Ensinar não é crime

Tecnologias na Aprendizagem é o título de um curso de pós que aparece, nos jornais de hoje, em peça publicitária de uma universidade. Aparentemente nada a observar, diria alguém menos avisado. Mas, para pessoas sensíveis às transgressões semânticas, o título é estranho. Afinal de contas não há tecnologias na aprendizagem. Há tecnologias no ensino.

Como explicar a transgressão semântica que me chamou a atenção? A coisa vem de longe. Começa com um dos princípios da velha Escola Nova: toda atividade educativa deve estar centrada no aluno. E chega hoje a uma interpretação supostamente construtivista que evita o uso da palavra ensino. Num e noutro caso, preocupam-me o zelo e fúria dos educadores que querem banir a palavra ensino do vocabulário pedagógico. A situação assemelha-se aos absurdos da novilíngua no romance 1984 de Orwell.

Acabar com o uso do termo ensino é uma meta daquilo que Diane Ravitch chama de polícia da palavra. E os policiais da palavra agem de modo irracional. Não analisam situação. Não analisam significado. Prendem e arrebentam aqueles que utilizam o vocabulário proibido. O que fazem beira o fanatismo. A gente pode perdoar, com ressalvas, ações policialescas. Afinal de contas, policiais “cumprem ordens”. Mas não podemos perdoar aqueles que “fazem as leis”. Ou seja, não merecem perdão os “teóricos” que promovem censura de vocabulário falsificando o significado das palavras.

Voltemos ao tema de maneira mais contida. Pensemos um pouco nos significados de aprendizagem e de ensino. Para tanto precisamos de definições. Vamos a elas.

  • Aprendizagem: processo de mudança no qual se engaja um organismo tendo em vista necessidades vitais dentro de certo nicho ecológico.
  • Ensino: processo pelo qual agentes de saber modificam um dado nicho ecológico para favorecer aprendizagens (mudanças) desejadas.

Não vou esmiuçar as definições. Parto de imediato para algumas consequências. A aprendizagem é determinada por necessidades vitais. Aprendemos ou tentamos aprender quando, por algum motivo, entendemos ser necessário operar alguma mudança em nosso repertório de saberes. E por sorte estamos equipados para aprender. Mas nossas capacidades de aprendizagem podem funcionar melhor ou pior dependendo do nicho ecológico em que vivemos. Algumas vezes falhamos, pois nossos limites não nos permitem mudar num ambiente que “não ajuda”.

Como romper limites? Quando a coisa pega, buscamos socorro. Pedimos ajuda para alguém ou nos inspiramos em soluções que outros já tentaram. Ou seja, para superar limites individuais do aprender recorremos a outros aprendentes. Aprendemos com eles. Estes eles funcionam como mediadores, como instrumentos que podem nos ajudar. Recorremos ao ensino.

A percepção de que ajudar alguém a aprender (ensino) é um mecanismo natural levou a humanidade a organizar tal atividade de modo planejado. Os ritos de inicição, por exemplo, são ensino sistemático desde tempos imemoriais. As escolas são exemplos historicamente mais recentes de organização do ensino.

Instituições e atividades de ensino modificam nichos ambientais, introduzindo nestes ferramentas que podem facilitar aprendizagens. Ou seja, ensino tem a ver com mudanças no ambiente e com a criação de ferramentas. Para usar um expressão muito popular nos dias de hoje, ensino é atividade de criação de recursos de mediação. Ensino é tecnologia.

Tecnologias, entendidas tanto em suas dimensões físicas como mentais, só podem ocorrer no âmbito do ensino, no âmbito criações intencionais de recursos que possam servir de auxílio para o aprender. Por isso o rótulo Tecnologias na Aprendizagem é inapropriado. O correto é Tecnologias no Ensino.

mason-toolsComo já observei, a interdição ao uso da palavra ensino é justificada a partir de supostas bases construtivistas. É preciso observar que o construtivismo não eliminou o ensino. As elaborações sobre papel das ferramentas em Teoria da Atividade, o filhote mais charmoso do construtivismo, são descrições de ensino, não de aprendizagem. Recomendo, neste sentido, leitura de Acting with Tecnology.

Para encerrar, mas não terminar, acho que uma solução para o caso do tal curso de pós é renomeá-lo . Para mim,o melhor nome é Aprender com Tecnologias. Nada crio com tal proposta. Copiei-a do título de um livro escrito por três construtivistas gringos: Learning With Technology. Convém,citar aqui um trecho do prefácio de tal obra:

Learning With Technology is about how educators can use technologies to support constructive learning. In the past, technology has largely been used in education to learn from. Technologies programs were developed with the belief that they could convey information (and hopefully understanding) more effectively than teachers. But construtivists beleive that you cannot convey understanding. That can only be constructed by learners. So this book argues that technologies are more effectively used as tools to construct knowledge with. The point of this book is that technology is a tool to think and learn with.


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14 Respostas to “Ensinar não é crime”

  1. Sérgio F. Lima Says:

    Opa Jarbas!

