Archive for 3 de janeiro de 2009

Saci sem cachimbo

janeiro 3, 2009

saciAcabo de ver reportagem sobre tendência educacional que sugere eliminação de contos de fada que não sejam politicamente corretos. Tal tendência supõe que educadores “esclarecidos” irão determinar o que as crianças podem ler. Lobo mau? Sai de cena. Bruxas malvadas? Nem pensar. E o Saci Pererê, obviamente, não mais fumará cachimbo. Os esclarecidos educadores dizem que as crianças devem ler e ouvir apenas histórias que passam mensagens positivas. O próximo passo será, penso eu, censurar obras literárias. Capitães de Areia? Não. Os adolescentes da história são maus exemplos.

Canções infantis também entram na dança. Atirei o Pau no Gato … Nunca mais. No programa, entrará uma nova canção que narra o grande amor de uma menininha por seu bichano.

A sugestão de depuração das histórias infantis, já presente em programas da Escola Nova no final do século XIX, é simplesmente censura. Iniciada com supostas boas intenções, essa censura acaba anulando história, literatura e imaginação. Para uma reflexão sobre o tema, recomendo excelente comentário de Palmira F. da Silva sobre o livro de Diane Ravitch, Polícia da Palavra.

Há cerca de um ano resenhei o livro de Ravitch para o Boletim Técnico do Senac. Eis aqui um trecho da minha resenha:

A mesma política de censura está presente nos livros escolares. Na medida em que grupos de pressão, à direita e à esquerda, observam possíveis vieses em obras didáticas, as editoras se apressam a retirar do texto palavras ou conteúdos que possam ter algum teor de controvérsia. Para evitar prejuízos e, ao mesmo tempo, conquistar indicação de suas obras nos maiores estados do país (sobretudo Texas e Califórnia), os produtores de material didático se preveniram, elaborando manuais que definem com muita precisão o que deve ser evitado. Ravitch apresenta um anexo com uma relação de interdições presentes na maioria dos manuais utilizados pelas editoras. Tais interdições abrangem palavras (termos que possam, segundo os grupos de pressão, lembrar etnocentrismo, predomínio dos homens em qualquer atividade, visão pessimista quanto à velhice, rótulo desfavorável quanto a pessoas com alguma diferença física ou neurológica etc.), situações (menção a fato ou cena que possa desfavorecer qualquer grupo na sociedade), ilustrações (desenhos, fotos ou figuras que não retratem de modo preciso a distribuição estatísticas de todos os segmentos populacionais). Além disso, exige-se que certos grupos sejam sempre apresentados de modo a não lembrar determinados estereótipos. Assim, mulheres não podem ser retratadas de avental ou fazendo serviço doméstico, pessoas idosas não podem ser mostradas em cadeiras de balanço, pessoas negras não podem ser mostradas no exercício de profissões pouco prestigiadas. Cabe notar que não há interdição para figuras de homens vestindo aventais ou realizando trabalhos domésticos. Os manuais aconselham apresentar mulheres realizando atividades antes identificadas como masculinas, idosos exercitando-se em academias, negros exercendo profissões socialmente valorizadas.