Ferramentas intelectuais 1

sherlockEm posts anteriores sobre objetos de aprendizagem, mencionei David Carraher, dizendo que o mesmo insiste na necessidade de programas  “inteligentes” em usos educacionais  dos computadores. Eu deveria ter sido mais preciso. David insiste na necessidade de programas que sejam ferramentas intelectuais. Tais ferramentas são flexíveis e abrem, para os docentes, muitas oportunidades de criação e invenção. Exemplo de ferramenta inteligente é o software educacional Investigando Textos com SHERLOCK!, proposta criada por David Carraher.

Até pouco tempo, o Senac de São Paulo mantinha um página informativa sobre o software criado por David Carraher e produzido por uma equipe (PIE) da qual tive o prazer de participar. Na referida página havia um texto meu que procurava oferecer um panorama geral sobre concepção e uso do Sherlock. Reproduzo aqui parte do trecho que abordava a idéia de ferramenta intelectual.

Mais de uma vez, mencionou-se aqui o conceito de “ferramenta intelectual”. Chegou a hora de dar um pouco mais de atenção a esse conceito. A maior parte dos softwares educacionais são materiais didáticos organizados para ensinar algum conteúdo específico. Essa tendência, como observa George Miller, está baseada em imitações dos modelos didáticos já existentes. Nessa direção, o computador é utilizado para reproduzir velhos truques da escola. São comuns, por exemplo, os softwares educacionais que propõem exercícios para os alunos resolverem. São também muito conhecidos os programas que respondem perguntas dos aprendizes. Há ainda softwares que nada mais são que quadros negros eletrônicos. Há, finalmente, certos programas que podem ser caracterizados como apostilas eletrônicas. Esses modos de usar o computador em educação não introduzem mudanças significativas no campo do ensino e da aprendizagem. Fazem, como dizem os espanhóis, “más de lo mismo”. São, quase sempre, modos de transmitir conteúdos, pouco preocupados com os caminhos que as pessoas percorrem para aprender. Por todas essas razões, David Carraher costuma insistir na necessidade da criação de ferramentas intelectuais quando se pensa em produzir softwares educacionais. As ferramentas intelectuais são instrumentos que permitem que os educadores trabalhem estratégias de aprendizagem que as pessoas utilizam naturalmente (em ambientes não escolares). Tais estratégias de aprendizagem dependem de desafios. A gramática “natural”, por exemplo, é desenvolvida a partir de necessidades de comunicação (desafios correspondentes às duas perguntas: “como posso entender o que estão dizendo?” e “como posso falar de modo que os outros me entendam?”). Para tanto, usamos ferramentas que fazem parte do conjunto dos equipamentos comuns a todos os seres humanos. Softwares educacionais criados na perspectiva de ferramentas intelectuais procuram colocar em funcionamento um ou mais desses equipamentos que ”já vêm de fábrica”.

Possivelmente já nascemos com a capacidade de criar idiomas. Por isso, o desenvolvimento rápido e impressionante da linguagem nas crianças flui tão naturalmente. Sem qualquer ensino, nossas crianças aprendem com facilidade uma estrutura de relações simbólicas que os mais brilhantes cientistas do conhecimento ainda não conseguem explicar  muito bem. E, como já ficou registrado diversas vezes aqui, toda essa façanha é inconsciente. Por isso é difícil maravilhar-se com a constante reconstrução de nosso idioma por nossas crianças. Admirar a fascinante construção do idioma nativo é um privilégio de lingüistas. Mas algumas dimensões dessa fantástica capacidade humana podem ficar evidenciadas a partir do uso de ferramentas intelectuais que “abrem” o nosso conhecimento lingüístico. Isso pode gerar algumas alternativas interessantes de ensino e aprendizagem.

Uma das finalidades educacionais em alta é a do desenvolvimento de habilidades cognitivas. A meta é muito bonita, mas o caminho não é uma estrada pronta e bem mapeada. Professores e alunos precisam construí-la a partir de aventuras interessantes de aprendizagem. E, para isso, precisam de boas ferramentas. Aqui mora, talvez, o principal desafio para instructional designers e outros especialistas em educação.

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2 Respostas to “Ferramentas intelectuais 1”

  1. Carlos Seabra Says:

    A propósito deste post, lembro aqui um outro, também do Jarbas, postado em seu quase incógnito blog “Bagulhos & Lembranças”: http://bagulhos.splinder.com/post/6250330

  2. jarbas Says:

    O Seabra denuncia um lugar quase secreto, onde andei guardando alguns dos meus rascunhos. Quem quiser pode ver o Bagulhos. Acho até que vou anunciá-lo aqui, num post (ou poste) deste Boteco.

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