Educação nas alturas

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Nos últimos dias de novembro passado estive em Huancayo, cidade situada num vale andino. Participei na ocasião de seminário promovido pela Universidad Nacional del Centro de Peru. No sábado palestrei sobre tecnologia, educação e gestão. Parece que a reação dos participantes foi boa, apesar do meu portuñol sofrível.

O evento, promovido pelo setor de post-grado em educação, contava sobretudo com professores, a maioria deles mestrandos em educação da universidade. Conversei com alguns desses professores e professoras. E, assim com já ocorrera em contato que tive com educadores peruanos cinco anos atrás em Lima, fiquei muito impressionado com a dedicação dos mestres do ensino público daquele país irmão. Duas histórias de trabalho que me foram contadas em Huancayo merecem registro. Ambas são muito parecidas. Duas professoras trabalham em comunidades rurais dos Andes, em altitudes de cinco mil ou mais metros. Em tais alturas das montanhas não há estradas por onde possam circular veículos de qualquer espécie. As professores, para chegar às escolas, andam por caminhos nos cimos da cordilheira. Algumas vezes essas andadas duram até três horas, muitas vezes sob um frio em torno dos dez graus negativos. Essas aventuras diárias das mestras foram me contadas sem qualquer tom de reclamação. Elas queriam que eu apenas tivesse uma idéia das condições de trabalho de uma professora de ensino fundamental nas zonas rurais dos Andes. As crianças daquelas paragens são privilegiadas. Contam com professoras entusiasmadas e dedicadas. E reparem: essas professores estão fazendo mestrado em educação.

Depois de conversar com docentes que têm experiências tão expressivas de vida e de sala de aula, fiquei me perguntando que importância teria minha comunicação no evento. Minha fala, elaborada a partir de reflexões (abstratas) sobre a natureza da Internet, era algo muito distante do fantástico trabalho realizado num dos tetos do planeta. Senti-me terrivelmente estrangeiro em todos os sentidos. E meus sentimentos ficaram mais agudos quando aquela gente admirável me honrou com atenção, elogio, e perguntas inteligentes. Fui levar-lhes novidades sobre tecnologia. Mas sinto que minha colaboração foi pequena se comparada com tudo que aprendi como testemunho dos professores da rede pública do Peru.

Nos intervalos e refeições, três professoras do programa de pós da Universidad Nacional me acompanharam. Manifestaram em cada ocasião um “cuidado” que meu amigo Mário Sérgio Corttella diz ser o fundamento da ética. Não tenho como agradecer tanta amabilidade. Posso apenas dizer: “muchas gracias”, Marta, Carmen e Luisa. Aprendi muito com vocês. Aprendi educação. Aprendi cuidado.

No capítulo agradecimento não posso deixar de dizer um imenso muito obrigado a meu velho amigo Sigfredo Chiroque Chunga, grande educador peruano, que me indicou para o evento. Além da indicação, Chiroque me cumulou de gentilezas o tempo todo, mesmo quando me pôs numa fria, ao propor palestra que tive de improvisar para professores e recém-formados da Faculdade de Educação da Universidad Mayor de San Marcos. Passado o susto de se ver improvisando uma comunicação num ambiente acadêmico, fiquei muito grato pela oportunidade de conhecer a mais antiga universidade das Américas (fundada em 1551).

A foto que abre este post é uma imagem que vi desde a janela do ônibus na viagem de volta para Lima. Altidude da estrada no pedaço: 4930 metros.

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3 Respostas to “Educação nas alturas”

  1. amabilidade.net » Blog Archive » Educação nas alturas Says:

    […] mestrandos em educação da universidade. Conversei com alguns desses profess Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  2. amabilidade.net - Educação nas alturas « Boteco Escola Says:

    […] No capítulo agradecimento não posso deixar de dizer um imenso muito … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  3. inpi Says:

    Obrigada pela partilha de sua vivência nos Andes. Meus alunos apreciarão os testemunhos de professoras tão dedicadas, caminhando nas alturas.
    Um estudante do Canadá, que frequenta o nosso blog de turma, pediu se eu o punha em contacto com blogs de estudantes brasileiros. Estes alunos têm entre 11 e 13 anos.
    Poderia ajudar-me, indicando-me uma comunidade segura? Obrigada.

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