos das chamadas curtas. Fico com a nítida impressão de que o moço quer mostrar seu brinquedinho tecnológico que, certamente, está sendo adquirido em suaves prestações e juros bem altos.

No banco de trás, uma senhora com problemas de audição também maneja seu celular numa ligação cumprida. Grita que não está escutando. Diz que já está no ônibus. Fala umas abobrinhas, sempre com voz muito alta. Num banco ao lado, uma mocinha namora via celular. Gentes dos bancos próximos escutam algumas intimidades de uma amor adolescente. Me dá, outra vez, vontade de falar umas besteiras em voz alta . Me contenho.

O que é que todos estes episódios tem em comum? Todos eles são atos de invasão do espaço público e dos espaços individuais alheios. São fisiologicamente desagradáveis. Nenhuma das conversas era urgente. Nenhuma vida foi salva. Nenhuma revelação de vidinhas tão comuns despertou curiosidade dos outros.

Anos atrás, tinha um colega de trabalho que nas conversas aproximava seu rosto a poucos centímetros do rosto do interlocutor. Era evitado. E quando conversava com alguém, a vítima ia afastando como podia seu rosto da cara invasiva do chato. O desconforto era fisiológico. Desconfio que temos um certo espaço vital que queremos ver respeitado. E esse espaço não é apenas táctil. É também visual e sonoro. A posse de um celular não confere qualquer direito de desrespeitar essa coisa vital.

Depois de escrever este post, encontrei um artigo que merece ser lido. Se você arranha o inglês, não deixe de dar uma olhada em

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21 Respostas to “Celular: inferno para os outros”

  1. Doralice Araújo Says:

    O, Jarbas?! Emprestei o seu texto para diversificar as leituras, lá no NA MIRA DO LEITOR; um abraço bem festivo.

  2. jarbas Says:

    Oi Doralice,

    Visita sua é sempre uma honra. E raro privilégio quando a mesma vem acompanhada de indicação de texto meu em seu blog. Obrigadão, Jarbas.

  3. antoniomorales Says:

    Jarbas,
    Um dia desses estava eu no Auditório do Sesc Bauru para apreciar um show de música instrumental. Desses que exige total silêncio na platéia a não ser para aplaudir e manifestar aprovação de todos os modos entre as músicas executadas com maestria e perfeição. O Sesc já tem o cuidado de rodar uma gravação antes do início de cada show, com informações importantes e pedindo para os presentes desligarem seus aparelhos sonoros. Não bastasse, um dos músicos, antes de iniciar o show, reforçou o lembrete para que celulares fossem desligados.

    Inacreditável: menos de 05 minutos depois de iniciado o show, um celular tocou na platéia, quebrando a magia da música que começava a envolver os presentes, todos apreciadores da boa música instrumental brasileira.

  4. diana Says:

    olá jarbas,
    concordo contigo,
    celular é mal necessário, uma faca de 2 gumes…
    quantas vezes minhas aulas foram interrrompidas por um toque de celular?
    pior ainda, é quando o aluno baixa a cabeça, coloca a mão, meio que cobrindo o celular e conversa ao telefone como se nada tivesse acontecido…como se estivesse, por exemplo, em casa,
    certa vez, numa prova, um aluno recebeu uma chamada e blá bla blá… não quis chamar a atenção dele em meio aos colegas, pois já tinha visado antes da prova, que celular, não” mas, ele tinha chegado atrasado…bom, finda a prova, chamei ele num cantinho e disse pra ele que numa próxima vez, não deixasse isso acontecer, que eu sabia q ele era gerente de uma grande empresa, mas que horário de prova é sagrado e por aí vái, funcionou! nunca mais aconteceu,
    sabe,
    acho que o que falta mesmo, é um pouco de instrução e educação às pessoas, nesse sentido, de que o telefone pelo fato de ser celular NÃO DEVE E NÃO PODE tocar e ser atendido em todas as “células” possíveis e imagináveis.
    grande abs recifense,
    inté.

