Prédios e equipamentos escolares ensinam

caetano-de-campos

Em meu post anterior – Arquitetura e Educação – disse que gostaria de utilizar referência que encontrei no New York Review of Books. Estava pensando na resenha The Message of Schoolroom, de Alison Lurie, publicada na edição de 4 de dezembro de 2008. O texto aborda três obras recentes: School, de Catherine Burke e Ian Grosvenor, Small Wonder: The Little Red Schoolhouse in History and Memory, de Jonathan Zimmerman, e Teaching Boys and Girls Separately, de Elizabeth Weil. Todas essas obras têm alguma relação com o currículo tácito que ensina por meio do ambiente físico das escolas.

A questão da arquitetura em educação não é apenas um assunto voltado para conforto ambiental e função de prédios e equipamentos. Ela é uma dimensão importante daquela parte do iceberg curricular que fica submersa. Exige certo mergulho teórico para perceber como os recursos físicos das instalações escolares passam mensagens às vezes mais poderosas que os conteúdos apresentados por professores ou materiais didáticos.

Não vou continuar a bater nesta tecla (por enquanto). Prefiro oferecer aos leitores uma amostra da análise feita por Alison Lurie. Traduzi a primeira parte de The Message of the Schoolroom, que comenta o livro School. Veja, a seguir, o que diz a escritora Alison Lurie.

De acordo com o clichê popular que diz que as pessoas são “produtos de certa escola ou universidade”, toda instituição escolar, da creche ao programa de pós-gradução, é um tipo de fábrica. O prédio pode ser parecido com uma bela mansão ou com um armazém caindo aos pedaços, mas a função é a mesma. A matéria prima (aluno) entra e quase sempre é transformada num tipo de pessoa convencionalmente associada com a instituição.

Em qualquer fábrica, empregados e tipo de planta física são necessários ao processo. Muito se escreveu a respeito da influência exercida por diferentes tipos de professores e de abordagens didáticas sobre os alunos, mas pouco se escreveu a respeito da influência dos edifícios escolares. Agora, porém, dois especialistas britânicos em arquitetura escolar, Catherine Burke e Ian Grosvenor, olham para estrutura [prédio e equipamento] fabril da educação como “um agente ativo”. No seu novo estudo, cujo título é simplesmente School (Escola), eles sugerem que continuamente, embora de modo silencioso, o prédio escolar diz aos alunos quem eles são e como devem pensar o mundo. O prédio pode ajudar a fabricar obediência automática ou atividade independente, ele pode criar elevada auto-estima ou baixa auto-estima.

É claro que há uma grande variação dentro do sistema educacional fabril, visível tanto aqui [nos EUA] como na Europa, que é o foco principal do livro de Burke e Grosvenor. A criança de três anos, vivaz, amigável, mas determinada, é um produto bem diferente do aluno de cursinho, educado, mas ambicioso, que está se preparando para o vestibular de uma grande universidade. Eles podem, talvez, ser a mesma pessoa. E as lições aprendidas na escola infantil podem ser reforçadas (ou negadas) anos depois num prédio muito maior. Como um aluno de pós-graduação disse certa vez: “Todas as janelas eram imundas, a pintura e o teto de gesso da cantina pareciam ruínas, e playground era cheio de lixo. O lugar era uma merda, e fazia você sentir uma merda”.

Professores e funcionários também recebem mensagens do prédio em que trabalham. Salas de aula precárias e com grande número de alunos, com móveis e equipamentos baratos e detonados, especialmente quando combinados com baixos salários, dizem aos adultos que as crianças das quais cuidam não valem grande coisa. No outro lado da escala, o crescimento temporário na auto-satisfação visível, acompanhado de grande conforto, em alguém que acaba de transferir-se para uma escola espaçosa, acarpetada, com paredes cobertas com madeira de lei é, muitas vezes, impressionante.

Para os alunos, os efeitos da arquitetura escolar podem ser muito grandes e permanentes. Para as crianças do pré, sua creche ou escola infantil transmite-lhes uma mensagem silenciosa, mas dramática. Equipamento de qualidade e bonito, salas confortáveis, e grande número de brinquedos interessantes não só deixam as crianças felizes, mas também lhes dizem que elas merecem o melhor. O páteo sem árvores e grama de uma creche popular, com suas gangorras avariadas e piscina de plástico furado, passa a mensagem contrária; mensagem que nem mesmo a professora mais carinhosa e capaz pode contradizer totalmente. O edifício onde esta última creche está localizada provavelmente tem janelas muito altas que não permitem que as crianças vejam o que acontece lá fora, assim como portas cujas maçanetas não estão ao alcance de suas mãos, aumentando a sensação de prisão e falta de poder.

