Blogs e comunidades de prática

Em teorizações sobre dimensões sociais da internet é comum o o uso (e abuso) da palavra comunidade. De onde vem tal costume? De apropriação de estudos sócio-antropológicos sobre comunidades de prática, um conceito muito adequado para que possamos entender o que acontece para lá de textos, imagens e sons que aparecem num blog.

Blogar, consciente ou inconscientemente, coloca os blogueiros em redes de relações marcadas por interesses comuns. As investigações de Lilia Efimova, cujo relato está sendo sistematizado na tese de doutorado da autora e publicado em seu blog, mostram as dimensões de comunidades de prática no blogar. Efimova emprega como referência principal os trabalhos de Etienne Wenger, elaborados a partir de observações antropológicas de ambientes de trabalho.

Convém observar que a palavra prática, em Wenger e Efimova, é prática social, não um fazer ou execução. A prática nesses autores é um desdobramento de identidades em contextos sociais onde os atores interagem na busca de objetivos comuns.

Num post recente , Lilia Efimova, discorre sobre comunidades de prática a partir de notas que está organizando para a elaboração do capítulo final de sua tese. Dado o interesse despertado pela tradução que fiz de um outro segmento das conlusões da dissertação da autora, resolvi colocar em português suas considerações sobre blogs e comunidades de prática. Antes de reproduzir a versão tupiniquim do texto da Lilia, quero fazer alguns reparos.

  • Um conceito chave no escrito de Efimova é nexus. Eu poderia tê-lo traduzido para nexo. Mas achei que a tradução nos levaria a perder certa ênfase conceitual. Resolvi , por isso, deixar a palavra no original.
  • Não encontrei termo para traduzir para nosso idioma a palavra membership. Pensei num neologismo, pertença. Mas tal decisão me pareceu meio pernóstica. Acabei me decidindo pelo infinitivo do verbo pertencer, uma vez que em nossa prática linguística é comum o uso de tal tempo verbal como substantivo.
  • Tive tempo de revisar minha tradução. Creio, por isso, que o texto ficou bastante melhor que o anterior.

Explicações dadas, é hora de publicar o texto da Lilia.

Blog como um nexus de multi-pertenceres e negociação acidental

Lilia Efimova

Embora os weblogs representem os blogueiros por trás deles e sejam percebidos como identidades online de seus autores, os estudos apresentados em minha dissertação (my dissertation) também indicam que o blogar envolve muitos desafios ao lidar com diferentes públicos aos quais serve (os resultados do estudo da rede de blogs oferece exemplos de ambos- examples of both). Blogar num contexto de trabalho de conhecimento exige pesar interesses próprios e dos outro – self and others, colegas e clientes, amigos próximos e ocasionais visitantes furtivos, ou diferentes pessoas originárias de diferentes backgrounds. Dentro dessa perspectiva, acho que é muito adequada a discussão de identidade na relação de participação em diferentes comunidades de prática proposta Etienne Wenger (1998, p.159):

Nossas várias formas de participação delineiam peças de um quebra-cabeça, com as quais jogamos, em vez de fronteiras bem definidas entre partes desconectadas de nós mesmos. Identidade é então mais que apenas uma trajetória, ela precisa ser vista como um nexus de múltiplos pertenceres. Como um nexus, a identidade não é nem uma unidade, nem um todo fragmentado.

  • De um lado, nos engajamos em diferentes práticas em cada comunidade de prática a qual pertencemos. Nós, muitas vezes, nos comportamos de modo muito diferente em cada uma delas, construimos diferentes aspectos de nós mesmos, e ganhamos diferentes perspectivas.
  • De outro lado, considerando uma pessoa como alguém que tem múltiplas identidades, perdemos de vista os modos sutis pelos quais nossas várias formas de participação, não importa quão distintas, influenciam-se mutuamente e requerem coordenação.

A noção de nexus acrescenta multiplicidade à noção de trajetória. Um nexus não funde numa única comunidade as trajetórias específicas que formamos a partir de várias comunidades de prática; mas também não decompõe nossa identidade em distintas trajetórias em cada comunidade. Num nexus, múltiplas trajetórias tornam-se parte uma da outra, atropelando-se ou reforçando-se mutuamente. Elas são, ao mesmo tempo, unas e múltiplas.

Quando se pertence a diferentes mundos sociais, ser uma pessoa requer o que Wenger chama de reconciliação, um processo de construção de identidade que pode integrar “diferentes significados e formas de participação num único nexus”. (p.160).

Embora normalmente a participação em diferentes mundos sociais é, de certa forma, separada no tempo e no espaço (exemplo: ser um colega no trabalho e, ao mesmo tempo, um pai em casa, e mantendo ainda uma única identidade como pai trabalhador), blogar a situa num único espaço e algumas vezes num único momento, quando um post é escrito para capturar a experiência de alguém nesses dois mundos (for example). Nesse caso, diferentes formas de participação desmoronam, criando uma resolução viva de uma fronteira. Além disso, o trabalho de reconciliação, usualmente bastante pessoal e invisível (p.161), dá visibilidade a traços públicos quando os blogueiros usam seus diários eletrônicos em diferentes contextos.

Wenger discute a conexão participativa através de fronteiras entre comunidades como negociação (brokering), definida como “uso de multi-pertenceres para transferir alguns elementos de uma prática para outra” (p.109):

A atividade de negociação é complexa. Ela envolve processos de translação, coordenação e alinhamento entre perspectivas. Ela requer legitimidade suficiente para influenciar o desenvolvimento de uma prática, mobiliza atenção, e aborda interesses conflitantes. Ela também requer habilidade de articular práticas pela facilitação de transações entre elas, e para causar aprendizagem pela introdução de elementos de uma prática na outra. Com este objetivo, a negociação favorece uma conexão participativa – não porque a reificação esteja ausente, mas porque o que os negociadores promovem é um conectar de práticas em sua experiência de multi-pertenceres e de possibilidades para negociação inerente à prática.

Embora negociação não seja necessariamente uma atividade intencional de um blogueiro, a co-existência e reconciliação de diferentes perspectives num único weblog pode resultar em negociação acidental. Nesse caso, elementos de práticas são transformados através de fronteiras na medida que blogueiros abordam interesses conflitantes e transitam entre diferentes perspectivas por meio de seus escritos – não porque tenham planejado fazer assim mas porque uma vez que isso é o que a capacidade de escrever num único weblog requer – oferecendo a seus leitores uma oportunidade de “visitar” práticas diferentes das suas.

Nesse caso, o weblog oferece uma janela para a prática, apoiando aprendizagem por meio de participação periférica legitimada na medida em que permite “olhar através dele tanto quanto a prática real autoriza, para ver em profundidades crescentemente maiores, e para colaborar na exploração” (Brown&Duguid, 1992, para mais cf. Legitimised theft: distributed apprenticeship in weblog networks). Acesso a práticas de outros nesse caminho requer tempo e esforço de apreender pistas contextuais “entre linhas” ) picking up contextual cues “between the lines”) e estabelecer relações necessárias à exploração conjunta. Entretanto, os weblogs também fornecem um caminho alternativo, para espreitar outros mundos, que não requer necessariamente esforço de engajamento pessoal, mas que permite conectar-se por meio de artefactos.

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