Blogs: objetos fronteiriços

No post anterior anunciei que lilia Efimova está publicando trechos interessantes de sua tese de doutorado. Sugeri aos leitores que dominam o inglês uma passada pelo espaço mantido pela Lilia para verem os resultados de sua investigação. Mas gosto tanto do trabalho dela que resolvi traduzir um dos posts que comunica idéias de seu trabalho de pesquisa.

Antes de apresentar a tradução, preciso fazer alguns reparos. Certos trechos do original em inglês são notas quase que pessoais e não estão escritos numa linguagem muito bem acabada. Minha tradução foi feita com certa pressa e sem uma boa revisão. Apesar desses limites formais, acredito que o trecho que traduzi dá uma boa idéia de como ver os blogs em toda a sua profundidade. Vamos ao que interessa, o texto da Lilia.

Blogs como objetos fronteiriços

Lilia Efimova

Este é um segmento da atual versão do capítulo final de minha dissertação onde discuto o blogar através de várias fronteiras. Ele utiliza bastante as categorias conceituais da obra de Ettiene Wenger sobre comunidades de prática (Communities of practice: Learning, meaning and identity, e discussion with CPsquare members about those.)

***

Enquanto o blogar pode abrir uma janela sobre práticas do blogueiro, na superfície o weblog é apenas um artefacto: texto, links e parcelas de outras mídias. Neste post eu reflito sobre os modos pelos quais o blogar auxilia a cruzar fronteiras por meio de troca de informação e non-personal connections, utilizando o conceito de objeto fronteiriço (boundary object) como ponto de partida. Este conceito foi introduzido por Susan Leigh Star (Star & Griesemer, 1989; Star, 1989), que o usou para descrever como práticas de diferentes mundos sociais são coordenadas:

Objetos fronteiriços são duplamente plásticos o suficiente para adaptar-se a necessidades locais e limitações dos muitos grupos que os empregam, embora robustos o suficiente para manter identidade através dos territórios. Eles são fracamente estruturados no uso comum, e tornam-se fortemente estruturados no uso de um território individual. Eles podem ser abstratos ou concretos. Eles tem diferentes significados em diferentes mundos sociais. Sua estrutura é comum o suficiente para que mais de um mundo os faça reconhecíveis meios de translação. A criação e gerenciamento de objetos fronteiriços é chave no desenvolvimento e manutenção coerentes através da intersecção de mundos sociais (Star & Griesemer, 1989, p. 393)

Meu interesse original no uso do conceito de objetos fronteiriços no caso dos blogs vem do próprio termo (weblog é um objeto que atua através de diversas fronteiras), assim meu tratamento do mesmo desvia-se do caminho usual. Eu o uso para me referir a um objeto e uma fronteira de diferentes perspectives que incluem aquelas de indivíduo, em vez de referir-me a um objeto numa intersecção entre mundos sociais (Star & Griesemer, 1989) ou comunidades de prática (Wenger, 1998). Além disso, objetos fronteiriços por meio de seu uso para a coordenação de diferentes perspectivas (este ponto, por exemplo, é enfatizado por Wenger, 1998, pp. 107-108), enquanto no caso do blogar a coordenação entre perspectivas é muitas vezes um efeito colateral acidental, em vez de intencional.

Estas diferenças devem assegurar a necessidade de introduzir uma terminologia alternativa, porém eu a deixo para trabalho posterior e foco nos paralelos entre objetos fronteiriços e weblogs: conexões baseadas em artefactos entre diferentes perspectives que não requerem engajamento pessoal e características que permitem tais conexões.

Ao contrastar o papel de objetos fronteiriços no cruzamento de fronteiras entre comunidades de prática e corretagem (brokering), Wenger enfatiza que as conexões baseadas em artefacto “podem transcender as limitações espaço-temporal inerentes na participação” (Wenger, p. 110), uma vez que artefactos podem transitar mais facilmente que pessoas; porém, desenraizados de práticas específicas, os artefactos são também fonte de ambigüidade e interpretações equivocadas. Os estudos apresentados em minha dissertação mostram que weblogs tem o potencial de conectar diferentes perspectivas sem requerer engajamento pessoal. Por exemplo, leitores de meu weblog se apossam de parcelas de pesquisa relevantes para eles; blogueiros da KM usam weblogs para estabelecer relações de informação próximas daquelas de natureza. mais pessoal. O caso da Microsot fornece uma visão de como a informação pode viajar via weblogs, assim como pode ser uma ideia de desafios de interpretações equivocadas.

Com base em diferentes tipos de objetos fronteiriços descritos por Star (Star & Griesemer, 1989; Star, 1989), Wenger propõe certas características que “capacitam artefactos a agirem como objetos fronteiriços” (Wenger, 2001, 107):

1) Modularidade: cada perspectiva pode atender a uma porção específica do objeto fronteiriço (por exemplo: um jornal é uma coleção heterogênea de artigos que têm algo para cada leitor).

2) Abstração: todas as perspectivas são atendidas ao mesmo tempo com a eliminação de aspectos que são específicos para cada uma delas (por exemplo: um mapa abstrai do terreno apenas certos aspectos, como distância e elevação)

3) Acomodação: o objeto fronteiriço leva si mesmo a várias atividades (por exemplo: o edifício de escritórios pode acomodar várias práticas de seus inquilinos).

4) Padronização: a informação contida num objeto fronteiriço está numa forma pré-especificada de maneira que cada interessado sabe como relacionar-se com ela localmente (por exemplo: um questionário que especificou como fornecer alguma informação por meio de respostas a certas questões).

Essas características são úteis para ver o que capacita os weblogs a servirem como conectores através de diversas perspectivas.

Modularidade e Padronização são inerentes aos weblogs: blogar acontece por meio de bits de micro-conteúdos (weblog posts), conectados no interior e através de weblogs por meio de estrutura e protocolos padronizados. Quando se encontra um novo weblog, aqueles familiarizados com a mídia, sabem com se relacionar com ele (ou seja, distinguem posts específicos de seus meta-dados, navegam pelos arquivos ou inscrevem-se para receber atualizações. Posts específicos , acompanhados por permalinks, podem ser acessados sem o resto do weblog. Isso permite que a informação apresentada num weblog possa viajar para muito longe fora dos contextos originais para os quais foram criados.

O potencial de um weblog para acomodar várias atividades não é imediatamente óbvio: na superfície ele é uma publicação baixo investimento que permite atingir amplas audiências sem publicar informação para elas. Entretanto, os resultados dos estudos apresentados em minha dissertação sugerem que ele pode também apoiar conversações consigo mesmo e interações com outros específicos (mais em publishing vs. interaction, conversations with self and conversations with others).

Uma combinação destes três modos apoia acomodação para várias práticas de diferentes interessados(púlicos). Um blogueiro individual pode usar o blog para conversar consigo mesmo – articulando pensamentos e sentimentos – organizando seus próprios bits informativos ou refletindo nos traços deixados pelo tempo em retrospecto.

Publicar deixa expostos os traços de um weblog de alguém, de tal maneira que outros podem aprender com eles sem necessariamente se engajar com o blogueiro. De outro lado, weblogs podem também ser usados para intereração e em engajamento de profundidade, permitindo a construção de relações e de confiança, assim como desenvolvendo idéias em diálogo com o outro. Finalmente, uma vez que múltiplas perspectives são atendidas simultaneamente, os weblogs podem exibir um grau de abstração, por exemplo, quando detalhes específicos do trabalho de alguém são omitidos para tornar possível o compartilhar a essência em público, e o saber que o próprio autor ou aqueles “que sabem” possam ler nas entrelinhas e reconstruir os detalhes omitidos. A abstração também torna a informação apresentada num weblog acessível para audiências mais amplas e variadas, o que,ao mesmo tempo, pode fazer crescer a chance de interpretações equivocadas.

Em síntese, mesmo que não correspondam inteiramente à definição de objetos fronteiriços, os weblogs exibem características que os tornam efetivos no estabelecimento de conexões baseadas em artefactos através de fronteiras de diferentes mundos sociais.

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4 Respostas to “Blogs: objetos fronteiriços”

  1. Fique por dentro Escola » Blog Archive » Blogs: objetos fronteiriços « Boteco Escola Says:

    […] interessantes de sua tese de doutorado. Sugeri aos leitores que dominam o … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  2. Boundary objects presenciais na aprendizagem organizacional « Peopleenvironment’s Blog Says:

    […] Boundary Objects (objeto limite, objetos fronteiriços) servem de interface entre diferentes comunidades de prática, “são duplamente plásticos o suficiente para adaptar-se a necessidades locais e limitações dos muitos grupos que os empregam, embora robustos o suficiente para manter identidade através dos territórios. Eles são fracamente estruturados no uso comum, e tornam-se fortemente estruturados no uso de um território individual. Eles podem ser abstratos ou concretos. Eles tem diferentes significados em diferentes mundos sociais. Sua estrutura é comum o suficiente para que mais de um mundo os faça reconhecíveis meios de translação. A criação e gerenciamento de objetos fronteiriços é chave no desenvolvimento e manutenção coerentes através da intersecção de mundos sociais.” (Star & Griesemer, 1989, p. 393). […]

  3. Gisele Damian Says:

    Gostaria de receber outras referencias sobre Objeto Fronteiriço

    • jarbas Says:

      Oi Giselle,

      Infelizmente não disponho no momento de indicações que possa lhe fornecer sobre objetos fronteriços. Abraço, Jarbas

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