Archive for 4 de fevereiro de 2009

Tecnologia, arquitetura e educação

fevereiro 4, 2009

vesalius

Talvez alguém esteja achando estranhos meus posts sobre arquitetura e educação. Se este alguém existe, deve estar perguntando: o que isto tem a ver com tecnologia? Tem tudo. Tecnologias dependem de máquinas e equipamentos. E estes, quando entram na cultura, segundo Neil Postman, alteram completamente o meio. As alterações se dão nos âmbitos das culturas espiritual  e material. A TV, por exemplo, mudou completamente nossas maneiras de valorar (âmbito do espírito) a imagem. Quem quiser estudar mais isso precisa visitar o indispensável The Image, de Daniel Boorstin. E a sala de estar de todas as residências – não importando classes sociais – teve uma mudança profunda para acomodar em lugar nobre o aparelho de TV (cultura material).

Em posts futuros, vou ainda situar alguns exemplos que tem a ver como que estou chamando de arquitetura (com destaque para a raiz grega “arché” – princípio fundante). E para encerrar a série, pretendo abordar mais especificamente a presença dos equipamentos de comunicação e informação nas escolas.

Sala da diretora X sala dos professores

fevereiro 4, 2009

A primeira vez que refleti sobre arquitetura e educação foi na inauguração de um prédio escolar, ali pelos idos de 1980. O edifício era moderno com muitos recursos. Impressionou-me a sala da diretora. Ampla, com dois ambientes. Ao fundo, a mesa de trabalho, grande com uma cadeira muito confortável, e outras três cadeiras, também confortáveis, para prováveis visitantes. Na parte da frente, uma mesa redonda com seis cadeiras. Entre um e outro ambiente  poltronas e um frigobar. No chão, dois tapetes de muito bom gosto. Na parede, diversas gravuras.

No mesmo corredor, uma salinha pouco arejada (com metragem quadrada inferior à metade das dimensões da sala da diretora), mobiliada com uma mesa modesta e umas seis cadeiras muito simples. Num canto, um aparador com tampo de fórmica acomodava a garrafa de café e  pacotes de copos de plástico. Nenhum tapete. Nenhuma gravura. Era a sala dos professores.

Os dois ambientes concretizavam o discurso da organização mantenedora. Os diretores eram “gestores”, responsáveis pela produção. Esperava-se que fossem criativos, entusiasmados, bons de marketing, hábeis administradores. No discurso não havia uma fala muito explícita sobre os professores. E talvez o que a organização julgava ser o papel dos mestres não pudesse ser dito com todas as letras. Mas a arquitetura do prédio gritava para quem quisesse escutar como os professores eram vistos.

A partir desse evento comecei a prestar atenção na arquitetura escolar. Edifícios e equipamentos refletem os valores das organizações educacionais. Mas não é só isso. Edífícios e equipamentos, na sua organização, desenho, qualidade, quantidade, dimensões, conforto contam estórias. Ensinam. Mostram o que é importante. Enfatizam o que precisa ser aprendido.