Uma boa creche encoraja silenciosamente as crianças a se verem como indivíduos valiosos fornecendo-lhes armários marcados com seus nomes, e tendo paredes decoradas com suas obras de arte. (O efeito pode ser maior ainda se as crianças morarem em barracos ou cortiços onde dividem o espaço com diversas outras pessoas). Ela também lhes oferece uma grande variedade de coisas para fazer: há espaços para brincar com blocos, pintar, brincar de casinha, fazer música, e cantos silenciosos para descansar ou ver livros. Fora da sala há espaço para correr, nadar, subir em árvores ou brinquedos, ou cavar em caixas de areia.

Numa creche com excesso de crianças e baixo orçamento normalmente o espaço comporta poucas atividades, e quando as crianças se aborrecem, a professora é tentada a ligar a televisão num canal de desenho animado. Conseqüentemente, as crianças na creche bem provida de recursos aprendem que o mundo está cheio de coisas interessantes para fazer, enquanto que as crianças da creche precária aprendem a ver televisão sempre que se sentirem frustradas.

Por meio da arquitetura, as escolas podem também ensinar aos alunos como pensar sobre raça e classe social. No Sul [dos EUA], antes do movimento dos direitos civis, o contraste entre escolas públicas amplas e bem conservadas para os brancos, e escolas pequenas, dilapidadas e com classes muito cheias para os negros passava silenciosamente para os afro-americanos a mensagem de que eles valiam menos que os brancos. Mesmo hoje, em quase toda parte (nos EUA), as escolas públicas dos ricos subúrbios são grandes, bonitas e bem conservadas, em contraste com as escolas dos prédios decrépitos muito comuns em áreas centrais decadentes. E apesar de décadas de esforço social e legal, os alunos dessas escolas pobres e caindo aos pedaços são negros e latinos.

Dentro dos prédios o contraste pode ser maior ainda. A escola pública do subúrbio chic é limpa, bem iluminada e espaçosa; tem uma cantina atrativa que serve boa comida, e sua biblioteca tem muitos livros e terminais de computadores que sempre funcionam. Quando percebem o que estão perdendo,  os alunos das escolas das zonas urbanas decadentes ficam deprimidos ou com raiva, condição que pode levar ao vandalismo ou à violência.

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8 Respostas to “Prédios e equipamentos escolares ensinam”

  1. José Antonio Küller Says:

    Jarbas

    Tenho acompanhado seus últimos posts sobre arquitetura escolar. Não desconheço e não desconsidero os efeitos das condições de conservação e manutenção dos prédios escolares sobre o currículo oculto e sobre a aprendizagem.

    Participei, inclusive, na FDE, bom tempo atrás, de um projeto denominado, se não me falha a memória, de Projeto de Preservação e Manutenção do Patrimônio.

    O projeto, que se espalhou pela rede pública de escolas do Estado de São Paulo, implicava em envolver toda a comunidade escolar, incluindo os pais e moradores vizinhos, em propostas de manutenção e conservação dos prédios escolares. A idéia não era apenas a de reduzir custos de manutenção, mas de engajar a comunidade em um projeto com efeitos educacionais, especialmente os de educação ambiental.

    Mas, acredito que seu primeiro post sobre o assunto tocava em questão mais importante: o efeito do dispositivo arquitetônico sobre a situação de aprendizagem. O dispositivo em auditório, induz uma relação de aprendizagem em que o professor fala e o aluno ouve. Mesmo que o professor queira a participação, o dispositivo arquitetônico induz à passividade.

    Para modificar essa situação, é preciso transformar o espaço e ambiente da escola e da sala de aula. Da escola poderíamos falar em construções que se abrissem para seu entorno e se tornassem parte dele e não continuassem recintos fechados e escondidos dos olhares do mundo como são hoje.

    Mas, o que parece imutável é o espaço e o ambiente da sala de aula. O formato retangular induz à organização das carteiras em fila. Ora, sabemos que o formato mais adequado à conversa e à participação é o círculo. Ninguém projeta escolas e salas supondo as carteiras escolares dispostas em círculo.

    Tenho casos sobre isso.

    Para mim, a atividade e a participação do aluno são fundamentais no processo de aprendizagem. Assim, a melhor sala de aula em que já trabalhei foi uma que existia no CENAFOR, antiga e extinta Fundação do MEC em São Paulo. Era circular e carinhosamente a apelidávamos de “Queijinho”. Além de ser circular, continha divisórias internas que possibilitavam a criação de espaços de diferentes tamanhos para o trabalho de pequenos ou grandes grupos. Estava adequada para uma proposta metodológica diferente da convencional.

    Trabalhando na capacitação de docentes para a o Programa Educação para o Trabalho (PET) do SENAC/SP, usava o auditório da unidade da Rua 24 de Maio, centro de São Paulo. Todo dia, para desespero do pessoal de limpeza, carregava as pesadas poltronas e transformava o quadrado em círculo. Todo o fim de dia, o pessoal da limpeza, retornava as poltronas para sua original posição em filas paralelas, objetivando prepará-las para o uso noturno. Da experência, cheguei à convicção que a mudança educacional só acontecerá quando, em qualquer circunstância, o pessoal de limpeza organizar as cadeiras em círculo.

