Blogs para dizer a própria palavra

Blogs são uma ferramenta concebida para que as pessoas possam dizer a própria palavra. Mas, em ambientes escolares, os blogs são usados muitas vezes para que os alunos apenas digam as palavras autorizadas. Tenho dois exemplos sobre isso.

Ano passado, um respeitado jornalista imaginou um projeto no qual os alunos da rede pública poderiam escrever no ambiente web aquilo que quisessem. Apresentou a idéia a altos funcionários da secretariada educação. À certas altura, uma das eduburocratas da secretaria lhe disse: precisamos de instrumento de controle para examinar e aprovar os textos dos alunos antes da publicação. O jornalista, pavio curto, disse um palavrão e concluiu “é por isso que as pessoas não aprendem a escrever nas escolas”.

Em 2002/3 fiz uma proposta de usos de blog para uma rede de ensino. Os rapazes e moças, alunos de programas de educação profissional escreviam sobre suas experiências pessoais nos estágios. A atividade poderia levantar pontos importantes para a reflexão sobre a articulação entre escola e mundo produtivo. A experiência não foi para a frente. Uma supervisora do sistema determinou que todos os textos fossem revistos antes da publicação por professores de português. Argumentei que a medida inibiria os alunos. Rever textos poderia ser atividade pós-publicação, inclusive com participação dos leitores. A supervisora me revelou o verdadeiro motivo da medida: impedir que os alunos escrevessem qualquer coisa que pudesse desabonar as empresas onde estagiavam. Disse a quem de direito que,  para mim, aquilo era censura. Em vão. A supervisora e a instituição só aceitavam “textos revisados”. Uma pena!

As lembranças deste post  me vieram à memória porque acabo de ver um desenho do  grande educador italiano Francesco Tonucci. Veja o que ele desenhou.

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4 Respostas to “Blogs para dizer a própria palavra”

  1. diana Says:

    …pois é Jarbas…

    é quase sempre assim…
    muito se fala em ampla liberdade, mas na hora de praticar, o que vigora são os formatos ditados pelos “que podem”…

    é mesmo uma pena…

    isso me lembra muito a história do pequeno príncipe, no momento inicial do livro onde o autor era ainda criança, desenhou uma jibóia que havia engolido um elefante… ele muito feliz com sua obra, mostrou a vários adultos, que não entenderam o desenho dele…(todos diziam ser um chapéu) de tão chateado, parou de desenhar…

    anos depois, já na vida adulta, piloto, uma pane no deserto o obrigou a um pouso de emergência… onde ele conhece um pequeno príncipe… que, solicita a ele um desenho… uma ovelha…
    ele repete o mesmo desenho, e pra sua surpresa, o pequeno príncipe ao se deparar com o desenho, indaga-lhe: – eu não pedi uma cobra que engoliu um elefante…
    ao ser compreendido, o Antoine de Saint Exupery volta a desenhar…

    O Oscar Niemeyer também fala dos desenhos infantis, quando crianças, sabemos desenhar QUALQUER COISA, mas de tanto sermos repreendidos , crescemos (a maioria de nós), sem saber desenhar…

    pois bem,
    como atingir um determinado público se não falamos a linguagem que ele entende?

    que diabos de democracia é essa, onde nossos alunos não tem ampla liberdade de expressão?

    apóio a sua indignação!

    abs recifenses, inté.

  2. Suely Says:

    Oi, Jarbas!

    Ando pela blogosfera há dois meses mais ou menos… como autora…
    Antes andava como leitora… silenciosamente… mas não menos participante…
    Dessas minhas andanças silenciosas e bastante instigadoras – vocês blogueiros me provocaram até eu dizer minha palavra – estou no Ufa! Bloguei!
    Primeiro, para experimentar a sensação da autoria e, depois, contagiar meus(minhas) alun@s…
    Tuas considerações sobre a censura às produções dos alunos vêm ao encontro do que eu vivencio na sala de aula: @s alun@s escrevem para @ professor (a) corrigir… e não por que têm alguma coisa a dizer… a escrita perde a função social – interlocução, se esvazia, se burocratiza…
    Penso que os blogs vem quebrar esse modelo… mas devemos estar atent@s para não reproduzir nos blogs essa burocracia, como exemplificaste no post!!!

    Abraços!

  3. jarbas Says:

    Oi Fessora Diana,

    Bom ver você aqui. Na área de artes o problema costuma ser sério. No geral o que fazíamos em artes era utilizado para mostrar nossa incompetência.O artista plástico Nelson Leiner costuma dizer o tipo de ensino que temos nas escolas nos faz odiar arte. E no princípio, todos nós éramos capazes de auto-expressão com muita beleza. Os padrões rígidos que nos foram impostos acabaram por nos tornar analfabetos em artes.

    Participei de um exercício que o Nelson faz para mostrar aos participantes que todos somos capazes de produzir obras com certa beleza. Sai convencido. Pena que 12 anos de escolarização básica foram gastos para mostrar minha total falta de jeito para desenho, pintura, escultura etc.
    Abraço, Jarbas.

  4. margaretebarbosa Says:

    Caro Jarbas!

    Você diz que os “Blogs são uma ferramenta concebida para que as pessoas possam dizer a própria palavra. “ Comecei a ler (lentamente…) um livro de Gusdorf (“A Fala”), e uma frase me chama a atenção: “Vir ao mundo é tomar a própria palavra”. Percebi uma estreita relação com sua frase…
    Jarbas, como é difícil tomar e dizer a ‘própria palavra’ sem medo de ser rechaçado (a)… Tenho ‘embarcado’ no mundo da blogosfera desde o final de 2008, embora muito timidamente. Este ano, com sua ajuda e incentivo, resolvi ser mais ‘atrevida’. Mesmo assim é difícil…
    Mas ao mesmo tempo em que percebo que essa dificuldade é mais minha do que de ‘fora’, tenho procurado me colocar, tenho tomado a minha ‘própria palavra’, no meu blog e em outros nos quais deixo comentários. Tento me ‘desafiar’ e também tento me fazer Presente no mundo. Lembrando o que você disse em uma outra postagem, tenho tentado ‘conhecer e ser conhecida’; tenho elaborado e re-elaborado meus projetos pessoais, meu Projeto de Vida a partir disso. Que bom que tudo isso tem sido uma possibilidade real, bastando acessar e acessar-se…
    Um super abraço!
    Margarete Barbosa

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