Segue link para artigo meu publicado recentemente no Boletim Técnico do Senac: Revista da Educação Profissional:
Esta é a primeira sistematização de estudos que estou fazendo sobre Valores, Trabalho e Educação.
Segue link para artigo meu publicado recentemente no Boletim Técnico do Senac: Revista da Educação Profissional:
Esta é a primeira sistematização de estudos que estou fazendo sobre Valores, Trabalho e Educação.
Uma das finalidades da educação, talvez a mais importante, é a de oferecer às pessoas oportunidades e meios para serem mais felizes. Esta ficha acaba de cair após leitura de um trecho em que Mike Rose, em Back to School, critica entendimentos predominantes hoje sobre fins da educação.
O pensamento hegemônico entende que o papel principal da educação é o de preparar bem as pessoas para o trabalho. Tudo é avaliado em termos de resultados econômicos e financeiros. Há outro pensamento também bastante popular: o de que a educação tem por finalidade primeira desenvolver o senso crítico. Como diz o Mike, nada a opor quanto a essas duas finalidades. Elas, porém, se esquecem das pessoas concretas e dos sonhos que elas têm.
No geral, vejo as finalidades da educação formuladas assim: adquirir (sic) competências, desenvolver senso crítico, apossar-se do patrimônio científico e cultural historicamente construído pela humanidade. São finalidades nobres. Mas, nenhuma delas revela preocupação com realização pessoal.
A partir de agora, vou insistir na ideia de que a educação deve ser, acima de tudo, instrumento para promover felicidade.
A existência de escolas públicas aparentemente pode garantir igualdade de oportunidades para todos em educação. Não é bem assim. Condições de vida podem impedir acesso e sucesso escolar. No debate americano sobre qualidade da educação, Deborah Meier e Daine Ravitch mostram (cf. Bridging Differences) mostram que a pobreza é um grande obstáculo para que muitas pessoas permaneçam nas escolas, estudem e aprendam.
Em Back to School, Mike Rose observa que gente pobre, com enormes privações de todos os tipos, precisa de alguma ajuda, sobretudo financeira, para frequentar cursos de capacitação profissional nos community colleges. Essa exigência é maior em colleges e programas de reconhecida qualidade.
Alunos que Mike acompanhou e entrevistou, no geral, tem alguma ajuda financeira. Muitos desses estudantes têm a bolsa de estudos (de valor bem limitado) como única fonte de renda com qual sustentam a família.
Ao ler o livro do Mike, fiquei pensando num grupo de brasileiros, na faixa dos 18 aos 39 anos, com uma história de engajamento precoce e precário no mercado de trabalho, e escolaridade básica insatisfatória, que frequenta ou poderia frequentar os Institutos Federais ou unidades do SENAI e do SENAC . Essa gente tem enormes dificuldades financeiras. Por essa razão, são poucas suas chances de alcançar bons rendimentos nos estudos.
Comentários incidentais sobre o PRONATEC, um programa planejado para facilitar acesso de populações carentes a cursos de capacitação profissional, revelam profundas dúvidas de muitos educadores (dos IF’s e do sistema S) quanto a possibilidades de sucesso dessa gente castigada por uma vida inteira de pobreza.
Acho que ainda estamos muito longe de garantir acesso efetivo dos pobres a oportunidades educacionais de qualidade. E temo que a elite direitona fará tudo o que puder contra bolsas (dinheiro na mão dos interessados, não pagamento a instituições educacionais) para que os pobres possam, de fato, ter igualdade de oportunidades no campo da educação.
O entendimento comum costuma reservar para as atividades manuais um lugar secundário no campo da inteligência. O fazer das mãos é visto como “mera habilidade”. Ou seja, é visto como atividade que não exige muito conhecimento ou até mesmo nenhum conhecimento. Chegamos a isso depois de alguns milênios de elaboração de saberes que privilegia abstrações intelectuais cuja manifestação se reduz a proposições, a discurso.
