Arquitetura e educação: escola-favela

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A Folha de São Paulo de hoje (17/02/2009) publica, em C1, uma reportagem entitulada Estado põe aluno em ‘puxadinho’ de madeira. O jornal noticia e comenta a construção de seis salas de aula dentro da quadra esportiva da escola. Na verdade, a ‘construção’ se resume em montar na quadra seis barracos de madeirite. Os alunos que usarão o puxadinho, como diz a Folha, vivem no Jardim Ângela, periferia de São Paulo. Na matéria, a repórter enfatiza a falta de planejamento e faz perguntas sobre prováveis dificuldades para aulas de educação física. As autoridades não se abalam. Suas declarações sugerem que o acontecimento não trará prejuízos de ordem pedagógica.

A escola que vai ganhar o puxadinho tem outros problemas. Lá há ainda três turnos diurnos: 7h-11h, 11h-15h, e 15h-19h. Cabe reparar que não há qualquer intervalo de tempo entre os turnos. O que faz supor um problema de circulação na entrada e saída de alunos. Outra coisa: os puxadinhos não resolverão o problema: a escola continuará com três turnos diurnos.

Tudo isso está acontecendo num período em que as aulas deveriam ter começado. Por isso a reportagem sugere falta de planejamento, incúria administrativa, improvisação, má qualidade da oferta de oportunidades educacionais. Tudo a ver com o fato noticiado. Mas, quero aqui sugerir uma análise que pouco aparece em comentários de casos como o que  mereceu atenção da Folha. Quero situar o fato no campo daquilo que venho chamando de arquitetura e educação.

A escritora Alison Lurie, em artigoque já citei aqui,  observa que a organização da arquitetura escolar que dá  às crianças espaços pessoais, elementos de conforto, móveis e materiais de qualidade, variedade de espaços próprios para diferentes atividades passa uma mensagem positiva. Diz tacitamente  para as crianças que elas são valiosas. Essa mensagem é mais importante ainda para crianças pobres que não tem em suas casas espaços semelhantes.

Ao ver a notícia publicada pela Folha fiquei pensando nas palavras de Alison Lurie. E, infelizmente, fui levado a tirar conclusões desagradáveis. Os puxadinhos mandam uma mensagem negativa para as crianças. Eles, mais que falar, gritam que os alunos daquela escola valem muito pouco. Qualquer improvisação do espaço “resolve o problema”. É tudo que merecem, uma escola favelizada em sua arquitetura.

A figura que abre este post é um ensaio para capa do famoso livro de Ivan Illich, Sociedade sem Escolas (cf. tupi’s photostream). O artista, a meu ver, faz uma leitura muito original da obra de Illich. Em vez de interpretá-la a partir das lentes da Escola Nova (coisa muito frequente), considera a desescolarização crescente dos prédios escolares destinados aos pobres.

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