Fim da História

img_2137

Na Folha de hoje (09/12/08), li a seguinte mensagem na seção Painel do Leitor:

Infelizmente, o senhor Sílvio Luiz Lofego defende sua categoria, a dos historiadores, ao criticar decisão do governo do Estado de reduzir as aulas de história no ensino médio.

Mas o que poderia fazer o governador? Tirar matemática e língua portuguesa? Creio que estas duas disciplinas são, sim, mais importantes do que história em um Estado onde os alunos mal sabem ler e escrever.

Obrigado a colocar no currículo disciplinas que pouco têm a acrescentar, o Estado agiu bem ao manter o foco em escrita, leitura e matemática. E deixo aqui claro que sou administrador de empresas, sem nenhuma ligação com história, filosofia ou sociologia. [Ubajara Penante]

É o fim da História. Para cumprir a lei da obrigatoriedade do ensino de Filosofia e Sociologia, o governo do estado de São Paulo, alegando razões de custo, resolveu cortar aulas de História no ensino médio. A mensagem de tal medida é a de que a disciplina menos importante do currículo é aquela que pode nos ajudar a entender a condição humana. E o senhor Penante (gente de verdade ou uma invenção?) pega carona na decisão para dizer que a disciplina em foco não tem importância. Estamos mal. No governo. No meio de cidadãos que acham que estudos históricos são um luxo dispensável.

Espanta-me a ignorância histórica de meus alunos na universidade. Para eles, vinte, duzentos ou dois mil anos não fazem diferença. Historicidade é um conceito sem significado. Vivem um aqui-agora que me amedronta. Não os culpo. A secundarização da formação histórica das pessoas já era uma marca forte nos inícios da Escola Nova, promotora de um imediatismo (espacial e temporal) em nome de alegados interesses dos alunos (afinal de contas, diriam os escolanovistas, que apelo podem ter fatos ocorridos num passado distante para os jovens de hoje?). Livros didáticos da disciplina são, cada vez mais, material sem profundidade, com muita ilustração desnecessária e pouco texto. Tudo isso é retrato de um tempo, nosso tempo, que resolveu ignorar a aventura humana que nos produziu. E, como já disse um grande autor, quem não aprende com a História está condenado a repeti-la de modo ridículo. Mas não é só isso. Aprender História é um modo de nos prevenir contra a barbárie. Ignorar os males recentes do fascimo e do nazismo, por exemplo, é meio caminho andado na direção de novas barbaridades. Como bem diz Diane Ravitch:

Uma sociedade que volta suas costas ao ensino de história encoraja a amnésia das massas, fazendo com que as pessoas ignorem eventos e idéias importantes do passado da humanidade, e provocando a erosão da inteligência cívica necessária para o futuro.


Voltemos ao senhor Penante. Ele critica aqueles que introduziram novos conteúdos obrigatórios – Filosofia e Sociologia – na grade curricular. Mas pensa da mesma forma que as pessoas que critica. Ou seja, manifesta a crença de que basta colocar matérias no currículo para promover educação. E esta, a meu ver, é a questão da recente obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia no currículo do ensino médio. Quem batalhou por isso, descontados interesses corporativistas, acredita que inserir uma dada disciplina no currículo traz mudanças significativas. Nestes termos, o senhor Penante e as pessoas que ele critica lutam por mais ou menos disciplinas em todos os níveis de ensino. Mas, como diria alguém pouco respeitoso, o buraco é mais em baixo. Língua e Literatura Portuguesa são importantes. Mas sua presença numa grade curricular nada garante em termos de aprendizagem. Há uma carga horária respeitável de disciplinas relacionadas com nosso idioma. Apesar disso, muita gente com diploma do colegial lê e escreve muito mal. A conversa sobre isso dá pano para manga; não vou, porém, amolar o leitor com mais argumentos. Deixo a prosa no ar. Se alguém se der ao trabalho de comentar, posso continuar o assunto.

