Redação cooperativa: complemento 1

Quem frequenta este Boteco deve estar achando estranhas todas as mensagens mais recentes. Parece que parei de considerar o eixo aqui do lugar: ensaios sobre blogs. Na verdade não me esqueci do eixo. Desde o começo estou trabalhando com a definição de blogs como espaços conversacionais. E os assuntos recentemente postados aqui são exemplos de conversa. A atividade com redação cooperativa, realizada com meus alunos de pedagogia e licenciatura, teve bastante repercussão. Alguns de meus estudantes utilizaram a técnica espontaneamente em seu trabalho docente. Outros, também espontanemante, deixaram comentários neste Boteco ou papearam comigo sobre a matéria após as aulas E alguns ciberamigos, a Miriam (de Campinas), o Marco (de São Paulo) e o Luís Villa (de Portugal) entraram na roda. Compareceram com informações valiosas sobre experimentos que já fizeram ou prometeram aplicar a técnica brevemente. Ou seja, o assunto gerou uma conversa muito produtiva. Estou aprendendo muito com isso – e tal ocorrência mostra de modo bastante concreto uma dimensão importante do blogar: aprendizagens não estruturadas.

Para ser breve e direto: as muitas conversações em torno da redação cooperativa estão mostrando “no processo” a dinâmica conversacional dos blogs. Portanto, não saí do eixo. Dito isto, voltemos à técnica em foco.

Miriam relata que seus alunos revelaram certo desconforto com a redação cooperativa. Esse desconforto apareceu sobretudo como dificuldade gerada pelas alterações de rumo na redação causada pelas mudanças dos autores (as idas para um outra máquina a fim de continuar um texto com idéias bastante diferentes das do escrevinhador recém chegado). O Marco aborda a mesma questão observada numa prática com seus alunos. E na experiência que narra, alguns escrevinhadores fizeram algo radical, apagaram o que seus antecessores tinham escrito. Finalmente, num relatório de experimentação da técnica, Débora Regina, Elaine Cristina e Luceilane, minhas alunas do 4° de pedagogia, colheram depoimentos de escrevinhadores revelando que consideram desagradável mudar de lugar e ter de dar sequência à linha de pensamento de outra pessoa.

Será que o desconforto observado em três diferentes experiências é um ponto negativo da técnica? Acho que não. Mudar de lugar e ter de dar sentido a uma redação cujos trechos anteriores não são da lavra do escrevinhador é uma situação que evindecia aquilo que Piaget chama de conflitos sócio-cognitivos. Nosso aprender é caracterizado por processo sucessivo de desiquilibração e equilibração crescente. Em outras palavras, aprendemos quando nosso pensar (e nossas aparentes certezas) é confrontado com o pensar alheio. Nesse encontro com outro certas construções que elaboramos são colocadas em xeque. Nossas crenças “balançam”. Mas a gente segue em frente, sobe mais um degrau a partir de um novo arranjo resultante do confronto entre o que pesávamos e o que pensavam os outros. Esse processo muitas vezes não é perceptível. Uma das vantagens da redação cooperativa é a possibilidade de evidenciar conflitos sócio-cognitivos. A cada mudança de máquina, o escrevinhador se vê obrigado a negociar significados de modo consciente. O texto do outro está lá, contrariando linha de pensamento que o escrevinhador vinha seguindo até trocar de máquina.

Aprendizagem é um processo de mudança. E mudar não é um desafio qualquer. Em anos recentes, segundo meu amigo Steen Larsen, os pesquisadores reparam que boa parte de nossos padrões de visão do mundo já está estruturada por volta dos seis anos de idade. E tais padrões nos dão conforto e segurança. Por isso resistimos. Não queremos deixar o seguro pelo desconhecido. Assim, ao contrário de algumas esperanças de que a mudança acontecerá com certa facilidade, o aprender verdadeiro (a alteração daquilo que Gardner chama de scripts) não é algo banal. Ou para dizer de uma outra forma: aprendizagens significativas sempre passam por zonas de desconforto.

Teorizei um bocado a partir de contribuições e comentários de alunos e ciberamigos. Mas o papo não terminou. Gostaria de saber como é que vocês estão entendendo esta minha maneira de ver explicitação de conflitos sócio-cognitivos na redação cooperativa. Entrem na roda. Ainda há lugar para muita conversa sobre o assunto.

16 Respostas to “Redação cooperativa: complemento 1”

  1. Marco Says:

    Saudações,
    Curioso que escrevi hoje no Educultirsão sobre imaginação, e não posso deixar de associá-la aqui. Acredito que o maior problema dos alunos não conseguirem continuar a redação é pela falta de imaginação. Como as idéias não surgem, eles ficam incomodados, e passam a rejeitar o trabalho.
    Comentários serão bem vindos no Educultirsão,
    forte abraço
    Marco Aurelio – http://www.educultirsao.blogspot.com – Onde educação, cultura e diversão imaginam juntas!

  2. Lucielaine Says:

    Olá professor. Analisando do ponto de vista em que ocorrem os conflitos sócio-cognitivos, e consequentemente o crescimento intelectual, fica muito mais fácil entender as atividades propostas. Realmente achei “chato” no início da atividade ter que trocar de cadeira e continuar um texto alheio, mas acabei fazendo e entrando na dança, no final a imaginação extravasa. Quando aplicamos com nossas colegas, elas também tiveram a mesma impressão, porém no final, tudo foi divertido e até falaram em fazer outra vez.
    É um grande desafio.

  3. Paulo Caparroz Says:

    Prof. Jarbas, sou seu aluno do 4ºano de Pedagogia e tive a oportunidade de realizar essa dinâmica da redação cooperativa e achei uma ferramenta educacional interessante, gostei tanto que acabei aplicando com meus alunos da escola pública. Porém a aplicação se deu de uma maneira um pouco diferente como não havia pc na escola, utilizei apenas papel, caneta e criatividade. Após a aplicação desta técnica tive um retorno inesperado de meus alunos que chegaram a pedir “bis”. Essa ferramenta de trabalho estimula alguns aspectos que muitas vezes permanecem adormecidos nos alunos(principalmente no Ensino Médio), por exemplo a criatividade, a imaginação, além dos conflitos gerados durante a aplicação. Os alunos muitas vezes se deparavam com uma idéia que não lhe agradava, porém eles tinham que continuar aquela mesma idéia. Pude perceber que havia uma dificuldade deles em abraçar uma idéa contrária a suas crenças, valores e princípios. E não muito diferente dos comentários, da Miriam e do Marco, os alunos não apagavam o que o outro havia escrito já que trabalhei com papel e caneta mas mudavam totalmente o rumo da história evidenciando assim essa dificuldade citada acima.
    Agradeço a oportunidade de poder compartilhar essa minha experiência com outros educadores e também conhecer as experiências vivenciadas por outros educadores.
    Abraços
    Paulo Caparroz – 4ºAPGN – São Judas

  4. Larissa Staniscia Says:

    Oi Prô…
    Eu pensei em aplicar a atividade com as crianças, mas eles ainda são muito novinhos (2º ano), não fazem a produção de texto adequada para essa atividade, mas passei para as outras professoras do colégio e elas gostaram muito, disseram que vão aplicar!
    Eu adorei fazer a atividade aqui na faculdade, para nós, não houve conflitos em terminar o “pensamento” do outro, digamos que para o nosso grupo, foi até divertido.
    Com as crianças deve ser realmente mais complicado, a cabecinha deles está centrada em uma idéia e, do nada, eles precisam mudar de opinião para continuar a redação do amigo e na maioria das vezes esse amigo não termina a redação como o que começou gostaria… Ih! Lá na classe isso daria uma confusão!
    Espero conseguir aplicar a atividade no 2º semestre, ai eu te conto como foi, ta Prô!?
    Beijinhoss
    Larissa Staniscia – 4ºApgnas – USJT

  5. Camila Kogima Says:

    Oi Pro!!!!
    No começo eu nao gostava muito de ter que continuar outra história como nas atividades que o senhor nos proporcionou, mais com o passar do tempo comecei a gostar mais, pois tinha que mudar sempre o meu modo de pensar. Quando eu começava a escrever uma historia eu tinha que mudar logo o meu pensamento para continuar a outra que me esperava. Gostei muito!!!!
    Beijos Camila

  6. Debora Regina Says:

    Olá professor Jarbas!
    Não imaginava que as conclusões que tiramos na realização da atividade teriam explicações cientificas. Estudamos sim, Piaget nos primeiros anos de curso, mas como o senhor mesmo disse em sala de aula não é tão óbvia esta relação.
    O desconforto é gerado pela troca de lugares tendo que acompanhar o raciocínio alheio, além do fato de sermos contrariados quando o próximo não necessariamente “dá” o fim que tínhamos imaginado. Digo, não apenas como quem realizou a atividade com outras pessoas, mas como escrevinhadora no mesmo trabalho em sala de aula e que sentiu esse desconforto. Porém nos divertimos com o rumo das produções mudando nossa visão ao depararmos com historias tão diferentes para um mesmo começo.