A desvalorização do trabalho manual é estranha. Em primeiro lugar porque a manifestação mais evidente de inteligência humana é o trabalho. É pelo trabalho que mudamos o mundo. É pelo trabalho que construímos novos mundos que nos transformam. Em segundo lugar porque nossa atuação no mundo é corporal. O mundo ignora o discurso, mas pode mudar em função de movimentos. Os movimentos mais expressivos são os das mãos.
Deixamos de olhar para as mãos. Há quase que uma cegueira social nesse sentido. E isso é engraçado. De vez em quando, nos cafés que frequento, passo longo tempo observando pessoas conversando. Não as ouço, nem quero saber o que falam. Presto atenção no balé das mãos. Essas não param. Enfatizam o discurso. Reforçam explicações. Comunicam os sentidos que a palavra não consegue expressar. Mas, quem fala e quem escuta não percebe toda a expressividade das mãos em diálogos comuns, em conversas do cotidiano.
Ao ver o balé das mãos dos conversadores, confirmo minhas convicções de que na história da nossa espécie os gestos antecederam as palavras. Hoje sobram resquícios da riqueza gestual em movimentos dos quais não tomamos consciência.
Não quero estender em demasia este post. Quero apenas provocar e propor. A provocação aparece nos parágrafos anteriores. A proposição vem a seguir.
Convido os educadores a olharem para mãos no trabalho. Como isso pode ser demorado, caso procuremos ver trabalhadores em seus locais de trabalho, acho que a solução pode ser um filme. E temos filmes assim. Acabo de ver um deles, In Praise of Hands.
O filme é uma produção de 1974 e mostra gente produzindo em várias partes do mundo: Japão, México, Canadá, Polônia etc. As cenas concentram-se nas mãos, na sua articulação, no seu movimento fluente, na sua influência para que a obra vá ganhando forma. As mãos se movimentam a partir de avaliações constantes das mudanças que vão acontecendo com a matéria prima. Trabalhador, ferramentas e materiais articulam-se com fluência, com aparente naturalidade. Todas as produções são exemplos primorosos de inteligência, de inteligência das mãos.
Paro por aqui, sugerindo aos interessados que vejam o filme com muito carinho e reparando como as mãos expressam um saber que não cabe nos limitados limites do discurso.
Segue link para o filme.
Matthew Crawford é um filósofo que ganha a vida como mecânico de motos. É filho de cientista. Cursou física. Fez mestrado e doutorado em filosofia. Na adolescência, trabalhou como eletricista.
O filósofo abandonou uma carreira bem remunerada de diretor de uma ONG financiada pela indústria do petróleo. Crawford escreveu um livrinho que foi bestseller em 2008 e 2009: Shop Class as Soulcraft: An Inquiry into the Value of Work. A obra é uma análise muito interessante dos saberes dos ofícios manuais, principalmente os de mecânicos.
No Colbert Report, há uma entrevista dele, bem interessante, com toques de humor. Segue link para VT com a conversa entre Mattew Crawford e Stephen Colbert.
Estou reunindo referências e histórias para estudar ética, axiologia e trabalho. Algumas das histórias que podem ilustrar o assunto já apareceram, nos últimos dez anos, em alguns dos meus escritos. Por isso, recorri à memória para me lembrar de outros casos ilustrativos. Minha primeira lembrança nessa direção foi um caso acontecido no famoso Bar Léo.
Certo dia, quando estava no Bar Léo, alguém pediu um chope sem espuma. O velho garçom se recusou a atender ao pedido e informou: “chope bem tirado precisa ter colarinho, se o senhor quiser tomar chope sem espuma, procure outro estabelecimento”. Minha primeira reação ao ouvir a fala do garçom do Leo foi a de achar que o mesmo era muito mal educado. Depois achei o episódio divertido, pois o antigo profissional da casa tinha algumas manias que precisavam ser corrigidas. Afinal de contas, como diz a norma número 1 de serviço, o freguês sempre tem razão.