Volto à questão da História. Ela é mais importante para a vida que a matemática. Não saber fazer alguma conta pode acarretar pequenos prejuízos na hora de calcular ou dar um troco. Ignorar os perigos de novas formas de barbárie e não saber calcular como elas podem provocar genocídios, dadas lições que a História nos fornece, é um caso de vida ou morte (muitas mortes…).

A foto (by Ana Maria Barato) que ilustra este post é uma imagem da Calle de los Suspiros, Colônia, Uruguai. A cidadezinha é um sítio histórico importante de nossa América do Sul. Mostra diferenças sensíveis entre os projetos portugueses e espanhóis na arquitetura colonial. Hora dessas escrevo mais sobre Colônia, com fotos minhas ou de minha mulher.

Anúncios

14 Respostas to “Fim da História”

  1. Suzana Gutierrez Says:

    É Jarbas, já dizia o velho Marx (que nossos alunos possivelmente nunca ouvirão falar) que a história se repete.

    Farsa …. Tragédia….

    E a barbarie é o destino…, isto é, se tivermos sorte 🙂

  2. jarbas Says:

    Oi Su,

    Tens razão. Marx, para nossos alunos, será, quando muito, um “velho”. Não tenho qualquer esperança de que meus estudantes leiam um dia o 18 Brumário.
    Tenho, porém, esperança de que algo aconteça daqui para a frente. E que a barbárie não retorne. Sou, obviamente, otimista.

    Abraço grande, Jarbas.

  3. Adriana Says:

    A bárbarie da educação mal feita já está em retirar uma matéria vital que é a história.Quase não acredito que fizeram isso, mas como a história prova, fazem isso ou coisa pior! Se não somos capazes de analisar a história pregressa para evitar a tragédia do futuro, o que será dos cidadãos que irão lá adiante reinvidicar qualquer mudança na sociedade?…enfim, concordo com você o assunto é polêmico, mas a matemática não garante que mudemos a economia.

  4. Adriana Says:

    correção:barbárie. Muito apropriado o seu post.

  5. jarbas Says:

    Oi Adriana,

    Obrigado por mais uma passagem por este Boteco. Ótima sua observação sobre matemática e economia. Na crise atual, a matemática serve para calcular os rombos que vão sendo descobertos. Mas os próprios rombos e suas origens só podem ser explicados pelas ciências sociais.
    O senhor Penante, em carta à Folha, ressaltou que importantes são português e matemática, matérias que merecem todo o tempo e grana disponível. Concordo com a importância dessas duas áreas de saber. Mas elas são instrumentais. Decisões, valores, sentido da vida e outras cositas mais não se aprendem com e nas citadas matérias. O assunto é um bom ponto de partida para discussões sobre currículo. E mais que isso, sobre finalidades de educação. Alguns gringos que conheci, tidos como simplórios, costumavam dizer que a principal finalidade da educação é a de tornar melhores os educandos. Se no final do processo produzirmos gente mais “sabida”, mas igual ou pior do que quando entrou no sistema educacional, teremos falhado miseravelmente.
    Uma de minhas avós, Dona Queta, analfabeta, costumava dizer que algumas pessoas eram muito “estudadas”, mas nada “educadas”. Tinha razão Dona Queta. Abraço, Jarbas.

  6. roseli Says:

    Olá Jarbas,
    Estou pasma mas não tão espantada com mais essa medida. A educação em nosso país está cada vez mais capenga. O Ensino Médio que já se encontrada em estado grave, agora então entrará em coma. Tenho pena desses jovens que recebem “migalhas” ao invés de uma educação efetiva. Só posso dizer uma coisa: LAMENTÁVEL!!
    Abraço

  7. Adinalzir Says:

    Caro Jarbas,

    Temos todos que lutar contra essa barbárie, que é o fim da História, infelizmente pregado por aqueles que não conseguem refletir o tempo presente através das conquistas do passado. É por isso que o ensino e a qualidade da educação está uma titica. É lamentável tanta ignorância!

    Professor Adinalzir Pereira
    http://saibahistória.blogspot.com
    http://www.historiaecia.com

  8. jarbas Says:

    Olá, Roseli,

    Bom rever você aqui no Boteco. Pois é…A questão maior é a qualidade da nossa pobre educação. Não cálculos de mais ou menos conteúdos na tal grade curricular. No caso de História, o que se espera é gente que tenha senso histórico, sem a tal amnésia cívica a que se refere Diane Ravitch. Abraço, Jarbas.

