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Redação cooperativa: complemento 1

abril 17, 2008

Quem frequenta este Boteco deve estar achando estranhas todas as mensagens mais recentes. Parece que parei de considerar o eixo aqui do lugar: ensaios sobre blogs. Na verdade não me esqueci do eixo. Desde o começo estou trabalhando com a definição de blogs como espaços conversacionais. E os assuntos recentemente postados aqui são exemplos de conversa. A atividade com redação cooperativa, realizada com meus alunos de pedagogia e licenciatura, teve bastante repercussão. Alguns de meus estudantes utilizaram a técnica espontaneamente em seu trabalho docente. Outros, também espontanemante, deixaram comentários neste Boteco ou papearam comigo sobre a matéria após as aulas E alguns ciberamigos, a Miriam (de Campinas), o Marco (de São Paulo) e o Luís Villa (de Portugal) entraram na roda. Compareceram com informações valiosas sobre experimentos que já fizeram ou prometeram aplicar a técnica brevemente. Ou seja, o assunto gerou uma conversa muito produtiva. Estou aprendendo muito com isso – e tal ocorrência mostra de modo bastante concreto uma dimensão importante do blogar: aprendizagens não estruturadas.

Para ser breve e direto: as muitas conversações em torno da redação cooperativa estão mostrando “no processo” a dinâmica conversacional dos blogs. Portanto, não saí do eixo. Dito isto, voltemos à técnica em foco.

Miriam relata que seus alunos revelaram certo desconforto com a redação cooperativa. Esse desconforto apareceu sobretudo como dificuldade gerada pelas alterações de rumo na redação causada pelas mudanças dos autores (as idas para um outra máquina a fim de continuar um texto com idéias bastante diferentes das do escrevinhador recém chegado). O Marco aborda a mesma questão observada numa prática com seus alunos. E na experiência que narra, alguns escrevinhadores fizeram algo radical, apagaram o que seus antecessores tinham escrito. Finalmente, num relatório de experimentação da técnica, Débora Regina, Elaine Cristina e Luceilane, minhas alunas do 4° de pedagogia, colheram depoimentos de escrevinhadores revelando que consideram desagradável mudar de lugar e ter de dar sequência à linha de pensamento de outra pessoa.

Será que o desconforto observado em três diferentes experiências é um ponto negativo da técnica? Acho que não. Mudar de lugar e ter de dar sentido a uma redação cujos trechos anteriores não são da lavra do escrevinhador é uma situação que evindecia aquilo que Piaget chama de conflitos sócio-cognitivos. Nosso aprender é caracterizado por processo sucessivo de desiquilibração e equilibração crescente. Em outras palavras, aprendemos quando nosso pensar (e nossas aparentes certezas) é confrontado com o pensar alheio. Nesse encontro com outro certas construções que elaboramos são colocadas em xeque. Nossas crenças “balançam”. Mas a gente segue em frente, sobe mais um degrau a partir de um novo arranjo resultante do confronto entre o que pesávamos e o que pensavam os outros. Esse processo muitas vezes não é perceptível. Uma das vantagens da redação cooperativa é a possibilidade de evidenciar conflitos sócio-cognitivos. A cada mudança de máquina, o escrevinhador se vê obrigado a negociar significados de modo consciente. O texto do outro está lá, contrariando linha de pensamento que o escrevinhador vinha seguindo até trocar de máquina.

Aprendizagem é um processo de mudança. E mudar não é um desafio qualquer. Em anos recentes, segundo meu amigo Steen Larsen, os pesquisadores reparam que boa parte de nossos padrões de visão do mundo já está estruturada por volta dos seis anos de idade. E tais padrões nos dão conforto e segurança. Por isso resistimos. Não queremos deixar o seguro pelo desconhecido. Assim, ao contrário de algumas esperanças de que a mudança acontecerá com certa facilidade, o aprender verdadeiro (a alteração daquilo que Gardner chama de scripts) não é algo banal. Ou para dizer de uma outra forma: aprendizagens significativas sempre passam por zonas de desconforto.

Teorizei um bocado a partir de contribuições e comentários de alunos e ciberamigos. Mas o papo não terminou. Gostaria de saber como é que vocês estão entendendo esta minha maneira de ver explicitação de conflitos sócio-cognitivos na redação cooperativa. Entrem na roda. Ainda há lugar para muita conversa sobre o assunto.

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