Tempos depois fiz outra leitura do episódio. O velho garçom do Léo estava informando que os profissionais da casa entendiam do riscado e por isso não faziam trabalho que contrariasse suas referências de qualidade. Para bons profissionais, a opinião dos fregueses nem sempre é referência para definir como preparar um prato, assar uma pizza, tirar um chope, preparar uma caipirinha. Cozinheiros, barmen e garçons que conhecem seu ofício não aceitam ser instruídos por leigos. Eles têm orgulho de sua profissão. Veem-na como uma arte que pode ser avaliada por iguais, não por curiosos, mesmo que estes últimos estejam na condição de poderosos clientes.
Quero agora examinar o caso com mais cuidado. O garçom do Léo, com muitos anos de ofício, tinha conhecimento técnico do que servia e via isso como um saber profissional. Romper com o padrão de um chope bem tirado significava para ele uma forma de desprezo por seu trabalho. Há nessa convicção um componente ético.
É bom reparar que as normas mercadológicas sugerem que o profissional atenda desejos do cliente, mesmo que para tanto seja preciso contrariar padrões de qualidade do trabalho. O garçom do Léo não aceitava tais normas. Para ele, o compromisso do profissional é com sua obra, não com o freguês. Este último pode ser ignorante quanto ao que é melhor na preparação de comidas e bebidas. Compete ao profissional alertá-lo sobre a apresentação de tudo o que integra o cardápio da casa.
O caso em foco nos mostra algo bem interessante: os valores assumidos por um profissional são definidos pela obra, não por desejos de quem pode por ela pagar. O compromisso fundamental de um profissional é fazer o que faz da maneira mais perfeita possível. É isso que resulta em “orgulho profissional”, ou seja, em obra bem feita. Há nesse jogo o que um dos meus professores de ética chamava de moral da responsabilidade. O cliente, indiretamente, é favorecido pelo compromisso que os profissionais têm com seu trabalho, mas não é ele o centro das preocupações de quem sabe seu ofício.
Saio do bar Léo por alguns momentos, mas não deixo de lado o objeto desta conversa: chope e ética. Há muitos anos, na periferia de Edimburgo, entrei num pub para tomar uma Guinness. Pedi o tradicional half pint. O lugar era decadente. Além de mim, apenas dois outros fregueses, operários ou aposentados, estavam na casa. Os móveis eram todos de madeira maciça, velha e gasta. Sob uma mesa, dois cães de rua dormiam sem serem incomodados. Eu era um intruso no lugar. Por ali não passavam turistas. O dono me alertou: vai demorar um pouco tirar o chope, o senhor pode se sentar e esperar. O alerta dele tinha um pouco a ver com a observação do garçom do Léo. O escocês, dono de um boteco tradicional da terra, queria me educar sobre a arte de apreciar um bom chope. Esperei um tempo, até que o dono do pub colocasse sobre o balcão um half pint de Guinness comme il faut.
Trago para cá o episódio de minhas andanças pela Escócia para estabelecer um contraponto com outro pedido de Guinness que fiz num bar de hotel em Londres. Fui atendido por uma mocinha que não conhecia o ofício. Fazia um bico nas férias de verão. Ela tirou o chope sem aquele cuidado profissional que você vê nos pubs tradicionais. Apenas usou a máquina, sem obedecer às fases de extração do precioso líquido, devagar, eliminando excesso de espuma, verificando a cremosidade da bebida. Ela queria colocar o mais rápido possível o chope na frente do freguês. O resultado final foi o de um half pint de Guinness meio choca, aguada, sem cremosidade.
A moça do bar do hotel não tinha compromisso com a obra. Achava que fazia seu serviço, enchendo o copo do freguês, sem qualquer cuidado. Ela não aprendeu a técnica de tirar um chope no capricho. Aprendeu apenas a operar a chopeira mecanicamente. Quem lhe ensinou não era um mestre. Não era alguém que articulasse, nos mesmos gestos, a técnica e a convicção de que profissionais não fazem serviço porco.
