Arquivo da categoria ‘Educação e Trabalho’

Educação cooperativa em Waterloo

janeiro 20, 2014

waterloo

Semana passada postei no meu Face uma notícia sobre educação cooperativa na Universidade de Waterloo, Canadá. Minha postagem não entrava em detalhes. Resolvi, por isso, escrever um informe mais completo. Para tanto, reli meu relatório sobre uma atividade da qual participei no Canadá em 1998. Aproveitei parte do que escrevi na época. Fiz uma boa revisão e acrescentei algumas informações complementares. Creio que este post passa uma informação bastante clara sobre a educação cooperativa praticada pela Universidade de Waterloo, uma das cinco melhores instituições de ensino superior do Canadá.

Um dos tópicos do evento “Desenvolvimento de Recursos Humanos: O Modelo Canadense”, promovido pela OIT, de 14 a 22/09/98, foi Educação Cooperativa. Esta modalidade de organização do processo educacional foi exemplificada a partir da experiência da Universidade de Waterloo.

 

A ideia de educação cooperativa, surgida em 1906, é praticada principalmente nos EUA, Canadá e Reino Unido. Ela envolve um “currículo” que alterna fases acadêmicas com fases de trabalho, resultando numa formação mais sintonizada com as demandas profissionais. Na Universidade de Waterloo, o sistema de educação cooperativa funciona desde 1957. Hoje (1998), cerca de 9.000 estudantes daquela universidade são alunos de educação cooperativa. O sistema envolve um plano de estudos dividido em fases acadêmicas e períodos de trabalho. Em engenharia, por exemplo, Waterloo utiliza um quadro de estudos com seis períodos de trabalho e oito períodos acadêmicos. Convém reparar que os módulos sucessivos de períodos de trabalho e períodos acadêmicos criam um calendário inteiramente diferente do calendário escolar (Não há férias escolares ou recesso em educação cooperativa).

 

Cabe observar que o modelo de educação cooperativa não se confunde como modelos que incluem estágios curriculares. Os alunos de Waterloo, nos períodos de trabalho, são contratados como funcionários das empresas, com todos os direitos e deveres de um trabalhador comum. Eventualmente, se as empresas participantes precisarem contratar serviços em vez de pessoas, a própria universidade pode ser a agência empregadora. Espera-se que os alunos, nos sucessivos períodos de trabalho, assumam responsabilidades e tarefas cada vez mais complexas, articulando progresso nos estudos com exercício profissional.

 

A Universidade de Waterloo engloba dois tipos de cursos: exclusivamente cooperados (caso das engenharias, por exemplo) e mistos, onde há turmas tradicionais e cooperados (situação que ocorre principalmente em ciências humanas).

No regime de educação cooperativa, encontrar trabalho é, em primeiro lugar, responsabilidade do aluno. A Universidade atua com uma estrutura de apoio (uma diretoria no campus e escritórios nas principais cidades canadenses). Tal estrutura age como intermediária entre alunos e empresas. Eventualmente, como já se registrou atrás, a universidade pode funcionar como agência empregadora desde que existam empresas que precisam contratar serviços. Além disto, a diretoria de educação cooperativa promove continuamente o regime de Waterloo e firma convênios com empresas ou órgãos governamentais interessados em contratar alunos da Universidade.

Em cursos que procuram capacitar pessoas para o trabalho, as vantagens da educação cooperativa são evidentes. Entre outras coisas, o sistema:

 

·         aproxima as empresas da instituição educacional;

·         proporciona experiência profissional durante o curso;

·         articula de modo concreto trabalho e aprendizagem

·         garante uma atualização constante dos conteúdos curriculares;

·         sugere diversos possibilidades inovadoras de organização das situações de ensino-aprendizagem;

·         dinamiza o processo educacional a partir das experiências de trabalho dos alunos;

·         cria, nas empresas participantes, um clima de inovação nos setores que contam com trabalhadores-estudantes;

·         traz para as empresas participantes informações atualizadas e imediatas, elaboradas por pesquisadores e especialistas;

·         facilita a seleção de talentos nas empresas;

·         forma jovens com experiência diversificada;

·         facilita avaliação constante dos cursos oferecidos pela instituição educacional;

·         desperta nos docentes  o interesse por uma atualização constante.

 

Todas essas vantagens, e muitas outras que poderiam ser listadas, decorrem de dinâmica que pode modificar substancialmente as estruturas escolares. Cursos organizados desde a ótica da educação cooperativa devem, necessariamente, abandonar boa parte daquelas práticas  que caracterizam negativamente as escolas. Todo o conteúdo deverá ser atualizado. O aluno não será mais alguém interessado em preparar-se para um trabalho que faz parte da sua formação. Além disto, não será necessário inventar situações de aplicação do conhecimento; as idas constantes dos alunos ao mercado de trabalho trarão para as escolas diversas alternativas de aplicação do saber. E tudo isto não precisa ser planejado em detalhes, basta existir uma boa estrutura que garanta articulações da instituição educacional com as empresas.

 

Vale comentar um pouco mais a última observação do parágrafo anterior. Há, nos dias de hoje, um movimento significativo na busca de métodos capazes de garantir maior congruência entre capacitação profissional e demandas do mercado de trabalho. No Canadá, assim como em boa parte dos países do primeiro mundo, estudos sobre competências por áreas ou grupos ocupacionais são a principal resposta ao problema da congruência. Supõe-se que competências, amplamente pesquisadas e objetivamente descritas, sejam matéria  prima indispensável para a realização de exames nacionais de certificação e para o desenho de currículos de formação.