  5. carlito Says:

    Jarbas
    Passei por experiência semelhanta à sua, só que no consultório de um otorrino. Imagina um mundaréu de crianças chorando com dores de ouvido e de garganta junto com um monte de idosos surdos conversando – ou tentando conversar – e uns cinco adultos falando abobrinha no celular. É de emlouquecer.
    Mas a invasão de privacidade não é o único problema. Há um outro tão desagradável quanto que é o da interrupção de uma conversa ou de uma reunião. Você está expondo uma idéia ou fazendo algum acordo do que quer que seja e o celular de alguem toca. Todos param para o “desinfeliz” atender o telefone. Quando ele é um pouco educado, irá dizer:
    – Agora não posso falar, ligue mais tarde.
    Se for menos educado, atenderá o telefone e deixará todo mundo esperando acabar a conversa, obrigando todos a ouvirem as abobrinhas que tem a dizer ou, se não, as mazelas da família ou dos amigos.
    Também aproveitei seu texto para alertar muita gente sobre o desconforto que provocam com o mau uso desta porrinhola chamada celular.
    Carlito

  6. Mariana Says:

    Jarbas, só para concordar plenamente com você. Um dia desses vi duas pessoas em uma mesa de bar e cada uma falando ao seu celular durante um tempão, sem sequer olhar uma para a outra. Portanto, além de invadir o espaço alheio, estão roubando seu próprio tempo de conversa com quem está mais próximo.

    Abração.

    Mariana

  7. jarbas Says:

    Mariana,

    Bom ter você por aqui. Sua observação é ótima. Encontros em bares, botecos e restaurantes estão perdendo sentido. A gente vai lá papear com um amigo, mas, se o celular é prioridade para ele, o papo vira apenas atividade para ocupar espaço entre as chamadas do celular. E se você, como eu, não é um fanático por telefones móveis, fica com cara de tacho.

    Apareça sempre. Grande abraço

  8. jarbas Says:

    Grande Carlito,

    Belas observações. Ótimos exemplos. Tá na hora de formarmos uma liga de inimigos dos celulares. Melhor: inimigos dos consumidores de intercâmbio imediato e teleôndico de abobrinhas. Na próxima vez que um amigo (pseudo) atender a um celular durante um papo comigo num boteco prometo abandonar o gajo de imediato. Abraço grande, Jarbas.

  9. jarbas Says:

    Alguns amigos preferiram comentar este post via e-mail. Para registro,vou reproduzir as ditas mensagens aqui. Começo com palavras de Ana Felippe, grande amiga carioca:

    ‘Beleza, meu amigo.
    a sua reflexão…
    e o texto in English.
    obrigada. Vou usar quando necessário; isto é: sempre.

    … mas que eu teria sido menos comedida que você… isso eu teria.
    abraço,
    Ana
    Rio de Janeiro’

  10. jarbas Says:

    De Jaú, veio, via e-mail, esta outra mensagem. Obra do meu amigo Celso Polini, dublê de educador e jornalista.

    ‘Olá Jarbas, achei legal o texto. Gostaria de saber se você autoriza a publicação em um jornal local do qual eu faço parte como colaborador. Aliás não temos nenhum colaborador que escreva sobre educação, assim faço a sugestão para os integrantes do grupo que se interessarem. Só tem um problema…não é remunerado…seria mais como contribuição sobre o assunto para os leitores.
    Quem se interessar…..
    Caso queiram conhecer o jornal… http://www.jornalgente.com.br

    Abraços///Celso’

    Via e-mail, mandei para o Celso autorização para publicar a mtaéria em jornal lá de Jaú.

  11. jarbas Says:

    Cá está outro comentário enviado via e-mail. Mandou-o minha amiga Cleo, provavelmente lá de São CaRRRlos.

    ‘Jarbas: Adorei!!! Tenho horror de celular em qualquer lugar, pois, além de sermos obrigados a ouvir baboseiras dos outros, luzinha na sua cara, quando está no cinema, teatro etc., agora ainda tem essa de os babacas ficarem vendo e ouvindo besteiras da TV em ônibus, na rua etc. e você é obrigado a ouvir também, como aconteceu comigo recentemente no ônibus. É mole????

    Abraço

    Cleo’

  12. jarbas Says:

    Outro comentário sobre a matéria veio lá de Sorocaba, obra do Chico de Moraes (o comentário, não Sorocaba). Reparem na ironia. Ou será que o Chico fez a proposta a sério?

    “Algumas operadoras oferecem serviço de teleconferência nos tais telemóveis… Pode ser uma ferramenta útil prá debater o tema em sintonia com a “modernosidade” !!! EH EH EH.. Chico dMoraes.”

  13. antoniomorales Says:

    Jarbas,

    Como o comentário do Chico foi uma espécie de réplica a uma mensagem minha eu a coloco aqui para completar a conversa:

    Pelo jeito que tem muita gente que detesta a maquininha,
    que virou uma verdadeira praga e o que acontece em larga
    escala é o seu mau uso em todas “as “células” possíveis e
    imagináveis” como disse a Diana em outro comentário.

    Contudo, temo que essa seja mais uma batalha perdida.
    Um verdadeiro moinho de vento para os Quixotes de nossa
    época.

  14. Juliana Lima Says:

    Oi, professor!

    Apesar de não ser mais sua aluna, gostaria de dizer que de vez em nunca eu apareço aqui no seu blog para dar uma olhadinha e claro, além de aprender sobre novidades, rir com posts como este, que fala sobre o celular… Eu sei que o senhor odeia, mas é um mal necessário nos dias atuais e existe aquele velho ditado: O que não tem remédio, remediado está, então não se stresse com esta ferramenta que só veio para nos ajudar… Pense pelo lado positivo.

    Um grande abraço e sinto falta das aulas!

  15. jarbas Says:

    Oi Ju,

    Não some não. Agora sim,você tem aparecer sempre neste Boteco. Para alunos, a frequencia é livre. Para os amigos, é obrigatória.

    Minha ojeriza nada tem a ver com o aparelhinho. Tem a ver com a cultura que ele promove. Nela não vejo nenhuma vantagem. Só defeitos.

    Abraço grande, Jarbas.

  16. Kelly Angelita Ferreira Says:

    Enviei o seu texto para os meus colegas de trabalho do setor de vendas. Quem sabe funciona.

  17. Luiz Marin Says:

    Li teu texto com dificuldade. Lá embaixo alguém anuncia sem parar por um alto-falante “Venha freguesia, melancia graúda 4 reais cada melancia.Melancia da boa, freguesia”

    • jarbas Says:

      Oi Patrícia,

      Acho temos de avisar essa gente que invasão de espaço público é barbárie. E mais: temos de exigir nosso direito a paz, tranquilidade. A posse de um celular não é licença para invadir territórios vitais de ninguém.
      Há uns entusiastas (bobos, diria minha finada vó) por produtos tecnológicos que ficam reafirmando que uso desrespeitoso do celular é “liberdade”. Mentira. Usos como os que descrevi são abusos.
      No fundo, a discussão que proponho é política. E os tecnófilos (bobos, diria minha vó) não percebem e não querem discutir isso.
      Nada tenho contra avanços tecnológicos. O que me irrita é uso de tecnologia com desconsideração pelo outro.
      Muito bom vê-la aqui no Boteco. Apareça mais vezes. Abraço, Jarbas.

  18. patrícia Says:

    Oi Prof. Jarbas,
    Pois é, o celular incomoda em muitas ocasiões. Bem lembrado o amigo que acima citou o uso do aparelho como “radinho” ou tv no ônibus: no caminho pra USP que faço todos os dias, muitos estudantes têm esse hábito (puxa… logo a galera da USP, que é considerada elite, gente muito bem educada…). Todos usam fones, mas tão alto ou com fones de tão má qualidade que a gente é obrigado a ficar ouvindo os zunidos de qualquer coisa que a pessoa esteja ouvindo. Em um passeio de domingo, dia desses, desci do trem para pegar outro (quase quinze minutos de espera entre um e outro) para não ter que dividir espaço com um rapaz que assistia tv no celular sem nem colocar os fones.
    Será possível fazer alguma coisa com relação a isso? Talvez alguma campanha pela internet?

    • jarbas Says:

      Oi Patrícia,

      Acho temos de avisar essa gente que invasão de espaço público é barbárie. E mais: temos de exigir nosso direito a paz, tranquilidade. A posse de um celular não é licença para invadir territórios vitais de ninguém.
      Há uns entusiastas (bobos, diria minha finada vó) por produtos tecnológicos que ficam reafirmando que uso desrespeitoso do celular é “liberdade”. Mentira. Usos como os que descrevi são abusos.
      No fundo, a discussão que proponho é política. E os tecnófilos (bobos, diria minha vó) não percebem e não querem discutir isso.
      Nada tenho contra avanços tecnológicos. O que me irrita é uso de tecnologia com desconsideração pelo outro.
      Muito bom vê-la aqui no Boteco. Apareça mais vezes. Abraço, Jarbas.

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