Burocracia e burrice

Hoje, logo cedo, recebi uma informação que me deixou irritado e indignado, uma bobagem burocrática que me deveria apenas fazer rir. Por enquanto não quero contar o caso. Mas ele tem a ver com o instrumentismo que critiquei em artigo recente para a revista Quaderns Digitals. E tem a ver com Kafka em seu imperdível O Processo.

Conto aqui uma história mais antiga, exemplo de burocracia e burrice. Em meus tempos de doutorado na Unicamp havia a exigência de domínio de dois idiomas estrangeiros para os alunos (espanhol incluso). Fiz teste de espanhol. Fui considerado apto. Como meu mestrado aconteceu nos Estados Unidos, informei que era fluente em inglês e não me candidatei a exames neste idioma (afinal de contas,em meu prontuário havia informação suficiente -diploma de mestrado e histórico escolar – para comprovar que eu era capaz de ler com bom aproveitamento literatura em idioma inglês, além de ter escrito minha dissertação de mestrado na língua nativa dos States). Mas qual o que. Fui informado que deveria fazer um teste de inglês. Achei a exigência absurda. Procurei o chefe do departamento. Ele achou que eu tinha razão, mas não moveu um palha para que eu fosse dispensado de um exame desnecessário. Não queria conflitos a poderosa área de administração acadêmica da universidade. Comprei a briga e decidi que não faria o exame de modo algum.

Fui até o setor de administração acadêmica da Unicamp. Argumentei que todos os meus documentos de mestrado estavam em inglês. Mostrei que permaneci dois anos como aluno da San Diego Stsate University. Reiterei que minha dissertação estava escrita no tal idioma. Nada disso adiantou. O burocrata com quem conversei queria um papel que dissesse explicitamente que eu era fluente no idioma. Fui tentado a iniciar um diálogo em inglês com o moço. Mas não o fiz, não adiantaria. Ele queria um papel. Lembrei-me então do meu relatório do Toefl (Test of English as a Foreign Language) e de uma carta de apresentação de uma de minhas professoras do programa de inglês acadêmico na San Diego State University. Disse então que tinha papéis com as característica que ele queria. O burocrata aceitou minha explicação e me pediu para encaminhar os documentos. Assim o fiz e fui dispensado do exame de inglês. Mas confesso que não fui inteiramente honesto. Eu sabia que exames do Toefl caducam depois de cinco anos. O meu exame tinha mais de dez. Mas detalhes como este escapam à compreensão dos burocratas. Eles querem papéis…

5 Respostas to “Burocracia e burrice”

  1. Fernanda Says:

    Pois é, Jarbas, eu apresentei entre outras coisas meu certificado de Proficiency in English de Cambridge, que nem caduca, e não foi aceito na Unesp. Precisei fazer a prova…
    (você se lembra que fui professora de Inglês por anos…)

    Saudade, abraço!

  2. jarbas Says:

    Oi, Fernanda. Bom te ver aqui no Boteco. Burocratas amam o poder. Mas podem pouco. Por isso capricham nestas pequenas torturas que dão origem a processos que infernizam a vida do cidadão. Fico com pena dos burocratas, é muito contentamento por mesquinharias. Mas é bom ficar atento, a gente também pode cair em tentações da burocracia. Abraço grande, Jarbas.

  3. Lilian Starobinas Says:

    Oi Jarbas, li agora o seu artigo sobre “Tecnologia e imaginação”, gostei.
    Produzo na rede desde 1999, meu blog “principal” é de 2005 e somente esse ano me animei a criar um blog para uso específico, reunindo testos, artigos, vídeos e reflexões relacinados ao tema do curso de história. Ainda é um blog “da professora”, vejo que os alunos acessam mais para ver alguns dos materiais ou retomar enunciados dos trabalhos propostos, mas a sugestão de que avancemos no diálogo por meio do blog não tem encontrado interessado, e eu não tenho nenhum motivo para forçar a barra para que isso ocorra. Há algo relacionado à expectativa que os jovens possuem em relação à rede, uma certa imagem que estar na rede, para as atividades ligadas à escola, é atuar pesquisando, no máximo dissertando sobre um tema. Como se tecnologia+escola=informação, e tecnologia+lazer=comunicação. Ando provocada com o tema, parece que nos escapa essa compreensão sobre o que os jovens querem da rede, ou como os jovens fazem rede, ou ainda para que os jovens querem/precisam/usam a rede…
    Vc viu que estão organizando um encontro de professores blogueiros em São Paulo, dia 28/06? Tipo desconferência, bom espaço para falarmos sobre estas idéias…
    abços

  4. jarbas Says:

    Cara Lilian,

    Grande honra tê-la aqui neste Boteco. Acho que um artigo recente, indicado por meu amigo Bernie Dodge, aborda algumas das dimensões que você indica com relação ao comportamento dos jovens na rede. Aliás, no dito artigo, o autor vê alguns dos fenômenos que você aponta como coisas da própria rede, não de um certo grupo etário. Veja a matéria em

    http://www.theatlantic.com/doc/200807/google

    Quero ir ao evento de edublogueiros, mas tenho aula no dia. Vamos ver se consigo aparecer no segundo tempo. Abraço grande,

    Jarbas

  5. Lilian Starobinas Says:

    Interessante o artigo, Jarbas, e sintomaticamente só consegui ler metade… Na verdade, esse excesso de oferta é bastante dispersivo, e evidentemente é muito difícil dar conta. Entendo o argumento do Carr, estou de acordo que o suporte de leitura e a situação em que lemos altera fundamentalmente a apreensão da leitura. Aliás, na elaboração do meu doutorado estou usando uma proposição do Wertsch que sugere observar “agentes-agindo-com-ferramentas-culturais” para compreender a ação humana. Mudou a ferramenta, mudou a ação. Agora, me parece que o Nicholas Carr também é uma figura que se destaca por se apresentar como enfant terrible, quando todo mundo está encantado com as possibilidades ele vem jogar água na fervura. É evidente que a crítica é necessária ante as correntes de adesão a qualquer preço a qualquer novidade, mas ou muito me engano ou este é um papel que ele se reserva. Achei curioso ter identificado o nome dele assim que acessei artigo, e pesquisando descobri que já havia mencionado artigos anteriores no meu blog, em que ele desanca a Wikipedia e chama a Web 2.0 de amoral. Está aqui
    http://discursocitado.blogspot.com/2005/10/wikipedia-e-informao-de-qualidade.html
    abços, quem sabe a gente se vê no sábado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: