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Uso da faca nas refeições

fevereiro 9, 2009

talheres

Anos atrás, num boteco em Floripa, depois que fiz um comentário qualquer sobre detalhe da História da Idade Média, meu amigo Bernie Dodge disse:

_ Jarbas, você tem grande conhecimento de cultura inútil.

Bernie acertou na mosca. Eu nunca tinha pensado no assunto. Mas,  coleciono um número imenso de informações com as quais ou sem as quais o mundo continua a girar impávido. Apesar dos pesares, gosto dessas coisas de cultura inútil. Elas são ótimas para papos regados por um chope gelado ou cachaça de qualidade. Ou até sem ingredientes tão indispensáveis nos botecos da vida.

Fiz um longo intróito para justificar este post. Desculpas feitas,vamos ao que interessa.

Nos meus tempos de garoto, ouvi diversas normas de etiqueta sobre uso da faca em refeições. Todas elas estabelecendo certas proibições. Lembro-me ainda das seguintes orientações:

  • Utilize garfo para partir peixe. A carne de pescado é suficientemente tenra para evitar uso indevido da faca.
  • Jamais utilize faca para cortar folhas da salada. Estas devem ser dobradas com o garfo em quantidades adequadas para serem levadas à boca (com uso do garfo, é claro!).
  • Não utilize faca para no apoio ao garfo na acomodação da comida no prato.

Nunca entendia a lógica por trás de tais normas de etiqueta. Há folhas de alface enormes. É muito difícil dobrá-las em embrulinhos que posam ir à boca de modo elegante. É muito mais fácil cortar tais folhas em pedaços manejáveis.  Conhecedores de bons modos à mesa nunca me souberam explicar os porquês de tais normas. Eles apenas me diziam que elas orietavam comportamentos bem educados.

Agora comecei a entender por que a faca tem uso muito restrito e regulado à mesa. Ela praticamente ficou confinada ao corte de carne. Os povos bárbaros da Europa, guerreiros e caçadores, estavam sempre armados com faca. Esta era um instrumento muito útil para levar comida à boca. Quando as refeições dos nobres começaram a ser reguladas, o uso da faca foi ficando bastante restrito. Todas as normas de bom comportamento à mesa tentavam evitar que um instrumento de violência, uma arma, fosse usado. As normas de etiqueta tentavam converter guerreiros em pacíficos comensais. Essa explicação, que faz muito sentido, pode ser vista num livro que estou acabando de ler: The Craftsman, de Richard Sennett.