    Seu ponto de vista é interessante, mas você já cogitou que o termo tecnologias de aprendizagem quer reforçar que nos tempos atuais a escola deveria enfatizar as aprendizagens em detrimento do ensino?

    Me parece que quase sempre (mas não sempre) elas estão juntas. Mas aprender, numa sociedade em que a informação é abundante e as pessoas e instituições estão cada vez mais conectados é mais importante do que “esperar” alguém ensinar!

    by the way Feliz 2009!

  2. jarbas Says:

    Alô Sérgio,

    Bom ter você aqui no Boteco. Primeiro de tudo, quero insistir na questão semântica. Não se reforma o mundo com utilização equivocada da linguagem. Evitar uso da palavra ensino onde ela deve ser usada não “valoriza” a aprendizagem. Apenas revela uma falta de compreensão dos processos pelos quais elaboramos saber.

    É claro que escolas existem para facilitar aprendizagem. É claro que as pessoas aprendem sem ensino sistemático, principalmente aquelas coisas que despertam interesse imediato em termos vivenciais. [Alguém maldosamente ja disse: “aprendemos apesar do ensino recebido”]. Exemplo: crianças e adolescentes aprendem mais de noventa por cento do vocabulário em sua língua nativa fora da escola. Falar, comunicar-se, ser compreendido, são necessidades vitais imediatas. Não precisamos de escola para isso. Mas se tivermos que aprender cálculo,é quase certo que precisaremos de ensino, muito ensino. Coisa semelhante vale para uma habilidade muito necessária: escrever.

    Não acho que enfatizar a aprendizagem é coisa que deva ser feita em ‘detrimento’ do ensino,como você diz. Não acho que uma educação centrada no aluno deva ser feita em detrimento do professor. Desvalorizar ensino e professores não é medida que valorize per se aprendizagem e alunos.O resultado pode ser inclusive o contrário do desejado.

    Aprender é importante em qualquer sociedade.E não é a abundância de informação que requer isso. Abundância de informação pode inclusive provocar bloqueios na aprendizagem.O cientista da computação, Alan Kay, já apontou essa possibilidade faz algum tempo> E antes dele,o historiador Daniel Boorstin observou: “corremos o risco de ter um geração cada vez mais informada e cada vez com menos conhecimento.

    A questão precisa ser mais discutida. Mas continuo achando que censurar o uso da palavra ensino nada contribui para um bom entendimento de como elaboramos o saber. Abraço, Jarbas

  3. Sérgio F. Lima Says:

    Opa Jarbas!

    Não é o caso de censurar o termo ensino! Mas suas ponderações são ótimas,

    Eu sou um defensor da escola centrada no aluno, mas isso não significa esvaziar o papel do professor, ao contrário! Por ser o professor, em geral, aquele que sabe a mais tempo ele torna-se uma pessoa importante, por escolher as interações e as possíveis situações de aprendizagem (desculpe o vício).

    Numa palestra do Luli Rahdfharer ele colocou a questão nos seguintes termos:

    “O papel do professor não é trazer as respostas (ensino?) mas sim estimular os alunos a fazer as perguntas corretas (aprendizagem?)”

    Ou seja, no fundo eu fiquei convencido (mas suas ponderações me trouxeram a dúvida, o que por si só é muito bom!) de que a escola,enquanto institiução deveria deixar de ser este espaço privilegiado de ensino para se tornar um espaço privilegiado de aprendizagens.

    E não é só uma questão semântica, mas uma ruptura na secular tradição do falar do professor! Ou seja da ênfase no ensino.

    Mas, vou pensar mais sobre o assunto e obrigado por levantar a questão e me colocar a pulga atrás da orelha…

    Grande abraço

  4. jarbas Says:

    Caro Sérgio,

    Muito bom conversar com você. Na continuação do papo quero acrescentar apenas uma pequena nota. Trata-se da questão semântica. Há uma idéia comum de que questões semânticas tem a ver apenas com jogos de palavras. Longe disso. Questões semânticas tem a ver com significado. E significado tem a ver com os modos pelos quais vemos o mundo. Esse nós da sentença anterior é um nós histórico, pois o significado se constroi no tempo e nas relações que estabelecemos (sócio-historicamente) com objetos de saber.

    Pelas razões delinaedas no parágrafo anterior não gosto da expressão re-significar. Ela parece indicar que o significado pode mudar a partir de simples ato de vontade individual. Mas significados não mudam só porque um indivíduo ou grupo assim o quer.

    Estou me enrolando muito na conversa. Acho melhor parar um pouco e voltar ao assunto em outra ocasião.

    Outro assunto. Andei vendo suas produções na web. Coisa de primeira. Parabéns.