 

No caso do Canadá, cada grupo ocupacional pesquisado é descrito por um repertório de 300/400 competências. Cada pesquisa dura de um a dois anos. Assim, mesmo com ênfase em setores ou áreas em vez de ocupações, com a consequente redução do número de perfis ocupacionais (de cerca de 5000 para uma cifra em torno de 500), estudos sobre competências exigem grande investimento de tempo e dinheiro. Além disso, as pesquisas no geral descrevem um momento do passado. Não são, portanto, muito confiáveis como descritores do trabalho no futuro. O regime de educação cooperativa, por sua vez, exige apenas a organização de cursos que articulem educação e trabalho de modo sistemático em blocos sucessivos de atividades acadêmicas e de engajamento produtivo no mercado de trabalho. Esta providência, aparentemente simples, garante a atualização constante de conteúdos e acesso, por parte do estudante, às demandas ocupacionais das empresas.

Docentes, Valores e Educação Profissional

janeiro 19, 2014

Para interessados, trago para cá relatório parcial de estudo que estou fazendo sobre Valores, Trabalho e Educação Profissional:

Relatório 6 docentes

 

Arte no trabalho

dezembro 22, 2013

Faz alguns dias que minha amiga Nunux indicou um belo vídeo sobre a produção de ladrilhos. Vi muitas peças de tal piso em minha vida. Até hoje, o piso do alpendre da casa em que mora minha mãe é ladrilhado.

Ladrilhos são feitos peça a peça e exigem domínio de uma arte refinada. Até ver o vídeo eu não tinha qualquer ideia de como são feitos. Agora que sei, vou apreciar melhor antigos pisos de muitas igrejas e prédios públicos antigos.

Trago o vídeo para cá por um motivo: ele mostra, na fala de trabalhadores, os caminhos percorridos na aprendizagem que acontece no interior do próprio trabalho. Isso pode nos ajudar a compreender melhor o modelo educacional que nace da ação e da incorporação das pessoas em comunidades de prática.

Nova geração de velhos

novembro 27, 2013

velho no trampo 1 Outro título para este post: cursos para terceira idade é coisa do passado. Creio que o texto que segue explica bem isso.

Está na cara que há um novo fenômeno demográfico no planeta, a formação de um estrato representativo de cidadãos com mais de sessenta anos. O grupo com mais de sessenta anos já chega ou ultrapassa os 20% da população em muitos países. E a tendência é a de que mais e mais nações chegarão lá em breve.

O fenômeno não é novo apenas porque o número de velhos está crescendo. Novidade maior é a de que essa gente mais madura é saudável e produtiva. Quer e precisa trabalhar. Além disso, muitos países com índices de crescimento populacional abaixo das taxas de reposição precisam do trabalho dos velhos.

Comecei a me interessar pelo fenômeno do envelhecimento da população bem antes de chegar aos sessenta. Mas, não encontrei número significativo de estudos sobre a matéria. Parece-me que o fenômeno inicialmente ficou restrito aos especialistas em demografia. Em outras áreas das ciências sociais, os estudos eram raros ou inexistentes. Muitas vezes refletiam apenas curiosidades de caráter folclórico.

Por causa dos reflexos do envelhecimento da população sobre os sistemas de assistência médica, o fenômeno da novidade dos velhos mereceu inicialmente mais atenção no campo da saúde. Mas, nos campos que mais me interessam, educação e trabalho, ainda não há boa quantidade e qualidade de estudos.

Em educação é típica a proposta que fica apenas na superfície da questão: as universidades da terceira idade. Já faz algum tempo que instituições de cursos superiores criaram programas especiais para os velhos. Tais programas são quase sempre ofertas de atividades para que os idosos possam “ocupar o seu tempo”. Há inclusive marketeiros que consideram tais programas um nicho de mercado, ideia que consagra as universidades da terceira idade como negócio oportuno. Nada tenho contra os cursos para ocupar o tempo dos velhinhos, pois estes últimos vão para a escola com muito entusiasmo e interesse. Mas, como já disse, a universidade da terceira idade é uma ideia do passado. Os velhos não querem apenas se ocupar na escola, querem aprender coisas úteis para continuarem ativos, para continuarem na força de trabalho.

Com dez ou mais por cento da população na marca dos sessenta ou maios anos, a principal questão não é a oferta de atividades para ocupar tempo. O desafio maior é o de identificar e oferecer oportunidades de trabalho e educação formal para número expressivo de pessoas maduras. Os sessentões e setentões estão aí. A economia precisa deles não como consumidores, mas como  produtores. E eles precisam de trabalho. A capacitação profissional  e atualização profissional das pessoas mais idosas precisam de cuidados especiais em termos metodológicos. Nada ver com as soluções construídas para a aprendizagem de crianças e jovens. O que é bom para os jovens não o é necessariamente para gente madura. Há aqui um desafio pedagógico sério que ainda não foi considerado por faculdades de educação.

Na minha vizinhança, vejo senhoras idosas fazendo um trabalho leve de assistência para consumidores de supermercado ou livraria. Algumas empresas ofertam tal tipo de emprego para mostrar uma face mais humana de vendas.  Aplaudo a medida. Mas, isso é uma gota d’água no oceano de necessidades de emprego para velhos. A grande maioria dos homens e mulheres maduros querem trabalhos normais.

Ainda predomina a ideia de que produtividade é função de entusiasmo juvenil. Por isso, muitas empresas se empenham em juvenilizar seus quadros, oferecendo, para os velhinhos, condições bem favoráveis de aposentadoria. Essa medida entrou em conflito com o envelhecimento da população, pois nas próximas décadas os jovens trabalhadores não poderão sustentar ganhos de aposentadoria que garantam boa qualidade de vida para quem já ultrapassou a barreira dos sessenta. É muito mais sábio assegurar para os velhos trabalho “normal”, em vez de ocupações para “idosos”.

Há um bocado de preconceitos no campo da capacitação e atualização profissional de gente mais velha. Preocupa-me, por exemplo, a ideia hegemônica de que sessentões tem dificuldades insuperáveis para lidar com tecnologias digitais. Quando gente velha usa computadores no cotidiano e no trabalho sem grandes dramas, há quem ache que os casos sejam de exceção. Pura bobagem. Os computadores pessoais já estão na praça há mais de trinta anos. Quando começaram a invadir o mundo, os velhos de hoje eram jovens adultos, muitos deles pioneiros em usos das maquinetas no trabalho, na educação, na vida pessoal. Isso aconteceu até com um desconfiado caipira como eu. E olha que nos anos oitenta usar computadores exigia a aprendizagem de muitos truques, uns até bem complicados.

Volto ao tema mais geral da educação dos velhos nos dias de hoje. É preciso ter em conta que velho aprende. Mas, não aprende de acordo com a psicologia da aprendizagem que é ensinada até hoje nas faculdades de educação. Para eles, não funcionam os antigos preceitos de didática tradicional. Talvez eles precisem de mais tempo. Certamente tem uma rica experiência que não pode ser ignorada. Precisam de programas que façam sentido para seu presente e futuro. Poucos deles precisam apenas de ocupar o tempo com coisas que os gringos chamam de nice to know, a maioria merece programas voltados para o need to know. E quando forem para a universidade dispensarão aqueles cursinhos desenhados para a terceira idade.

Aqui vão duas indicações de leitura sobre o tema:

O Saber do Trabalho

agosto 4, 2013

Faz alguns anos que escrevi resenha de livro do Mike Rose sobre saber dos trabalhadores. A resenha foi publicada no Boletim Técnico do Senac, mas não consigo encontrá-la na Web. Por isso, recorro á primeira versão de tal resenha, arquivada entre meus guardados.

Resenha de livro

ROSE, Mike. O Saber no trabalho: valorização da inteligência do trabalhador. Trad.  de Renata Lúcia Bottini. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007, 253 p.

 Descritores do conteúdo do trabalho ignoram dimensões importantes dos saberes dos trabalhadores. Tais descritores padecem de sérios limites por causa de modos de ver as profissões e de metodologias que não consideram as tramas cognitivas e sociais demandadas pelo fazer. O resultado são modos de ver a atividade produtiva, sobretudo a manual, como uma prática sem inteligência. As conseqüências disso no campo educacional consagram o famoso erro de Descartes, a divisão insuperável entre mão e cérebro, corpo e mente. Mike Rose, professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), busca superar esse modo tradicional de ver o saber dos trabalhadores.

O autor  cresceu entre ferroviários e foi criado por uma mãe que sustentou a família com seus ganhos como garçonete. Ele chegou à universidade por meio de mecanismos de inclusão para alunos das camadas populares. Tais acidentes biográficos ajudaram-no a construir uma abordagem do trabalho que faz  emergir a riqueza da inteligência presente em profissões como as de garçonete, cabeleireira, carpinteiro. Uma abordagem muito diferente daquelas que alicerçam análises ocupacionais ou definições de competências.

No primeiro capítulo, o autor vê os serviços de restaurante a partir de entrevistas com sua mãe e outras garçonetes. E Rose vê muito mais que competências e habilidades no trabalho das garçonetes. Vê um rico exercício da inteligência que decorre da dinâmica dos fazeres necessários aos serviços de restaurantes. Boa parte dessa dinâmica é invisível para analistas centrados em aspectos observáveis do trabalho. Não fica evidente para esses analistas, por exemplo, estratégias utilizadas para otimizar atendimento a oito mesas com clientes que chegaram em tempos distintos e têm demandas muito diferentes de serviços; ou estratégias de memória para relacionar pedidos e gostos de clientes num horário de rush no qual cada garçonete atente a cerca de trinta pessoas.

No segundo capítulo, o autor analisa a profissão de cabeleireira com base em encontros com profissionais de diversos tipos de salões de beleza. O resultado é bastante parecido com o obtido a partir da conversa com as garçonetes. Nos três capítulos seguintes, Rose estuda profissões da área de construção civil. Mas desta vez suas observações não foram feitas a partir de diálogos com profissionais experientes. Ele examina o saber de profissões como as de encanador, eletricista e carpinteiro acompanhando o cotidiano escolar de estudantes e professores. As análises, no caso, mostram o fluxo de um saber que não cabe na forma dicotômica do par teoria e prática. Ao descrever discurso e fazeres dos estudantes, Rose mostra desdobramentos estéticos e éticos que estudos convencionais  ignoram completamente.

O sexto capítulo foi construído a partir de duas biografias de trabalhadores: um supervisor de linhas de montagem, uma soldadora que ensina seu ofício num curso de nível tecnológico. O supervisor formou-se em atividades do chão de fábrica. A soldadora aprendeu seu ofício em cursos técnicos e tecnológicos. Ambos, porém, vêem o saber do trabalho a partir de uma cultura operária. Nos capítulos finais, Rose procura articular toda a riqueza de suas análises de profissões manuais com a elaboração do saber. Para isso recorre a estudos contemporâneos no âmbito das ciências cognitivas. E observa que tais estudos tornam inadequado o tratamento dicotômico do saber em teoria e prática, conhecimento e habilidade. Para mostrar que a visão tradicional estigmatiza certo trabalho manual, o autor acompanhou, no regime de residência de um hospital, a formação de cirurgiões. Uma das conclusões de Rose é a de que o fazer-saber de médicos cirurgiões tem a mesma natureza que o fazer-saber de carpinteiros. Ocorre, porém, que o trabalho médico tem um status muito elevado, circunstância que valoriza as técnicas de cirúrgicas sem considerar sua natureza de saber em ação.

A escolha da profissão de garçonete como ponto de partida para os estudos que resultaram no livro não foi determinada apenas pela biografia do autor;  Rose escolheu a garçonete como um ícone de seus estudos porque essa profissão é vista nos Estados Unidos como atividade que requer pouca inteligência e escassa capacitação. Referências á garçonete são muito parecidas com as afirmações que se fazem no Brasil sobre o pedreiro. Num e noutro caso, ambas a profissões são vistas com destino para pessoas de limitadas capacidades intelectuais. A riqueza dos saberes exigidos pelas duas profissões acaba ficando invisível. Os próprios trabalhadores que exercem tais ofícios são invisíveis. Essa invisibilidade ocorre por causa dos pressupostos a partir dos quais pesquisadores abordam o trabalho manual. A invisibilidade do saber profissional no caso é conseqüência de uma escolha metodológica. Saberes, tradições, visões de mundo e valores elaborados pelos trabalhadores em seus fazeres profissionais acabam não entrando na pauta de investigação. Sobram apenas habilidades mensuráveis e objetivamente descritíveis.

O aspecto central do livro de Mike Rose é a interação entre o trabalhador e sua obra. O autor desvela a relação entre o profissional e a vontade de realizar um trabalho bem feito. Este modo de ver não reduz o saber trabalhar a habilidades ou competências, a parcelas de conhecimento desvinculadas de compromissos sociais e da satisfação de produzir. Esta orientação para a obra pode ser muito promissora para investigações  sobre conteúdos do trabalho e escolhas metodológicas na área de educação profissional.

Valores e Educação Profissional

agosto 2, 2013

Acabo de redigir um texto para os anais do XI Congresso Internacional de Tecnologia Educacional que acontecerá no Recife, em setembro próximo. No evento farei uma comunicação sobre valores e educação profissional.

O texto que escrevi não é um síntese da minha comunicação. Ele é um aperitivo para os dois temas que quero abordar com mais ênfase: valores do fazer e valores do espaço da educação. Para interessados, reproduzo, a seguir, o mencionado texto. Se alguém quiser colaborar com comentários que eu possa integrar à minha comunicação, ficarei muito grato.

 

 

Valores, Trabalho e Educação Profissional

Jarbas Novelino Barato

 

 

As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender. (Paulinho da Viola)

A verdadeira fidalguia é a ação. O que fazeis, isso sois, nada mais. (Antonio  Vieira)

Começo com uma cena que vi muitas vezes na construção civil.

O pedreiro está assentando azulejos. Usa técnicas hoje desaparecidas, que exigem confecção de massa especial e umedecimento de azulejos em nível que assegura boa fixação na parede. O profissional está no meio do serviço. Ele já assentou umas seis fileiras de peças. Nesta altura, para, pega um pano úmido e retira restos de massa que se acumularam sobre os azulejos. Afasta-se a alguns passos da parede.

À distância, o pedreiro contempla o que fez. Tem um olhar atencioso. Vê o alinhamento dos azulejos. Considera o conjunto do que já está pronto. Percorre com olhos, vagarosamente, sua obra. Para companheiros que estão próximos, comenta: “está ficando bonito”. Aproxima-se da parede e passa com delicadeza a mão grossa e cheia de calos sobre a superfície azulejada. Manifesta contentamento. Volta ao serviço e continua a assentar azulejos. Mais à frente poderá repetir o ato de contemplação da obra que acabo de descrever.

A cena descrita nos parágrafos anteriores não é uma atividade técnica para verificar acertos, prumo e alinhamento dos azulejos. Ela é um momento contemplativo, envolvendo ética, axiologia e estética. O ator dessa cena é um celebrante da obra, que não separa competência profissional de responsabilidade pelo que faz e de compromisso pessoal com um serviço bem feito. Ele aprendeu valores na ação. Aprendeu fazendo.

Coloquei este início de minha comunicação na Web. Minha amiga IvetePalange leu o texto e fez um comentário que complementa as observações sobre a cena do pedreiro assentando azulejos.

Ivete lembra que, muitos anos atrás, ela e equipe estavam produzindo, no SENAI de São Paulo, um vídeo sobre colocação de pisos cerâmicos e azulejos. Os profissionais da construção civil, envolvidos com a produção, destacaram que o serviço precisava ser feito com muito capricho. Por essa razão, os produtores resolveram dar ao vídeo o titulo “No maior capricho…”.

Há muitas traduções para capricho, no caso. A melhor delas tem a ver com a ética do cuidado. Bons profissionais importam-se com a obra que produzem. Identificam-se com ela. Em sua mensagem, Ivete acrescenta mais uma dimensão do capricho, a beleza da obra. E repara que, muitas vezes, essa beleza é invisível para leigos. Os profissionais conseguem vê-la, buscam atingi-la, sentem-se frustrados quando ela fica ausente da obra.

Na mensagem da Ivete há um detalhe que quero reiterar. O capricho é valor de uma comunidade de prática, de uma corporação profissional. Ele independe do usuário ou do cliente. Os profissionais garantem-no, mesmo que prováveis beneficiários sejam incapazes de apreciá-lo.

Ensaio interpretativo

Contados os casos, tento interpretar alguns de seus significados.

A cena da minha memória de menino, que vivia em canteiros obra acompanhando o trabalho de meu pai e outros profissionais do ramo, e a história da produção de vídeo, narrada pela Ivete Palange deixam muito claro que o trabalho é prenhe de significados estéticos, axiológicos, éticos. E mais: os trabalhadores têm consciência disso, embora nem sempre a expressem verbalmente. Muitas vezes tal consciência emerge em atos de apreciação da obra. Em outras palavras, para melhor conhecer valores do trabalho é preciso observar o que fazem os trabalhadores.

As duas histórias são um convite para pensarmos ou repensarmos a questão da aprendizagem de valores em educação profissional. Mostram que a ética, a axiologia e a estética são dimensões intrínsecas do trabalho. Não são desenvolvidas a partir de reflexões sobre um quadro de valores – geralmente distante do fazer concreto de cada dia – apresentado verbalmente em ambientes de sala de aula, ou estudado a partir de um código de valores, escrito em papel no formato de uma lista de deveres. Valores são parte integrante da dinâmica de produzir obras.

Onde estão os valores do trabalho? Há duas respostas para esta pergunta. A primeira delas é a de que os valores do trabalho estão no interior de uma comunidade de prática. Para evitar interpretações que opõem teoria e prática, acho conveniente explicar o sentido de prática quando esta palavra é associada a comunidade. Prática no caso não é o oposto de teoria. Prática no caso é práxis, ou seja, é prática social que pode ser percebida nas dinâmicas de um grupo que compartilha interesses comuns de vida. No caso do trabalho, há comunidades de prática em atividades produtivas cujos atores percebem em seus fazeres cotidianos os sentidos sociais das obras – tangíveis e intangíveis – de seu ofício. Mesmo quando o que produzem é feito isoladamente, esses atores sentem-se partícipes de uma comunidade que se sabe senhora de uma arte.

A segunda resposta é a de que os valores estão presentes na percepção que cada um dos atores tem de suas obras. Essa percepção é fundamental em termos de definição da identidade do trabalhador. Ele é o que ele faz. Ele se projeta em seus feitos. Ele se vê naquilo que produz. Nesse caso, o resultado do trabalho, mudando certa dimensão de mundo, muda o ser humano que o produz. A identidade se molda a partir do aprender que resulta do desvelamento de ser das coisas em fazeres próprios de uma profissão. Vemos isso claramente no ato de contemplação do pedreiro que descrevi no começo dessa comunicação. Aquele pedreiro se vê no que faz. Se vê em sua compreensão das matérias primas que utilizou para construir uma parede bem azulejada.

Faço aqui uma primeira ponte entre educação e valores no e do trabalho. Quem ensina valores do trabalho é um mestre de ofício. Não é um filósofo bem formado que reúne os alunos em sala de aula para conversas sobre ética, valores e estética. O mestre do ofício ensina integralmente sua arte, comunicando a arte de fazer bem feito. Ele não separa execução de apreciação.

No ato de demonstrar a técnica TIG (Tungsten Inert Gas) de soldagem, por exemplo, o mestre do ofício destaca os movimentos apropriados, a natureza dos materiais que entram em cena, a beleza do trabalho, a perfeição do resultado, a garantia de que a soldagem é de boa qualidade, a capacidade de avaliar continuamente o resultado, etc. Para um observador de uma demonstração assim desenvolvida não há como separar valores de tecnologia. O fazer do soldador não é um ato ao qual se atribui valores antes ou depois da ação. Os valores estão ali. Nos metais. Nas ferramentas de soldagem. Nas atividades do soldador. As aparências são as de uma ação sobre materiais para obtenção de um resultado. Mas, se o trabalho é visto com simpatia, salta à vista o engajamento do trabalhador com aquilo que produz. E esse engajamento não é uma operação mecânica para criar hábitos e automatismos favoráveis à produção. Para quem observa o fazer do soldador com simpatia, fica evidente o engajamento com materiais, ferramentas e práticas sociais de uma comunidade que compartilha significados. Fica evidente a definição que uma soldadora utilizou para seu ofício numa conversa com Mike Rose: “soldagem é a arte da fusão de metais”.

Os valores de uma profissão, os valores do trabalho, certamente serão aprendidos nos laboratórios, não nos auditórios. Sirvo-me aqui de uma analogia proposta por meu amigo Steen Larsen, educador dinamarquês. Ele caracteriza o modelo escolar que conhecemos como auditório, não importando os recentes usos de TIC ou as metodologias que incentivam participação dos alunos. O modelo escolar, construído pelas elites para instruir seus filhos na linguagem estruturante do poder, é o alvo da crítica do Steen. Tal modelo entra em confronto com o modelo construído pelos trabalhadores para que seus filhos aprendessem a trabalhar[1] Há, nesse sentido, um engano que precisa ser considerado. Com a avalanche de modelos escolares soterrando a educação profissional, os valores do trabalho foram ocultados por discursos e atividades que pretendem enriquecer a formação técnica e tecnológica com a agregação de valores humanistas. Fica parecendo que a mais autêntica manifestação de humanidade, o trabalho, é apenas um evento fisiológico ao qual é preciso acrescentar sentido ou significado humano.

Há algum tempo, examinei roteiro de orientações pedagógicas[2], anexo ao plano de curso técnico voltado para uma profissão com sólidas bases na tradição das profissões como artes e ofícios. No curso, os alunos produzem diversas obras típicas da profissão. As peças produzidas exigem muita arte, concentração, avaliação contínua do processo, e podem ser objeto de admiração. Mas, as orientações pedagógicas ignoram completamente o fazer profissional ao abordar valores. Elas examinam os valores a partir da tradição escolar e sugerem aos professores atividades de leitura de textos curtos sobre ética, acompanhada por discussões em grupo. Nenhuma das temáticas sugeridas sequer tangencia valores intrínsecos do trabalho. Além disso, os valores são discutidos antes que os alunos entrem na oficina e comecem a construir obras próprias do ofício que estão aprendendo. Na concepção do plano de curso predomina visão decorrente da tradição escolar, da tradição literária, como observa Liv Mjelde.

Já posso enunciar agora algumas teses sobre o que anda acontecendo com a abordagem de valores no campo da educação profissional. Aqui vão elas:

·         O modelo escolar define, cada vez mais, as decisões pedagógicas no campo da capacitação do profissional.

·         Os valores intrínsecos ao trabalho continuam vivos, mas vão ficando cada vez mais invisíveis para os profissionais de educação.

·         Valores do trabalho que integram o fazer vão perdendo força na medida em que mestres de ofício são substituídos por professores em laboratórios, oficinas e espaços de produção.

·         Há, nas escolas, tendência de criar obstáculos para a celebração do trabalho.

·         No discurso, o fazer é reduzido à execução, fazendo com que não se percebam os múltiplos significados da ação.

·         A obra deixa de ser o centro do aprender a trabalhar, sendo substituída por uma orientação que privilegia a aquisição de competências pessoais.

Estes enunciados são apenas uma parte dos problemas que vejo nas tendências atuais de planejamento e concepção da educação profissional quando se examina os valores do e no trabalho em suas relações com a capacitação de trabalhadores. Entendo que é preciso recuperar modelo da formação profissional com raízes na tradição da aprendizagem de artes e ofícios.

Acho que leitores atentos já devem ter percebido que estou propondo completa revisão metodológica no ensino de valores em educação profissional. Sugiro que o núcleo dos valores a serem desenvolvidos pelos alunos está no fazer, está na obra. Sugiro que o melhor espaço para perceber valores, de modo vivo e expressivo, é a oficina. Sugiro também que o melhor professor para comunicar (colocar em comum) valores é o mestre de ofício. No fazer o aluno se sente membro de uma comunidade de prática que é também uma comunidade de significados. Sentir-se integrante de tal comunidade exige atividade, ação, produção de obras, e não apenas uma reflexão redutível a discurso.

Por razões de tempo e espaço, não entro em detalhes sobre metodologias. Mas, tenho certeza de que os leitores, aceitos meus argumentos, poderão vislumbrar os novos caminhos que julgo necessários no campo do desenvolvimento de valores pelos alunos que buscam capacitação profissional.

Deixo em aberto o temas dos valores presentes nos fazeres dos trabalhadores e sugiro exploração de outra área que precisa ser considerada quando se quer abordar ética, estética e axiologia na educação profissional: a arquitetura escolar.

Espaço e construção de identidade

Catherine Burke e Ian Grosvenor escreveram recentemente (2008) um belo livro sobre arquitetura e educação. Os autores escolheram a seguinte citação para mostrar a direção do estudo que fizeram sobre edifícios escolares e educação:

O aluno típico que acaba de concluir estudos de ensino médio passou cerca de 13.000 horas entre as paredes de uma escola pública. Essas 13.000 horas são potencialmente as mais impressionantes e valiosas de sua vida… Por meio do ambiente [...], o inteiro e custoso processo de educação encorajou-o ou anulou-o. O edifício escolar é a evidência visível e tangível da atitude do público para com a educação. (William G. Carr, National Education Asociation, 1935).

A arquitetura ensina valores muito mais que a exortação de professores. Num inquérito sobre o significado do espaço escolar para os alunos, um jovem que estudou num prédio sujo, mal conservado, com espaços reduzidos para circulação, com móveis em péssimo estado declarou: “na escola aprendi que sou um lixo”. O livro de Burke e Grosvenor, assim como outras obras recentes sobre o espaço escolar, enfatiza a profunda influência da arquitetura das instituições escolares no plano simbólico.

Não se costuma ler a arquitetura escolar na direção aqui apontada. Geralmente se pensa em conforto, em segurança e em conveniências de caráter didático para definir espaços escolares. Pouco se pensa nas profundas influências que tais espaços acabam desempenhando no desenvolvimento de valores, na construção da autoestima, na construção da identidade.

Escolas de lata, por exemplo, não são apenas uma evidência de falta de cuidado com a educação; elas são uma confissão de como as crianças da periferia são vistas pelas políticas educacionais que julgam que ficar trancado em containers de metal, com temperaturas em torno dos 50 graus, é apenas uma situação passageira de desconforto.

Observações feitas em the Message of the Schoolroom, artigo de Alison Lurie no New York Review of Books, edição de 04 de dezembro de 2008, iluminam alguns dos aspectos do tema arquitetura e educação. Reproduzo seletivamente algumas dessas observações a seguir:

De acordo com o clichê popular, toda instituição escolar, da creche ao programa de pós-graduação, é um tipo de fábrica. O prédio pode ser parecido com uma bela mansão ou com um armazém caindo aos pedaços, mas a função é a mesma. A matéria prima (aluno) entra e quase sempre é transformada num tipo de pessoa convencionalmente associada com a instituição.

Em qualquer fábrica, empregados e tipo de planta física são necessários ao processo. Muito se escreveu a respeito da influência exercida por diferentes tipos de professores e de abordagens didáticas sobre os alunos, mas pouco se escreveu a respeito da influência dos edifícios escolares. [...] O prédio pode ajudar a fabricar obediência automática ou atividade independente, ele pode criar elevada autoestima ou baixa autoestima.

[...]

Para os alunos, os efeitos da arquitetura escolar podem ser muito grandes e permanentes. Para as crianças do pré, a creche ou escola infantil transmite-lhes uma mensagem silenciosa, mas dramática. Equipamento de qualidade e bonito, salas confortáveis, e grande número de brinquedos interessantes não só deixam as crianças felizes, mas também lhes dizem que elas merecem o melhor. O pátio sem árvores e grama de uma creche popular, com suas gangorras avariadas e piscina de plástico furado, passa a mensagem contrária; mensagem que nem mesmo a professora mais carinhosa e capaz pode contradizer totalmente.

Por meio da arquitetura, as escolas podem também ensinar aos alunos como pensar sobre raça e classe social. No Sul [dos EUA], antes do movimento dos direitos civis, o contraste entre escolas públicas amplas e bem conservadas para os brancos, e escolas pequenas, dilapidadas e com classes muito cheias para os negros passava silenciosamente para os afro-americanos a mensagem de que eles valiam menos que os brancos.  

As lições ensinadas pela arquitetura escolar ainda precisam de grande aprofundamento se quisermos compreender as mensagens do espaço na educação em todos os níveis de ensino. Há três anos, promovi uma conversa sobre o tema no webespaço. Quis aprofundá-lo, mas outros interesses surgiram pelo caminho. Agora volto ao mesmo por causa de uma observação que colhi durante período de estudos sobre valores e trabalho numa escola de metalurgia do SENAI.

O diretor da escola me passou diversas informações sobre a organização da escola e sobre os cursos que oferece. Na conversa, ele me disse casualmente que o edifício tinha passado por uma reforma recente. Falou sobre alguns detalhes interessantes. Ressalto um deles. Nas oficinas, o piso reformado agora é claro. Claras também são as máquinas em todos os laboratórios e oficinas. Essa decisão rompeu com uma tradição de chão e máquinas de cor escura capaz de esconder a sujeira que vai acumulando em ambientes de oficina. As cores claras das oficinas exigem limpeza cuidadosa para que o ambiente se mantenha sempre agradável e higiênico. A medida tem várias consequências. Ela mostra para os alunos que eles:

·         são importantes e respeitados,

·         devem desenvolver hábitos de limpeza como os que lhes asseguram aquele ambiente agradável,

·         fazem um serviço em que a poeira e aparas de metais não devem caracterizar seu ofício como uma atividade “suja”.

Os novos ambientes de oficinas da escola que visitei passam mensagens convincentes sobre valores e trabalho, sem necessidade de qualquer discurso. O espaço fala em alto e bom som  que os alunos são importantes, são respeitados, que sua profissão é uma arte respeitável, que seu trabalho é bonito.

Pode existir situação contrária à que acabo de examinar: ambientes precários de laboratórios ou oficinas em programas de educação profissional.  Vi algo em tal direção, anos atrás, quando programas de governo buscaram oferecer oportunidades de capacitação básica para trabalhadores desempregados. Os ambientes para desenvolvimento de técnicas eram acanhados. Faltavam ferramentas de trabalho, faltavam insumos, não havia espaço suficiente para todos os alunos, os equipamentos quase sempre eram sucatas recuperadas. Havia boa intenção, mas a mensagem implícita no ambiente era a de que aqueles trabalhadores em busca de trabalho decente não eram candidatos ao paraíso ocupacional. Deviam se contentar com ocupações marginais, mal remuneradas.  A capacitação que recebiam tinha, socialmente, pouco valor.

Não há aqui espaço suficiente para avançar mais no campo da arquitetura e educação em programas de capacitação para o trabalho. Mas, acho que indiquei um rumo que vale a pena explorar.

Observações finais

Este texto não contempla todos os aspectos que pretendo abordar em minha comunicação no XI Congresso de Tecnologia Educacional, no Recife, dia 29 de setembro de 2013. Em vez de apresentar uma síntese da minha fala, resolvi destacar dois aspectos pouco estudados quando se abordam valores, trabalho e educação profissional: desenvolvimento de valores na ação e significados simbólicos dos espaços de educação.

Minha escolha se deve à percepção de que a educação profissional está cada vez mais escolarizada, perdendo contato com suas raízes históricas. Com isso, no campo de valores, os programas de capacitação profissional deixam de lado riquezas de significados que se constroem no fazer e nos espaços do trabalho. Elaborei minhas observações neste paper com a intenção de fazer um convite aos educadores: olhem para o trabalho e nele descubram ética, axiologia e estética. Essas dimensões valorativas estão lá, aguardando olhares atentos e simpáticos. Esses olhares são essenciais caso queiramos delinear metodologias adequadas para que nossos estudantes tenham consciência dos valores significativos que podem desenvolver trabalhando.

Valores não são saberes. Valores não são redutíveis a competências. Valores são modos de ser. Como diz Antonio Vieira “o que fazeis, isso sois, nada mais”.

 

Referências

Este não é um texto acadêmico. Por essa razão, não julguei necessário referenciar explicitamente todas as obras que inspiraram meu escrito. Mas, achei que convinha listar aqui a bibliografia básica que utilizei para esta conversa sobre valores, trabalho e educação.