Insisto um pouco mais em análises sobre chope e ética. Os casos que conto aqui mostram o fazer bem feito moldando a identidade do profissional, pois este sabe e sente que é o que faz. A identidade do trabalhador não é um conjunto de convicções compostas por construtos mentais resultantes de um discurso moralista. A identidade do trabalhador é resultado da construção de valores que associam fazer e ser num mesmo ato.
Quando em educação profissional, a organização de ambientes de aprendizagem separa valores da ação, ou esvazia-se o conteúdo do trabalho ou estabelece-se uma situação de ensino de abstrações sem alma, pois o professor encarregado de promover valores por meio de discursos não tem qualquer compromisso com a ética do trabalho que os alunos estão aprendendo.
Este texto sobre chope e ética é uma primeira reflexão sobre ética, axiologia e trabalho. Se alguém quiser colaborar, com perguntas, críticas, esclarecimentos, casos e qualquer outra sugestão, agradeço.
Participei de simpósio da Unesco sobre Ensino Médio Integrado. No evento, preparei uma breve comunicação para introduzir a discussão sobre formação de docentes para o ensino técnico. Além disso, após o evento, a Unesco me convidou para escrever um capítulo-sintese sobre o que tinha rolado no evento. Indico aqui link para os dois textos, publicados em livro editado pela Unesco.
Trabalhei trinta anos no SENAC. Depois de bastante tempo na instituição comecei a pensar que a fórmula teoria & prática é um equívoco. A desconfiança de que algo estava errado com o uso desse par antitético me levou a estudar a epistemologia do fazer-saber. E tal estudo acabou sendo sitematizado numa tese de doutorado que defendi na Unicamp.
Minha tese foi publicada na forma de livro, com o título Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho? A proposta fundamental que faço é a de que é necessário abandonar a idéia de que o saber técnico deve ser dividido em teoria e prática, com a primeira sempre precedendo a última nos percursos de aprendizagem. Reproponho o modo de ver a questão, sempre insistindo que o que chamam de prática é um conhecimento com status epistemológico próprio que em nada depende do saber que chamam de teoria.
No percurso investigativo entrei em contato com muitas obras interessantes. Uma delas é o livro The Hand, de Frank Wilson. A mão, como mostra o autor, é uma maravilha que nos passa desapercebida. Só notamos sua importãncia quando vemos um músico ou um artesão impossibilitado de usá-la. Em situações de crise, como em doenças neorológicas, que nos impedem de usar a mão propriamente, sentimos como ela nos faz tão especiais. Wilson, médico neurologista, começou a perceber isso quando músicos famosos vieram procurá-lo para recuperar movimentos finos das mãos. O drama deles não era apenas motor. Era um drama de vida, pois eles eram o que suas mãos conseguiam realizar.
Mais recentemente, tomei conhecimento de uma frase de Anaxágoras, filósofo que viveu há mais de 2.500 anos: “somos o animal mais inteligente porque temos mãos”. Em outras palavras, somos o resultado daquilo que nossas mãos são capazes de fazer.
Não vou aqui amolar o amável leitor com mais explicações. Tudo o que esrevi até este ponto foi uma explicação preliminar para fazer um convite. Convido todos os interessados a refletir sobre inteligência a partir de uma conjunto de belas imagens sobre velhos ofícios. As ditas imagens não são acompanhadas por palavras. Falam por si mesmas. Dispensam discurso. Vejam quantas inteligência há nas mãos dos trabalhadores mostrados no power point cujo link segue abaixo:
Mike Rose escreveu recentemente crônica sobre a vida de um professor que não consegue encontrar trabalho. A história reflete situações criadas pela crise econômica nos EUA. É bem diferente do que experimentamos aqui durante e depois da crise. Mas, a crônica do Mike narra uma história de professor que pode iluminar certos caminhos em nossa terra. Por isso, traduzi e adpatei o texto do professor da UCLA, autor de O Saber No Trabalho, livro que tive o privilégio de prefaciar em sua versão brasileira.
Aqui vai a crônica do Mike:
Neste post, conto uma história sobre ocorrência do cotidiano – rotina, lugar comum – que resulta em surpresa, sai do script e revela complexas camadas da vida de outra pessoa.
