Blogs Obrigatórios

O caderno Folhateen, de 19 de janeiro de 2009, publicou matéria com o mesmo título que este post: Blogs Obrigatórios. O parágrafo de abertura da reportagem diz:

Aquela idéia de que blogs são espaços democráticos onde cada um escreve o que bem entende está cada vez mais distante. As ferramentas de publicação não são só analisadas durante um processo de seleção para estágio ou trabalho como também são obrigatórias. Pelo menos quando se trata de comunicação, literatura e arte.

A matéria narra episódios de candidatos a emprego que foram obrigados a blogar. Mostra casos em que departamentos de seleção levam em conta textos produzidos em blogs dos candidatos. Apresenta casos de blogs de “conteúdo” cujos autores foram ou poderão ser contratados por empresas interessadas em suas capacidades de articulação na blogosfera. Aparentemente as notícias são boas novas. Não acho.

No caso de blogs de “conteúdo”, produções cujos autores se dedicaram a blogar sobre temas que lhes interessam, a matéria sugere possibilidades de profissionalização. Empresas dos ramos de negócio relacionado com o conteúdo podem propor um contrato. O blog passa a ser “profissional”, e o blogueiro se compromete a promover os produtos de seu patrão. Exemplifico essa possibilidade no caso dos edublogs. Algum blog de sucesso na área de educação poderia ser  incorporado por uma editora de livros didáticos. O espaço continuaria a  ter o velho espírito que o tornou famoso, mas o autor teria de publicar posts para promover livros da editora.

Blogs obrigatórios, nas direções indicadas pela reportagem, ferem de morte os ideais libertários da internet. Contrariam a natureza de espaço público que caracteriza a blogosfera. Revelam um perigo sempre presente em propostas de usos das ferramentas sociais na web: a apropriação de iniciativas de interesse público pelo capital.

Não vou elencar montes de argumentos para fundamentar minha posição sobre o caso. Até porque não saberia estabelecer tais argumentos. O que me leva ver blogs obrigatórios como um mau caminho é um tipo de intuição. Não sei explicar com clareza os porquês, mas sinto que o cheiro da coisa não é sadio. Logo no início da matéria, a repórter usa a expressão “espaços democráticos onde cada um escreve o que bem entende”. Parece coisa inocente. Não é. A escolha de palavras (escreve o que bem entende) no caso desqualifica os blogs livres. Fica parecendo que  liberdade é sinônimo de anarquia.

A mesma intuição, que me fez escrever os parágrafos anteriores, pintou quando comececei a ver as primeiras notícias sobre o compudar de cem dólares. Parecia coisa boa, mas torci o nariz. Tinha algo fishy na história. Uma das coisas que explica minha intuição no caso da suposta bondade de computadores acessíveis para meninos e meninas pobres é a proposta de que podemos ter metodologias e recursos distintos para cada camada da população. Argumentos desse tipo só fazem manter e aumentar o fosso profundo entre os que tudo tem e os que não tem nada. Computadores de cem dólares para a camada pobre da população soa em meus ouvidos como metodologia da esmola. Ao acessar saber nestas bases, o aluno aprenderá que máquinas e equipamentos mais sofisticados não são para o seu bico.

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3 Respostas to “Blogs Obrigatórios”

  1. Sérgio F. Lima Says:

    Opa Jarbas!

    Eu concordo com toda a primeira parte do texto… se alguém quiser blogar para uma empresa, é legal criar outro blogue e deixar isto bem claro no “sobre”

    Mas sobre os note de U$100,00 eu discordo! Seria um conversa longa, mas vou encurta só dizendo que a ideia dos OLPC mudou o paradgima da Industrioa de Hardware hoje todos os grandes players do mercado querem ter seu dispositivo minimalista!

    menos é mais, também em educação 🙂 Poderia falar de rede mesh, de aprendizagem centrada no aluno, de uma proposta pedagógica determinando o hardware (e não o contrário), de superação da metáfora do escritório determinando um dispositivo educacional e etc…

    Existem vários motivos não econmômicos e pedagógicos para eu gostar dos OLPCs

    abração

  2. jarbas Says:

    Alô Sérgio,

    É sempre um privilégio ter você neste Boteco.

    A nota sobre computadores de 100 dólares (ou de trezentos e setenta, como acabou sendo o preço na primeira licitação nesta Terra de Santa Cruz) foi apenas um complemento para minha observação sobre os desvios no uso e entendimento do que são blogs. Aliás,agente podia conversar mais sobre o assunto alvo do post.

    Dois anos atrás cheguei a pensar em elaborar algo mais arranjado sobre minhas dúvidas quanto ás promessas de uma maquineta planejada para os pobres do mundo. Depois achei que não valia a pena. Fiquei na minha. Não quis comprar briga com os entusiastas da proposta do MIT. Na mesma época achei alguém mais corajoso que eu, Jamie McKenzie. Você pode ver as opiniões desse educador em:

    http://fno.org/apr07/cheap.html

    Jamie faz uma análise que eu gostaria de ter feito. As questões básicas são políticas e financeiras. Não são técnicas. Mas política determina o pedagógico…

    Como disse, minha intuição diz que tem algo na ideia dos OLCP que não encaixa. Se pintar oportunidade e tempo, talvez eu escreva um post sobre a matéria.

    Agradeço seus comentários. Eles me ajudam muito a repensar o que escrevo:

    Abraço fraterno,

    Jarbas

  3. Sérgio F. Lima Says:

    Opa Jarbas!

    E é sempre legal ler sua opinões! Mesmo quando não concordo, é gostoso poder debater ideias de modo qualificado. Afinal blogues são conversações né!

    abração

    PS: Vou ler as suas indicações e ficar aguardando o seu texto sobre os olpcs 🙂

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