    Por fim, já me sabendo excessivo, uma lembrança do Senac Rio. O Centro Politécnico do Senac Rio foi escolhido para implementar cursos técnicos de nível médio, formatados de acordo com uma nova proposta pedagógica. Nela estava prevista uma revolução metodológica, incompatível com as salas em formato de auditório. O espaço das salas do Centro Politécnico, no entanto, era insuficiente para a organização das cadeiras em círculos que contivessem 30 participantes. Foi necessário derrubar as paredes e de duas salas fazer uma. Solução perfeita se não fosse pelas colunas, que no meio da grande sala, dificultavam os olhares e as conversas.

    Como conclusão, tenho pensado que uma solução arquitetônica adequada à uma metodologia ativa seria a construção de salas sextavadas e espaços escolares que fossem construídos espelhando-se na organização dos favos de mel. Nada sei de arquitetura para saber se tais escolas e salas são viáveis. Mas, acredito que seriam mais doces e democráticas.

    Abraços

    José Antonio Küller
    http://germinai.wordpress.com/
    http://natrodrigo.wordpress.com/

  2. Arquitetura escolar e Aprendizagem Criativa « Germinal - Educação e Trabalho Says:

    […] texto surgiu a partir de um comentário que fiz ao artigo de meu amigo Jarbas Novelino  Barato “Prédios e equipamentos escolares ensinam”, publicado no blog Boteco Escola, com pequenas […]

  3. Arquitetura e educação: escola-favela « Boteco Escola Says:

    […] escritora Alison Lurie, em artigoque já citei aqui,  observa que a organização a arquitetura escolar que dá  às crianças espaços pessoais, […]

  4. Escola do futuro? « Germinal - Educação e Trabalho Says:

    […] à fixação dos modelos qrquitetônicos, veja o artigo de meu amigo Jarbas Novelino  Barato “Prédios e equipamentos escolares ensinam”, no blog Boteco Escola.  Leiam também o post deste blog: Arquitetura escolar e Aprendizagem […]

  5. Jorge R. Mendes Says:

    Adorei as matérias acima, principalmente por estar envolvido na cosntrução de uma sala de aula para a escola pública onde trabalho. Estamos tentando ampliar o número de salas de nossa escola(temos apenas 4 salas e estamos batalhando por dinheiro para a construção de mais uma. E o que me passou foi construir uma sala circular, na verdade, devido ao nosso espaço, semi-circular. Mas tenho encontrado resistência da direção da escola que acha que encarecerá a construção e os outros professores não levam muito a sério quando falo que é importante para o processo educativo uma sala deste tipo. Foi por isso que procurei na net algum texto ou mesmo foto que me mostrasse uma sala de aula circular e fico feliz em saber que este debate está tão vivo quanto estes textos que acabo de ler e vou imprimir para levar para debater com meus colegas. A escola em que trabalho é de ensino fundamental, quinta a oitava série, e fica em uma pequena cidade da Bahia, Seabra, dentro da Chapada Diamantina. Caso alguém possa me ajudar enviando textos sobre o assunto ou fotografias, agradecerei muito. Estamos ainda em processo de envolvimento dos pais para que estes nos ajudem a conseguir materiais e/ ou dinheiro- através de sorteios ou outra forma de arrecadação- para então construirmos a nova sala.
    Agradeço
    Jorge Mendes

  6. Ditadura da tela e TIC’s « Boteco Escola Says:

    […] ano passado após leitura de resenha feita por Alison Lurie no New York Review of Books.(cf. Prédi0s e equipamentos escolares ensinam). Hoje de manhã, ainda na cama, comecei a pensar sobre estudos de arquitetura e educação e as […]

  7. Doralice Araújo Says:

    Prezado Jarbas: o assunto é apaixonante e sério, determinante. Um burocrata destilando a sua discurseira diante da mídia não engana o professor competente, mas sim a ele próprio.

    O espaço escolar e todos os seus componentes materiais e humanos é uma fabulosa fonte de lições; as suas reflexões acima, querido amigo, ajudam a entender os porquês do orgulho escolar, tantos dos que nele exercem variadas funções profissionais, quanto discentes. Leitura para guardar e compartilhar, inclusive com os burocratas da educação. Receba o meu abraço.

  8. Mais sobre arquitetura escolar « Germinal – Educação e Trabalho Says:

    […] O meu primeiro artigo sobre as relações entre arquitetura e educação: Arquitetura escolar e aprendizagem criativa foi escrito a partir de um comentário em um artigo de meu amigo Jarbas Novelino Barato, no Boteco Escola. […]

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