Entrei em contato com um call-center para enviar a uma amiga uma cesta de presentes, e estava dando ao atendente meu email, quando ele fez uma pausa e repetiu: “UCLA?”. Posso lhe fazer uma pergunta? Você é professor lá? Eu disse que sim. Ele então me perguntou de que departamento eu era. Quando lhe falei que atuava no departamento de educação, o atendente me disse que era professor, e começou a contar sua história.
Converso pouco quando faço pedidos via telefone. Além da encomenda, falo um pouco sobre o tempo, a economia ou os atrativos do que estou pedindo. Tudo muito rápido, uns trinta segundos de prosa. Nunca havia entrado num papo pessoal como o iniciado pelo atendente que falou por cerca de dez minutos. Eu murmurava algo de vez em quando, mas ele falou quase que o tempo todo. O homem era afirmativo, porém, sem exageros. Tinha uma história para contar e a contou numa mistura de frustração e convicção.
Ele chegou à docência tardiamente em sua vida de trabalho. Foi controlador de tráfego aéreo. “Mas”, ele me disse, “você sabe o que aconteceu com a gente” – numa referência à demissão de 11.000 controladores por Ronald Reagan quando a categoria se recusou a cessar uma greve, num dos primeiros ataques aos sindicatos durante a ascensão da direita nos Estados Unidos.
Depois de perder o emprego de controlador, foi um homem de negócios por alguns anos – não me disse qual o tipo de negócio em que esteve envolvido – mas, me contou, sempre quis ensinar. Por isso, seus amigos e mulher incentivaram-no a buscar formação acadêmica no campo da educação. Ele voltou à universidade e fez um curso de formação de professores especializados em educação de crianças com talentos especiais. Conseguiu trabalho na área e gostava do que fazia. Isso durou dois anos. Mas, com a chegada da crise, seu estado começou a cortar o orçamento da educação para equilibrar as contas. Ele concordava com orçamentos equilibrados. “Como homem de negócios, eu compreendo isso”, ele me disse. Mas, por causa da crise, meu interlocutor e muitos outros – professores de arte e música, por exemplo – perderam o emprego. O professor desempregado me disse que o projeto para crianças talentosas não é como educação especial. Pais de crianças em projetos de educação especial fizeram um grande barulho quando souberam da demissão de professores de seus filhos.
Durante um longo tempo, ele não conseguiu trabalho como professor. “Quando viam cabelos brancos e rugas, optavam por candidatos mais jovens”. Falou-me um pouco sobre seu desapontamento, e como ele tinha muita experiência, muito conhecimento para compartilhar, como a profissão de professor significava tanto para ele , e como seus familiares e amigos apoiaram sua mudança da área de negócios para a área de educação. Sua mulher então sugeriu que ele fizesse uma especialização na area de gestão para aumentar suas chances de conseguir trabalho. Ele fez isso. Eventualmente foi entrevistado para um trabalho de supervisão, a coordenação de projetos de educação de crianças talentosas num pequeno distrito educacional. No final da conversa, o superintendente lhe disse que ele foi bem em tudo, mas o distrito não dispunha de verba para pagar seu salário.
Sua vida ficou difícil; com dois empregos – ele não me disse qual era o outro emprego – ainda continua esperançoso de que tem alguma chance de voltar ao magistério, embora saiba que a situação não joga a seu favor. ”É o que eu sonho fazer”.
Não fiquei sabendo claramente quais os motivos que levaram aquele atendente a ter tantas dificuldades para conseguir novo emprego em educação, mas acho que ele merece o benefício da dúvida e sou levado a pensar que a narrativa sobre sua história de trabalho corresponde à verdade dos fatos. Há muitos americanos como ele, com educação superior e grande experiência de trabalho, atualmente desempregados ou subempregados. E sua história, como as histórias de muitos outros em situações parecidas, revelam como realidade econômica de agora é contraditória e complicada.