  9. jarbas Says:

    Caro Adilnazir,

    Agradeço sua visita ao Boteco Escola. Vi seu site voltado para História. Legal.
    O comentário aparecido na Folha e a atitude do governo paulista são resultados da ignorância à qual você se refere. Marginalização da história no ensino é um ato de arrogância de gente que não consegue entender o drama humano de uma evolução na busca de um mundo mais civilizado. De gente que não aprendeu História. Abraço, Jarbas.

  10. Tatiane Martins Says:

    Olá, caríssimo professor!
    Estava um pouco sumida, mas tenho uma boa notícia agora: sou a mais nova mestrando de Educação da PUC-RJ. Quero estudar e pesquisar muito sobre o uso dos novos recursos tecnológicos para o ensino de Língua Portuguesa. Aliás, dicutindo um pouquinho o que foi postado e comentado por aqui, eu ousaria dizer (poucos colegas me ouçam – rsrsrsrs) que professores de história, de geografia, filosofia, sociologia etc., antes de tudo, deveriam ser formados em sua língua materna. Porque o verdadeiro sentido de ensinar uma língua é ensinar a pensar a e na língua, ensinar a usá-la, e nada melhor do que fazer isso nessas disciplinas contextualizadíssimas. Isso signifca que, para mim, o ensino de história, por exemplo, não é mais importante do que o ensino de língua portuguesa ou vice-versa, mas é através da história que se poderá aprender muito bem a língua portuguesa. Dá para entender minhas elucubrações?
    Beijinhos,
    Tati

  11. Marli Says:

    Olá professor Jarbas!
    Que pena! Ignorar a história é perder a referência humana, é deixar de entender o que somos e para onde vamos. E o próprio ensino da lígua portuguesa, do qual eu sou apaixonada, precisa estar relacionado á nossa história, de forma contextualizada. Como ensinar literatura sem conhecer a história? Como o senhor diz, de nada adianta só saber das coisas, se não nos tornamos pessoas melhores para que a nossa vida seja melhor. Não precisamos de gênios que fabriquem bombas. Precisamos de gente que promova a paz. Abraço e Feliz Natal!

  12. Leandro Souza Says:

    Olá Professor,

    Que chato – sou o “último” a ler este post, mas, minhas palavras são sinceras.
    Não é de se espantar ante tal decisão: o povo brasileiro não possui memória. Um desses lapsos da memória brasileira é a obliteração do pratimônio histórico nacional – a destruição das residências de nossos poetas, escritores, entre outros heróis nacionais, a destruição de monumentos históricos, etc. Algo que não perdoo foi a demolição da residência do maior nome da Literatura Brasileira para a construção, se não estou errado, uma pizzaria. É uma pena que aquela “administrador” aprove a decisão do governo, talvez ele não tenha estudado a história da Administração ou coisa parecida.
    Enfim, infelizmente, mais um passo errado dado pelo paraplégico governo brasileiro.
    Abraços prô e feliz Natal para o senhor e família. E, um 2009 de muito sucesso.
    Leandro Souza

  13. Fim da História : sociologia Says:

    […] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor […]

  14. suryah Says:

    Estou horrorizada .
    Essa obsessão por transmitir aquilo que é da realidade do educando é difícil num mundo em que as pessoas estão cada vez mais desenraizadas despossuídas de suas tradições/culturas. O que é da realidade? Falar de novelas?
    Os noticiários ocuparam o papel da interação vizinho/vizinho, comunidade-comunidades, não se tem tempo para nada, então se terceiriza o acesso ao o que acontecesse. A memória deixa de ser “orgânica” frente a explosão de softwares que exercem esse papel, qualquer dúvida consulte o google.
    Então qual é o papel do historiador (profissão que nem existe no nosso país) nesse momento? Apontar para as mudanças do tempo atual? Gerar consciência histórica? Ou deixar-se emburrecer…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: