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Prédios e equipamentos escolares ensinam

fevereiro 3, 2009

caetano-de-campos

Em meu post anterior – Arquitetura e Educação – disse que gostaria de utilizar referência que encontrei no New York Review of Books. Estava pensando na resenha The Message of Schoolroom, de Alison Lurie, publicada na edição de 4 de dezembro de 2008. O texto aborda três obras recentes: School, de Catherine Burke e Ian Grosvenor, Small Wonder: The Little Red Schoolhouse in History and Memory, de Jonathan Zimmerman, e Teaching Boys and Girls Separately, de Elizabeth Weil. Todas essas obras têm alguma relação com o currículo tácito que ensina por meio do ambiente físico das escolas.

A questão da arquitetura em educação não é apenas um assunto voltado para conforto ambiental e função de prédios e equipamentos. Ela é uma dimensão importante daquela parte do iceberg curricular que fica submersa. Exige certo mergulho teórico para perceber como os recursos físicos das instalações escolares passam mensagens às vezes mais poderosas que os conteúdos apresentados por professores ou materiais didáticos.

Não vou continuar a bater nesta tecla (por enquanto). Prefiro oferecer aos leitores uma amostra da análise feita por Alison Lurie. Traduzi a primeira parte de The Message of the Schoolroom, que comenta o livro School. Veja, a seguir, o que diz a escritora Alison Lurie.

De acordo com o clichê popular que diz que as pessoas são “produtos de certa escola ou universidade”, toda instituição escolar, da creche ao programa de pós-gradução, é um tipo de fábrica. O prédio pode ser parecido com uma bela mansão ou com um armazém caindo aos pedaços, mas a função é a mesma. A matéria prima (aluno) entra e quase sempre é transformada num tipo de pessoa convencionalmente associada com a instituição.

Em qualquer fábrica, empregados e tipo de planta física são necessários ao processo. Muito se escreveu a respeito da influência exercida por diferentes tipos de professores e de abordagens didáticas sobre os alunos, mas pouco se escreveu a respeito da influência dos edifícios escolares. Agora, porém, dois especialistas britânicos em arquitetura escolar, Catherine Burke e Ian Grosvenor, olham para estrutura [prédio e equipamento] fabril da educação como “um agente ativo”. No seu novo estudo, cujo título é simplesmente School (Escola), eles sugerem que continuamente, embora de modo silencioso, o prédio escolar diz aos alunos quem eles são e como devem pensar o mundo. O prédio pode ajudar a fabricar obediência automática ou atividade independente, ele pode criar elevada auto-estima ou baixa auto-estima.

É claro que há uma grande variação dentro do sistema educacional fabril, visível tanto aqui [nos EUA] como na Europa, que é o foco principal do livro de Burke e Grosvenor. A criança de três anos, vivaz, amigável, mas determinada, é um produto bem diferente do aluno de cursinho, educado, mas ambicioso, que está se preparando para o vestibular de uma grande universidade. Eles podem, talvez, ser a mesma pessoa. E as lições aprendidas na escola infantil podem ser reforçadas (ou negadas) anos depois num prédio muito maior. Como um aluno de pós-graduação disse certa vez: “Todas as janelas eram imundas, a pintura e o teto de gesso da cantina pareciam ruínas, e playground era cheio de lixo. O lugar era uma merda, e fazia você sentir uma merda”.

Professores e funcionários também recebem mensagens do prédio em que trabalham. Salas de aula precárias e com grande número de alunos, com móveis e equipamentos baratos e detonados, especialmente quando combinados com baixos salários, dizem aos adultos que as crianças das quais cuidam não valem grande coisa. No outro lado da escala, o crescimento temporário na auto-satisfação visível, acompanhado de grande conforto, em alguém que acaba de transferir-se para uma escola espaçosa, acarpetada, com paredes cobertas com madeira de lei é, muitas vezes, impressionante.

Para os alunos, os efeitos da arquitetura escolar podem ser muito grandes e permanentes. Para as crianças do pré, sua creche ou escola infantil transmite-lhes uma mensagem silenciosa, mas dramática. Equipamento de qualidade e bonito, salas confortáveis, e grande número de brinquedos interessantes não só deixam as crianças felizes, mas também lhes dizem que elas merecem o melhor. O páteo sem árvores e grama de uma creche popular, com suas gangorras avariadas e piscina de plástico furado, passa a mensagem contrária; mensagem que nem mesmo a professora mais carinhosa e capaz pode contradizer totalmente. O edifício onde esta última creche está localizada provavelmente tem janelas muito altas que não permitem que as crianças vejam o que acontece lá fora, assim como portas cujas maçanetas não estão ao alcance de suas mãos, aumentando a sensação de prisão e falta de poder.

Uma boa creche encoraja silenciosamente as crianças a se verem como indivíduos valiosos fornecendo-lhes armários marcados com seus nomes, e tendo paredes decoradas com suas obras de arte. (O efeito pode ser maior ainda se as crianças morarem em barracos ou cortiços onde dividem o espaço com diversas outras pessoas). Ela também lhes oferece uma grande variedade de coisas para fazer: há espaços para brincar com blocos, pintar, brincar de casinha, fazer música, e cantos silenciosos para descansar ou ver livros. Fora da sala há espaço para correr, nadar, subir em árvores ou brinquedos, ou cavar em caixas de areia.

Numa creche com excesso de crianças e baixo orçamento normalmente o espaço comporta poucas atividades, e quando as crianças se aborrecem, a professora é tentada a ligar a televisão num canal de desenho animado. Conseqüentemente, as crianças na creche bem provida de recursos aprendem que o mundo está cheio de coisas interessantes para fazer, enquanto que as crianças da creche precária aprendem a ver televisão sempre que se sentirem frustradas.

Por meio da arquitetura, as escolas podem também ensinar aos alunos como pensar sobre raça e classe social. No Sul [dos EUA], antes do movimento dos direitos civis, o contraste entre escolas públicas amplas e bem conservadas para os brancos, e escolas pequenas, dilapidadas e com classes muito cheias para os negros passava silenciosamente para os afro-americanos a mensagem de que eles valiam menos que os brancos. Mesmo hoje, em quase toda parte (nos EUA), as escolas públicas dos ricos subúrbios são grandes, bonitas e bem conservadas, em contraste com as escolas dos prédios decrépitos muito comuns em áreas centrais decadentes. E apesar de décadas de esforço social e legal, os alunos dessas escolas pobres e caindo aos pedaços são negros e latinos.

Dentro dos prédios o contraste pode ser maior ainda. A escola pública do subúrbio chic é limpa, bem iluminada e espaçosa; tem uma cantina atrativa que serve boa comida, e sua biblioteca tem muitos livros e terminais de computadores que sempre funcionam. Quando percebem o que estão perdendo,  os alunos das escolas das zonas urbanas decadentes ficam deprimidos ou com raiva, condição que pode levar ao vandalismo ou à violência.