Um espaço para os outros

Uma das características dos meios de comunicação é a de apresentar matérias que reafirmam positivamente nossas identidades (nacionais, étnicas, de classe, profissionais). Noticiários e propagandas na TV deixam muito claro quem somos nós e quem são os outros. Nós somos os mocinhos, os outros são os bandidos. Nós somos educados, os outros são selvagens. Nós somos limpos, os outros são sujos. Mesmo quando os personagens apresentados pouco se parecem fisicamente conosco, não temos qualquer dúvida de quem nos representa: gente bonita, jovem, sarada, alegre, financeiramente resolvida, inteligente e, quase sempre, branca. Não vou tentar ir mais fundo nesse maniqueísmo simplificado. Quero apenas apontar um detalhe que ajuda a entender o registro que farei mais à frente. O outro dos meios de comunicação não tem a menor importância. Por isso não queremos saber como vive, o que sente, no que acredita, que barras enfrenta etc. O outro é só aquilo que não somos. Vez ou outra ganha destaque porque suas ações podem nos causar algum prejuízo.

Um caso exemplar de desinteresse pelo outro é a cobertura da ocupação americana no Iraque. O noticiário das grandes redes jornalísticas cobre apenas o que está acontecendo com os soldados americanos ou com as empresas americanas instaladas no país do Golfo Pérsico. Os milhões de iraquianos que sofrem os efeitos da ocupação e consequente desorganização do país são apenas outros, sem face, sem vida pessoal, sem sentimentos, sem afetos, sem cultura, sem nada. Quando muito entram no noticiário como números de mortes resultantes de algum atentado espetacular.

A rede jornalística McClatchy resolveu dar voz aos outros. Mas não pode fazer isso em suas reportagens para a imprensa americana e internacional. A solução foi criar um blog onde jornalistas iraquianos podem publicar sem qualquer revisão ou censura o que anda acontecendo com os cidadãos comuns do país. Coisas que não circulam pela imprensa americana ou internacional (incluindo a brasileira), como a falta crônica de energia, as filas imensas, as dificuldades de locomoção, as ameaças constantes à vida dos cidadãos comuns feitas por grupos paramilitares ou pelos próprios militares, o terror provocado pela aproximação de um comboio do exército americano. Tudo isso é assunto de matéria publicada no New York Review of Books de 17/01/08, com o título As Iraqis See It.

A história aqui resumida é um belo exemplo de como os blogs podem ser um instrumento para dar voz a quem não a tem em situações convencionais. No espaço criado pela rede McClatchy, os jornalistas iraquianos podem escrever histórias que não circulam em outros meios de comunicação. Eles falam daqueles outros que nós ignoramos e abrem um janela para conversas que seriam impraticáveis fora da blogosfera. Eis aqui mais um exemplo a considerar quando quisermos definir o que é um blog. Para acessar a perspectiva dos “outros” no Iraque clique em Inside Iraq.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: