Livro: uma revolução tecnológica

As ferramentas ingressam na cultura, mudam modos de viver, promovem valores e, com o tempo, convertem-se em obviedades que não nos chamam atenção. Por causa desse processo histórico-cultural ignoramos o papel fundamental de muitas ferramentas que já foram incorporadas a nosso modo de vida. É o que acontece com uma das ferramentas mais importantes dos dois últimos milênios, o livro.

Estou a falar aqui do livro com o formato ao qual estamos acostumados: um conjunto de páginas seqüenciais, feitas de material flexível e relativamente barato, com impressões em ambas as faces, protegidas por um material mais duro em formato de “capa”. Essa definição e o início deste meu comentário parecem pura bobagem. Tudo muito óbvio. Será?

tablete-de-argilaMaterial escrito, para circular, precisa de portabilidade. Um dos primeiros materiais utilizados para gravar comunicação escrita, a pedra, não facilitava muito a circulação. Negociantes e advogados da Suméria, cinco mil anos atrás, começaram a utilizar um material com certa portabilidade, tabletes de argila [vide figura ao lado]. Mas tal invenção não era de uso muito confortável. A circulação de informação escrita ficou mais amigável quando algumas civilizações inventaram o pergaminho e o papiro. E com esses dois materiais surgiu a primeira versão do livro, um rolo de papiro ou pergaminho, escrito numa única face, em colunas no sentido horizontal. Nada a ver com o “nosso” livro.

Vale aqui uma divagação sobre a palavra livro. Em obras dos velhos tempos é comum o nome livro para partes das mesmas. Quando li, ainda adolescente, Confissões, de Santo Agostinho, isso me deixou intrigado. Essa obra do bispo de Hipona está dividida em treze livros, cada um deles com mais ou menos trinta páginas. Por muito tempo pensei que, nas obras clássicas, livro era um sinônimo para capítulo. Na verdade era “livro” mesmo. Ou seja, uma unidade literária que cabia num rolo de papiro ou pergaminho. Provavelmente a versão original das Confissões foi publicada em treze rolos.

rollIlustração de livro de rolo e livro códex, encontrável em : web.ku.edu/~bookhist/medbook1.html.

O livro que utilizamos hoje foi, no início, um primo pobre do antigo livro no formato de rolo. Para fazer anotações ou rascunhos, com o relativo barateamento do papiro, alguns escribas utilizavam folhas soltas e tinta que podia ser apagada [já praticavam na época a reciclagem!]. Eventualmente, alguém imaginou a possibilidade de costurar em sequência tais páginas. Surgiu assim o avô de nosso livro, o códex.

Mesmo depois da invenção do códex, a grande maioria dos livros continuou a ser editada em rolos. A virada nas mídias escritas começou com o cristianismo. Por razões difíceis de determinar, os cristãos optaram pelo formato códex para seus livros sagrados. No início, essa escolha não criou impactos culturais significativos; mas, à medida que o cristianismo começou a ganhar espaço, o novo livro desencadeou uma revolução nas formas de disseminar informação.

Em resenha da obra Christianity and the Transformation of the Book: Origen, Eusebius, and the Library of Caesarea, publicada no New York Review of Books de 25 de março de 2007, Eamon Duffy observa:

A Cristandade foi mais que uma nova religião; ela provocou uma mudança revolucionária na tecnologia da informação no mundo antigo. Essa mudança teve implicações na história cultural do mundo nos dois últimos milênios, com importância pelo menos equiparável à Internet. Assim como o judaísmo antes dele e o islamismo posteriormente, o cristianismo é descrito com a “religião do livro”. A frase propõe uma dupla abstração – a centralidade autoritativa dos textos sagrados e sua interpretação no interior das três religiões com raízes em Abraão – e também um fato concreto simples – a importância de um objeto material, o livro, na história e prática de todas as três tradições. (p. 10)

A obra citada historia a aventura de produção de livros levada a cabo por Orígenes, um dos primeiros intelectuais cristãos, e Eusébio, bispo de Cesaréia. Ambos montaram um empreendimento que resultou numa imensa biblioteca e em modos criativos de explorar as características dos códices (plural de códex). Orígines publicou um livro inteiramente original, obra cujas páginas apresentavam em seis colunas paralelas diferentes versões dos textos sagrados. Eusébio fez coisa similar com um livro de história do mundo, colocando em colunas paralelas, na ordem cronológica, fatos relevantes das civilizações conhecidas. Além disso os escritórios de ambos funcionaram como grande editoras que produziam códices das sagradas escrituras para toda a Cristandade. Orígines viveu no final do século III; Eusébio, no começo do século IV. Trabalho parecido com o deles será feito por São Jerônimo no final do século IV e começo do V. Vale observar que a tese de doutorado de Dom Paulo Evaristo Arns, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, é um estudo sobre a saga do códex, a nova forma de apresentar informação no começo de nossa era. Por esse motivo, um dia ainda quero ler a tese de Dom Paulo.

O códex demorou para superar o rolo. Ainda hoje, os livros sagrados do judaísmo são produzidos de acordo com a velha tradição. Nossos livros são códices, com uma tecnologia e organização pouco diferente daquela utilizada por Orígenes.

Não vou relacionar diferenças entre livros no formato de rolo e de códex. Deixo isso para o leitor. Ao escrever esta matéria, comecei a pensar que o nosso livro não pode ser inteiramente reproduzido em computadores. Na tela ele é transformado em outro produto. O computador tudo imita, até livros. Mas uma imitação é o que a palavra diz: uma imitação. Não estou sugerindo que a gente deixe de publicar na tela. O que estou sugerindo é que as publicações na tela são de natureza inteiramente diferente que publicações no formato de livro/códex.

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7 Respostas to “Livro: uma revolução tecnológica”

  1. Livro: uma revolução tecnológica : historia Says:

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  5. Tecnologia revolucionária de informação « Boteco Escola Says:

    […] Num vídeo que incorpora os mais sólidos princípios de tecnologia educacional, há explicações claras e definitivas sobre uma invençao revolucionária no campo da informação e comunicação. Você precisa apreciar tal tecnologia e reunir argumentos para mostrar para seus alunos que ela é uma forma definitiva de circulação de conhecimentos. Gênios como São Jerônimo já sabiam disso. Escrevi sobre o tema num post antigo. Se quiser vê-lo, clique aqui. […]

  6. Pedro Moreira De Godoy Says:

    O formato do livro eletrônico, páginas na internet em html é “roll” e o e-book em pdf é “codex”. Acredito que voltaremos a usar a rolagem na leitura de livros no futuro… de volta ao passado… hehehe

  7. Livro e mediação do saber « Boteco Escola Says:

    […] O estudo de Dom Evaristo, concluído em 1952, é muito atual. Ele aborda o assunto de modo inovador,  e suas análises estão sendo retomadas agora pelos historidores. Eu já havia feito comentário sobre isso aqui no Boteco depois de divulgar uma resenha, aparecida no New York Review of Books, sobre duas obras importantes que analisam o trabalho dos livreiros cristãos de Cesarea e de Belém, reinventores do formato de livro que utilizamos até hoje. (cf. Livro: uma revolução tecnológica). […]

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