    Débora
    4º APGNAS

  7. simone Says:

    Professor Jarbas, sou da turma do 4º ano de Pedagogia e realizei a Redação Cooperativa com adolescentes por via email e foi bastante interessante, pois realmente houve comentários do adolescente sobre se teria que realmente continuar o texto da outra pessoa que ele não gostou da história! E quando falei que sim, ele sentiu dificuldades para escrever na história do outro; e também queria muito dar o final para a sua própria história!
    Mas no resultado das redações percebi que todos gostaram da atividade, pois participaram em grupo, mas à distância.
    Simone.

  8. Flávia Says:

    Boa noite Prô Jarbas!!!

    Acredito que o desconforto apresentado pelos alunos não seja um ponto negativo, ele se dá justamente pela dificuldade de dialogar e se deparar com a opinião do outro, nesse caso com a colocação do ponto de vista e continuidade do seu texto. Muitas vezes não damos lugar a essa “troca” construtiva, não só a apresentada pela dinâmica, mas sim num âmbito geral, as regras estabelecidas pela sociedade fazem com que não demos espaço para ouvir e aceitar o outro de forma diferenciada.
    O confronto que acaba sendo gerado é saudável, pois, vemos o quanto às opiniões divergem e o quanto se precisa do outro para mudar e trazer novos significados a opiniões já internalizadas.
    Utilizei a ferramenta para aplicação e considero muito produtiva e interessante, pois promoveu interação e comprometimento entre as pessoas que a estavam desenvolvendo, unificando assim diferentes visões e percepções.

  9. Josilene Cipriano Says:

    A redação cooperativa realmente mexe com a imaginação de quem está escrevendo, pois quando eu realizei a atividade tive um pouco de dificuldade em continuar o pensamento de outra colega. Porque a cada troca de máquina tinha que organizar meu pensamento, usar a imaginação e a criatividade para dar continuidade à história. Sendo assim a redação cooperativa gera um conflito que o aluno deve superar para continuar o pensamento do outro.
    Acho a redação cooperativa uma ferramenta educacional muito interessante e pretendo posteriormente utilizá-la em sala de aula.
    Abraços

    Josilene Cipriano

  10. Elaine Cristina 4ºAPGN Says:

    Caro Jarbas,
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que me sinto honrada em ter um trabalho citado em seu blog.
    Não podia imaginar que a aplicação da redação cooperativa fosse gerar um papo tão legal e, quem diria, ligado a conflitos sócio-cognitivos. É claro que nós, meras alunas do 4º ano de Pedagogia, ainda não havíamos percebido tal ligação com a aprendizagem propriamente dita, mas sim com a criatividade de quem participa da atividade. Engraçado que depois de evidenciada esta relação torna-se quase impossível não associar o desequilíbrio que ocorre com a pessoa que precisa completar o raciocínio de outra.
    As pessoas que realizam a atividade sentem-se incomodadas ao saber que outras lerão o que acabaram de criar e pode ser que isto ocorra por terem de produzir algo em tão pouco tempo. Pelas reações observadas, imagino que se sentem inseguras em relação ao que fizeram e, por vezes, constrangidas por ler um parágrafo enorme que a pessoa anterior acabou de escrever e ela, por sua vez, não conseguir escrever mais que duas linhas.
    Este é um dos aspectos, o outro é a própria imaginação/criatividade necessária para a realização deste tipo de atividade. Infelizmente, as pessoas não são estimuladas a criar, mas sim a reproduzir.

  11. Nathália Buesa - 4APGNAS Says:

    Muito interessante. Esta semana fiz um curso pela empresa na qual trabalho e, em diversos momentos, discutimos justamente sobre isso: a tendência de as pessoas “entrarem” na zona de conforto. Mudanças são desagradáveis aos indivíduos, geram desconforto, provocam conflitos internos. No entanto, são necessárias para o crescimento do ser humano com um todo.
    E é justamente o que acontece no caso da redação cooperativa, pois mudar a linha de pensamento gera uma sensação de desconforto nos participantes da tarefa.

    Abraços a todos e até breve!!

  12. Maria Rejane Says:

    Olá professor Jarbas!
    A redação cooperativa realmente ocorre uma verdadeira troca de aprendizagem e interação entre os alunos.
    Mas percebi que esta redação torna-se muito interessante quando os alunos estão reunidos em uma sala de aula de informática e ocorre a troca de idéias e de pensamentos. E, portanto, não é legal aplicar esta redação via e-mail. Falo isso de acordo com o que ocorreu com a nossa redação. Cada aluno ao receber o e-mail escrevia e trocava com a outra pessoa. E essa troca resultou em certa confusão na hora eles trocavam os e-mails entre si. E foi preciso a nossa orientação para que cada troca ocorresse resultando o final de cada hitória.
    Abraços.

  13. lenice Says:

    Então, professor.Eu como um ser em constante aprendizagem e lenta absorção, demoraria mais um ano de aula para assimilar tal fato.percebo que realmente vivemos em eterno conflito sócio-cognitivo , também não percebi quando nosso grupo aplicou a redação cooperativa em pessoas de idades diferentes e as mesmas reclamaram que era estranho continuar algo que alguém começou, porem minha filha de dez anos (a mais nova de todos) participou e foi a única que não achou estranho ou se incomodou de continuar a história. cheguei a pensar que era só porque eu havia comentado sobre a redação com ela.Mas, só agora, lendo uma parte de Piaget e o quinto parágrafo onde o senhor cita seu amigo steen Larsen e Gardner pude entender um pouco que aquela coisa que só achava divertida quando comecei em sala de aula e pensei que era simplesmente uma brincadeira interessante me trouxesse um pensamento diferente e uma aprendizagem importante.

  14. Rogerio Santos (Licenciatura Sábado) Says:

    Prezado Professor,

    Na falta de uma palavra mais apropriada, eu considero a redação cooperativa deliciosa. Mas acredito que a minha opinião seja fundamentada, em larga medida, por meu gosto de escrever. E para quem gosta de escrever, não importa se for um texto próprio ou se for uma emenda em textos alheios. O último, por sinal, é até mais suave, traz implícita uma responsabilidade menor.
    Eu acredito que o desconforto causado pela redação cooperativa seja antes um desconforto em escrever. Aliado a isso, uma sensação de insegurança – terei que mostrar a meus colegas que escrevo mal, ou que não tenho aptidão para isso – e não raro um pedido de desculpas ao sair de sua máquina para que o colega possa ler o que você escreveu. A meu ver, o desconforto dos alunos surge pelo medo da crítica que podem receber por aquilo que escreveu e será lido por muitos, e não por poderem alterar redações alheias.

  15. Andressa_4APGNAS_São Judas Says:

    Boa Noite…

    Já havia vivenciado esse tipo de atividade nos meus tempos de ensino fundamental, mas sem o recurso do computador. E agora ao reencontrá-lo no ensino superior, me veio à tona impressões que não havia me surgido anteriormente.
    Não se trata apenas de continuar o texto alheio, mas também de respeito às idéias, à criatividade, ao trabalho em grupo, … A redação cooperativa é ponto de partida para a discussão de conflitos sócio-cognitivos, tão presentes, apesar de mascado. Vai muito além de só modificar a idéia do outro, mas também de completá-la.
    Mas para que a redação resulte em produtos significativos é necessário a colaboração e interesse de todos, que pode ser despertado pela qualidade da trama do texto a ser desenvolvido. Então cabe a seu aplicador/professor buscar temas instigantes, fazendo-o assim parte do processo de criação e respeito ao grupo.
    Apliquei essa atividade, e apesar dos temores, não houve nenhuma surpresa desagradável, ao contrário, houve produtos maravilhosos.
    Recomendo essa atividade a todos os educadores independente da área, assim como a levarei na minha “bagagem” por toda a minha jornada profissional.

    Abraços…

    Andressa Silva de Lima Ferreira

  16. Luis Vila Says:

    Olá,

    já experimentei, no passado dia 24, a actividade com o processador de texto e foi um sucesso. Os adultos têm uma ideia muito escolarizada da escola e quando são confrontados com estas actividades aderem com gosto.

    Para ver melhor ou comentar acedam ao mittendo em http://mittendo.blogspot.com/

    Cmpts,
    LVila

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