Pra começo de conversa, ouvimos continuamente que a passagem para a prosperidade é a educação; “é preciso nos educar para uma economia melhor”. Tudo isso é proclamado aos quatro ventos, embora um grande número de pessoas com educação superior não esteja prosperando. O problema não é a educação, mas a falta de ou o corte de empregos. E uma enorme perda de postos de trabalho aconteceu em estados que fizeram grandes cortes orçamentários. Em alguns casos, houve certo incentivo para que as pessoas buscassem trabalho na área de educação, como aconteceu com meu interlocutor, apesar de existir nas políticas de reforma educacional uma valorização – não explícita – da juventude sobre a experiência.
Há cortes na educação em todos os estados. Determinadas disciplinas são atingidas de maneira desproporcional – e isso aconteceu no caso do meu interlocutor, vítima de uma tensão entre educação de crianças talentosas e educação especial.
Há uma ironia comum que estamos vendo em nossa cultura política quando as pessoas apoiam certas medidas sociais e econômicas – como no caso de cortes orçamentários – que as prejudica diretamente. Fiquei tão impressionado com a urgência do homem em contar sua história que não tive a presença de espírito de lhe perguntar sobre o modo como o presidente Reagan tratou a greve dos controladores de voos, e como as medidas de austeridades lhe custaram a perda de seu trabalho de professor.
Desejo tudo de bom para o professor desempregado que me contou sua história. Ele investiu muito tempo e dinheiro para redirecionar sua vida de trabalhador, seguindo não só seu desejo, mas também o chamado de não educadores do governo e dos grupos reformistas para mudar de carreira e se dedicar à educação. O país faz este chamado, mas a atual situação econômica e política não oferece muita ajuda para honrá-lo.
Dias atrás, dois amigos me contaram as bobagens que certos acadêmicos andam fazendo com o ensino técnico no Brasil. A bobagem maior é a de oferecer muita teoria, esvaziando o conteúdo técnico dos cursos. Eu precisaria de mais informações para analisar com cuidado o que está acontecendo. Mas, acho que texto sobre o assunto, escrito em Portugal, no blog De Rerum Natura, oferece um bom quadro daquilo que meus amigos me contaram. A matéria é escrita pelo educador Rui Baptista e achei por bem reproduzí-la aqui:
Numa altura em que Nuno Crato detém a pasta da Educação demonstrando não embarcar em facilidades e demagogias, ontem, em noite chuvosa de Abril (que cumpria o adágio “em Abril águas mil”), dei comigo a reler uma crónica de jornal intitulada “Sobre o que não fala a ministra nem ninguém” (Público, 17/08/2006).Nessa crónica do então deputado do PSD Paulo Rangel (actual eurodeputado desse partido político) era feita uma crítica à extinção das escolas técnicas e liceus que viriam a dar lugar a escolas básicas e do ensino secundário. O respectivo conteúdo sintetiza-se em poucas linhas que se transcrevem: “O que falta ao país, decididamente, não são historiadores e biólogos. Mas todos sentem a falta de electricistas, de picheleiros, de carpinteiros, de informáticos, de operadores de maquinaria de toda a sorte e ordem”.
