Archive for 26 de fevereiro de 2009

Celular: inferno para os outros

fevereiro 26, 2009

proibido-celularAcabo de voltar de uma clínica de fisioterapia. O tornozelo do pé fraturado continua uma bola. Hoje, a fisioterapeuta resolveu tentar algo novo, um tratamento com calor no final da sessão. Deitei-me numa maca. Meu tornozelo foi envolvido por duas chapas ligadas a um aparelho. Durante vinte minutos tive que ficar com a perna imóvel recebendo os benefícios da aplicação que a fisioterapeuta resolveu fazer.

Na clínica, as macas estão separadas umas das outras por cortinas de plástico ou finas paredes de gesso. Assim, diversos pacientes podem receber tratamento devido sem invasão de privacidade. Como deveria ficar praticamente imóvel por vinte minutos, peguei um livro e pus-me a ler. Outra alternativa seria a de aproveitar o momento de relativa tranquilidade para uma meditação.

Não consegui ir longe na minha leitura. Nem pude meditar. Na maca ao lado, uma paciente fazia contínuas chamadas telefônicas. Num dos diálogos a coisa rolou mais ou menos assim:

_ Onde cê tá? (…) Ah! Bão. (…) … Unhum. (…) Tô aqui na fisioterapia. Não te contei? (…) (…). A gente se fala. Vou sair logo. Ligo daqui meia hora. (…) Ligo sim. Vamos ver se a gente sai hoje. Te ligo. (…)  Sim, quando sair daqui. (…) Te ligo. Tchau.

E vieram outros telefonemas. Os assuntos eram sempre os mesmos: estou aqui, te ligo, te ligo hoje mesmo. Tudo dito em voz alta, desconsiderando outros pacientes deitados nas macas ao lado e condenados a escutar conversas pessoais sem sabor. Fiquei irritado. Tive vontade de falar umas bobagens em voz alta. Me contive. E,claro, não pude aproveitar aquele momento que prometia ser tranquilo.

Saio da clínica e pego um ônibus para voltar para casa. Sento-me ao lado de um moço que não para de manejar o celular. Olha a tela. Põe o aparelho no bolso. Tira-o do bolso. Aciona uns botões. Põe o aparelho no bolso. Faz chamadas rápidas (não mais que três palavras). Põe o treco no bolso outra vez. Toda essa movimentação me traz desconforto pois o bolso do celular está do meu lado. Sou obrigado a me encolher cada vez que o celular vai ou vem. Além disso, sou obrigado a escutar os grunhidos das chamadas curtas. Fico com a nítida impressão de que o moço quer mostrar seu brinquedinho tecnológico que, certamente, está sendo adquirido em suaves prestações e juros bem altos.

No banco de trás, uma senhora com problemas de audição também maneja seu celular numa ligação cumprida. Grita que não está escutando. Diz que já está no ônibus. Fala umas abobrinhas, sempre com voz muito alta. Num banco ao lado, uma mocinha namora via celular. Gentes dos bancos próximos escutam algumas intimidades de uma amor adolescente. Me dá, outra vez, vontade de falar umas besteiras em voz alta . Me contenho.

O que é que todos estes episódios tem em comum? Todos eles são atos de invasão do espaço público e dos espaços individuais alheios. São fisiologicamente desagradáveis. Nenhuma das conversas era urgente. Nenhuma vida foi salva. Nenhuma revelação de vidinhas tão comuns despertou curiosidade dos outros.

Anos atrás, tinha um colega de trabalho que nas conversas aproximava seu rosto a poucos centímetros do rosto do interlocutor. Era evitado. E quando conversava com alguém, a vítima ia afastando como podia seu rosto da cara invasiva do chato. O desconforto era fisiológico. Desconfio que temos um certo espaço vital que queremos ver respeitado. E esse espaço não é apenas táctil. É também visual e sonoro. A posse de um celular não confere qualquer direito de desrespeitar essa coisa vital.

Depois de escrever este post, encontrei um artigo que merece ser lido. Se você arranha o inglês, não deixe de dar uma olhada em

Música e educação: outro texto

fevereiro 26, 2009

Continuo, lá no Aprendente, a divulgar em resumos de capítulos a obra de Perret e Fox sobre música na escola. Desta vez, o texto que apresento resume o segundo capítulo da obra. A matéria narra como é o primeiro contato do quinteto de músicos profissionais com crianças do primeiro ano primário. Além da narrativa, o texto apresenta algumas considerações sobre origem e função social da música.

Se interessar, clique no destaque abaixo para ver a matéria publicada no meu outro blog.