    Abraço grande,

    Jarbas

  5. Aprendendo em Redes de Colaboração » Blog Archive » Como criar um Edublogue - Parte 2 Says:

    […] que ensinar seja crime, mas desenvolver nos estudantes a capacidade de aprender, a despeito do como e do que se ensina, é […]

  6. seaxadove Says:

    http://www.aprendendoemrede.info – cool sitename man)))

  7. Jenny Horta Says:

    Olá Prof. Jarbas! A leitura de suas postagens é sempre um convite a reflexão e com os comentários do Sérgio ficam ainda mais ricas. Também fiquei extremamente estimulada com as reflexões do Luli e de sua concepção de levar o aluno a buscar as perguntas certas…
    O ensino não deixa de existir, penso que mude a forma. O ensino é partida, vem do emissor, que tem a função de estimular no receptor a criação de perguntas… Quando este estímulo é positivo, obtem-se a dúvida e o interesse na busca de respostas para as perguntas que dele surgem e assim, chegamos a aprendizagem. Por esse motivo, a isso chamamos de processo ensino-aprendizagem. Não há superioridade de um em relação a outro.
    Se no ensino não há estímulo, não se atinge o receptor…não haverá aprendizagem e isto pode ocorrer por milhares de motivos. Aí é que mora o X da questão não é mesmo?

    Como o sr. sabiamente colocou, a tecnologia é ponto de partida, logo é no ensino. O aluno (aprendente) se utilizará dela como ferramenta para atingir a aprendizagem.
    Este realmente é um assunto estimulante!!

  8. Blog e Fisica Says:

    Blogue de Ciência, Ensina ou Não Ensina? e Etc…

    Introdução
    A questão do título acima foi proposta pelo Robson Garcia Freire, do excelente Caldeirão de Ideias, na lista de discussão blogs Educativos:

    “Me respondam uma coisa o que é mais importante ensinar conhecimento científico (como a …

  9. Ensino de qualidade e aprendizagem « Boteco Escola Says:

    […] de Física, do Sérgio Lima. Como o post sugere que que um de meus escritos aqui no Boteco (ver Ensinar não é Crime) puxa a corda em demasia para o lado do ensino, comecei a pensar maneiras de voltar a o assunto e […]

  10. Ensino? Aprendizagem? | abruno.com [ Blog ] Says:

    […] conversa começou no Blog do Professor Jarbas, e foi relembrando pelo Sérgio Lima, o que levou a outra postagem do Professor Jabas. Resolvi […]

  11. Sergio Blog 2.4 Says:

    Sobre aprender, ensinar, avaliar e etc>…

    Cada vez mais me convenço que aprender é mais importante que ensinar, nas nossas escolas! E não vai aqui nenhuma arrogância nisto! Quando digo que aprender é mais importante que ensinar (na escola), não estou dizendo que devemos parar de ensinar! Es……

  12. Paulo Francisco Slomp Says:

    Olá Jarbas.

    Parece que a Diane Ravitch fez auto-crítica e modificou algumas das posições anteriores:

    http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100802/not_imp589143,0.php

    Saudações.

    • jarbas Says:

      Caro Paulo,

      Faço referência aqui a um livro de Diane Ravitch que aborda a questão da censura em materiais de ensino. A obra citada nada tem a ver com a matéria do Estadão que você indica.E até hoje, a autora não retirou uma palavra sequer de sua análise sobre censura em livros didáticos, testes e outros produtos utilizados na educação gringa. Se você quiser ter uma idéia do conteúdo do The Language Police, entre no link abaixo, onde poderá encontrar resenha que escrevi sobre o livro da Diane:

      http://www.senac.br/BTS/341/resenha.pdf

      Se preferir, você pode ver uma outra resenha da mesma obra, feita pela Professora Palmira, da Universidade de Coimbra, em:

      http://dererummundi.blogspot.com/2007/08/polcia-da-palavra.html

      Para ter uma ideia melhor ainda do livro em foco, é bom ler o original.

      Você fala em auto-crítica da autora. É preciso qualificar tal auto-crítica. No livro resenhado pelo Estadão – Death and Life of the Great American School System – Diane reconhece que mudou seu modo de ver avalições padronizadas dos alunos (ela se refere a testes federais e estaduais parecidos com o nosso ENEM). Ela, porém, não deixou de reconhecer a validade dos ditos testes. Apenas colocou-os no devido lugar: o de uma foto instantanea, que pode gerar uma informação generica sobre qualidade do ensino (se você não gostar da palavra ensino, substitua-a por educação).

      Aquilo que você e outros estão chamando de auto-crítica é uma mudança sutil que autora operou na medida em que os testes se converteram em ferramentas imperiais de politicos e economistas para tomar decissões sobre educação. Diane avisa a esta gente que testes não bastam. Educação é um fenômeno complexo que exige mais considerações que as fornecidas por resultados de um simples teste. Diana chama atenção de todos para isso e afirma que mudanças em educação precisam ser conduzidas por gente que entende de educação. Para aprofundar o tema é preciso, mais um vez, ler este outro livro da autora. As referências de um artigo ligeiro como o publicado pelo Estadão são insuficientes para que se comprenda as críticas que Diane faz ao neoliberalismo em educação.

      Abraço,

      Jarbas

  13. TICs na Educação » Blog Archive » Sobre o dever de casa Says:

    […] Entendo aprender como a atividade de incorporar/aumentar/acrescentar novos recursos ao nosso repertório de saberes. (Definição ótima do Prof. Jarbas Novelino); […]

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