Porque o título dessa crónica dizia que o assunto não tinha merecido atenção pública, corri a consultar uma pasta com artigos de jornais da minha autoria. E nela encontrei, para descanso da minha consciência de cidadania, um artigo da minha autoria publicado no Diário de Coimbra (26/07/2001) com o título “A extinção dos liceus e escolas técnicas”. Dele transcrevo alguns excertos:“Meses atrás, foi reconhecido por uma figura socialista com ampla audição no sistema educativo francês: ‘O collège único é uma ficção, um igualitarismo funcional que nada tem a ver com a igualdade real” (Jean-Luc Melénchon, L’Express, 22 de Março de 2001). [Abro um parêntesis para referir o facto de Jean-Luc Méchenlon ser actualmente candidato às eleições de hoje à presidência da República de França, em representação dos comunistas e parte da extrema-esquerda].(…) Com a extinção das escolas industriais e comerciais, que tão boas provas deram na formação de técnicos competentes (carpinteiros, electricistas, serralheiros, mecânicos de automóvel, contabilistas, etc.) ficou o país sem mão mão-de-obra qualificada de crédito reconhecido que representava a espinha dorsal do seu desenvolvimento tecnológico e económico. Actualmente, os alunos do ensino básico estão mal preparados quando entram nas escolas secundárias deparando-se com escolhos sem fim que os tornam, vezes sem conta, náufragos do mar proceloso de um ensino superior exigente. Ou então, desistindo dos estudos superiores, submetem-se a um ensino técnico livresco que os não habilita a bem desempenhar uma profissão que os ventos da democracia portuguesa (elitista no mau sentido da palavra) tem como menos digna e valorizada socialmente.(…) Em vez de se continuar a dar a toda essa juventude a possibilidade de um enxada para, dignamente e com proficiência, ganhar a vida, distribuem-se mãos cheias de graus académicos universitários ou politécnicos de duvidosa qualidade pelos mais favorecidos de meios de fortuna, de audácia, de persistência em chumbar anos seguidos, sem ter em conta a suas reais capacidades e as necessidades de Portugal no competitivo e altamente especializado mundo laboral da União Europeia, exigente para que a qualificação académica corresponda a um exercício profissional de qualidade”.Em nossos dias, ao contrário de antigamente, o ensino profissional tornou-se, em vez de uma vocação, um recurso dos que não conseguem, por cabulice ou deficiência económica, terminar um ensino secundário destinado à entrada no ensino superior. Quantos pais – neste cantinho ibérico em recessão económica que os mais pessimistas temem transformar-se em antecâmara de futura bancarrota – poderão continuar a suportar dispendiosas explicações no ensino secundário (ou até mesmo no 1.º ciclo do básico) para que os filhos acedam a cursos universitários mais procurados, por exemplo, Medicina e Arquitectura? E a prover, por outro lado, a deslocação a instituições do ensino universitário distantes de casa, com as inerentes despesas de quarto e alimentação? E a pagar propinas, livros, sebentas, fotocópias e outro material escolar tendo como o horizonte o desemprego ou uma ocupação temporária, depois de formados, como caixas de supermercados? E o que dizer dos empréstimos bancários para fazer face a estas despesas a serem pagos com dinheiro usufruído em empregos que se transformarão em desempregos?Canudos e desemprego trazem-me à memória o aviso de um autor estrangeiro que li algures: “A infantaria das novas revoluções será formada por licenciados que o Estado forma sem ter emprego para lhes dar”. Num sistema educativo enfermo (em que nas escolas secundárias funcionam simultaneamente cursos humanísticos e científicos destinados ao ingresso no ensino superior e cursos profissionalizantes livrescos, deixando deteriorar-se e sem lugar para o ensino prático oficinal das antigas escolas industriais, chega de aplicar mezinhas de curandeiro que dão “a ilusão de um país de doutores”, segundo ainda Paulo Rangel, e em que se chegou ao ponto de se desejar, à outrance, uma licenciatura de pechisbeque como adorno do mais elevado cargo da ex-governação socialista!Esta verdadeira pandemia de etiologia secular em Portugal, mereceu, aliás, a crítica de Eça de Queiroz, ele próprio bacharel em Leis, quando exaltou as qualidades da Ramalhal figura, seu companheiro literário em As Farpas e dilecto amigo, dizendo que “tem saúde e não é bacharel”. O autor de Os Maias faz mais do que isso transportando a pandemia para o outro lado do Atlântico (talvez por considerar que “o Brasileiro é um Português dilatado pelo calor”), ao afirmar que o Brasil é um país de doutores. Mas o mal no nosso torrão natal não está tanto no número de licenciados, mas no desemprego que grassa, qual erva daninha, e que os espera, defraudando esperanças de colher dividendos por terem queimado as pestanas em noites insones de estudo. Como diz a sabedoria popular, “fama sem proveito faz dor de peito”.