Experiência e novas tecnologias

guerra-videoA foto acima mostra  entrada para uma instalação de videogame no Philadelphia’s Franklin Mills Mall, onde é possível jogar jogos de guerra com a supervisão de oficiais do exército americano. As instalações custaram mais de treze milhões de dólares e a principal finalidade da diversão é o recrutamento de jovens para as forças armadas.

Não me lembro mais onde vi a notícia pela primeira vez [acho que foi na Folha, ou talvez tenha sido na TV ou na internet]. E passei quase que batido. Hoje, numa daquelas navegações sem mapa e sem rumo na web, acabei cruzando com o fato uma vez mais. E comecei a minhocar algumas reflexões.

Como diz o letreiro da foto, a coisa toda foi chamada de Experiência no Exército. Os games disponíveis põem os jogadores no papel de mocinhos (americanos) contra os bandidos (gentes de países que precisam de uma lição). Depois da “experiência”, os jovens são abordados por um oficial de recrutamento. Está havendo muita controvérsia sobre este uso de games. Mas acho que usar ou não usar games para atrair moços e moças para a carreira militar não é o foco principal.

Novas tecnologias transformaram profundamente aquilo que chamamos de experiência. Durante a Guerra do Golfo houve muitos comentários sobre a visão que tinham os pilotos americanos dos alvos bombardeados. O painel dos aviões mostravam figuras iluminadas por luz infravermelha. A busca do alvo acontecia por um controle de coordenadas muito parecido com o de um game. E até mesmo os vídeos dos bombardeios pareciam coisas de jogo eletrônico. A experiência do piloto no caso pouco diferia da experiência com um jogo eletrônico. No solo morriam centenas de pessoas. Mas, na experiência dos pilotos, essas mortes ficavam invisíveis. Essa invisibilidade também acontecia com as imagens da guerra que nos chegavam via CNN. Em palavras simples e diretas: as tecnologias aplicadas às artes da guerra reduziram mortes dos inimigos a números impessoais que nada nos diziam sobre as tragédias humanas que estavam rolando  no solo. Junto com os pilotos estávamos exercitando insensibilidade cada vez maior diante da morte, da dor, do sofrimento de seres humanos indefesos.

O uso de novas tecnologias na guerra sinaliza uma questão pouco discutida: a transferência do mundo real para a tela, com representações que abstraem aspectos sensíveis da vida [histórica, social e biológica], é um problema educacional sério. Será que a gente consegue enxergá-lo. Será que a gente consegue reverter uma grande insensibilidade que só faz crescer?

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