BARATO, J.N. A Moral do Trabalhador na Educação Profissional. Boletim Técnico do SENAC, Rio de Janeiro, v. 39, n. 1, jan/abr 2013.

BURKE, C. & GROSVENOR, I. School. London: Reaktion Books, 2008.

CRAWFORD, M.B. Shop Class as Soucraft: An inquiry into the value of work. New York: Penguin Books, 2009.

LAVE, J. e WENGER, E. Situated Learning: Legitimate peripheral participation. Cambridge: Cambridge University Press, 1991.

LURIE, A. The Message of Schoolroom. The New York Review of Books, December 4, 2008.

MJELDE, L. Las Propiedades Mágicas de la Formación em el Taller. Toronto: The Centre for the Study of Education and Work: University of Toronto, 2011.

MJELDE, L. From Hand to Mind. In Livingstone, D.W. (org.), Critical Pedagogy and Culture Power. New York: Bergin & Garvey Publishers, 1987.

ROSE, M. O Saber no Trabalho: Valorização da inteligência do Trabalhador. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007.

ROUSSELET, J. A Alergia ao Trabalho. Lisboa: Edições 70, 1974.

VÁZQUEZ, A. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

WENGER, E. Communities of Practice: Learning, meaning and identity. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.


[1] O laboratório de que fala meu amigo dinamarquês é um ambiente de trabalho e tem raiz etimológica em labor, trabalho em latim. 

 

[2] Por razões de sigilo profissional, não posso revelar aqui nome do curso e da escola que integrou amostra de uma de minhas investigações.

Moral do trabalhador na educação profissional

junho 12, 2013

Segue link para artigo meu publicado recentemente no Boletim Técnico do Senac: Revista da Educação Profissional:

 

 

Esta é a primeira sistematização de estudos que estou fazendo sobre Valores, Trabalho e Educação.

Educação e Felicidade

junho 7, 2013

Uma das finalidades da educação, talvez a mais importante, é a de oferecer às pessoas oportunidades e meios para serem mais felizes. Esta ficha acaba de cair após leitura de um trecho em que Mike Rose, em Back to School, critica entendimentos predominantes hoje sobre fins da educação.

O pensamento hegemônico entende que o papel principal da educação é o de preparar bem as pessoas para o trabalho. Tudo é avaliado em termos de resultados econômicos e financeiros. Há outro pensamento também bastante popular: o de que a educação tem por finalidade primeira desenvolver o senso crítico. Como diz o Mike, nada a opor quanto a essas duas finalidades. Elas, porém, se esquecem das pessoas concretas e dos sonhos que elas têm.

No geral, vejo as finalidades da educação formuladas assim: adquirir (sic) competências, desenvolver senso crítico, apossar-se do patrimônio científico e cultural historicamente construído pela humanidade. São finalidades nobres. Mas, nenhuma delas revela preocupação com realização pessoal.

A partir de agora, vou insistir na ideia de que a educação deve ser, acima de tudo, instrumento para promover felicidade.

Educação e Pobreza

junho 7, 2013

A existência de escolas públicas aparentemente pode garantir igualdade de oportunidades para todos em educação. Não é bem assim. Condições de vida podem impedir acesso e sucesso escolar. No debate americano sobre qualidade da educação, Deborah Meier e Daine Ravitch mostram (cf. Bridging Differences) mostram que a pobreza é um grande obstáculo para que muitas pessoas permaneçam nas escolas, estudem e aprendam.

back-to-school-50Em Back to School, Mike Rose observa que gente pobre, com enormes privações de todos os tipos, precisa de alguma ajuda, sobretudo financeira, para frequentar cursos de capacitação profissional nos community colleges. Essa exigência é maior em colleges e programas de reconhecida qualidade.

Alunos que Mike acompanhou e entrevistou, no geral, tem alguma ajuda financeira. Muitos desses estudantes têm  a bolsa de estudos (de valor bem limitado) como  única fonte de renda com qual sustentam a família.

Ao ler o livro do Mike, fiquei pensando num grupo de brasileiros, na faixa dos 18 aos 39 anos, com uma história de engajamento precoce e precário no mercado de trabalho, e escolaridade básica insatisfatória, que frequenta ou poderia frequentar os Institutos Federais ou unidades do SENAI e do SENAC . Essa gente tem enormes dificuldades financeiras. Por essa razão, são  poucas suas chances de alcançar bons rendimentos nos estudos.

Comentários incidentais sobre o PRONATEC, um programa planejado para facilitar acesso de populações carentes a cursos de capacitação profissional, revelam profundas dúvidas de muitos educadores (dos IF’s e do sistema S) quanto a possibilidades de sucesso dessa gente castigada por uma vida inteira de pobreza.

Acho que ainda estamos muito longe de garantir acesso efetivo dos pobres a oportunidades educacionais de qualidade. E temo que a elite direitona fará tudo o que puder contra bolsas (dinheiro na mão dos interessados, não pagamento a instituições educacionais) para que os pobres possam, de fato, ter igualdade de oportunidades no campo da educação.

Inteligência das mãos

janeiro 21, 2013

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 Foto de AntonioTedim

O entendimento comum costuma reservar para as atividades manuais um lugar secundário no campo da inteligência. O fazer das mãos é visto como “mera habilidade”. Ou seja, é visto como atividade que não exige muito conhecimento ou até mesmo nenhum conhecimento. Chegamos a isso depois de alguns milênios de elaboração de saberes que privilegia abstrações intelectuais cuja manifestação se reduz a proposições, a discurso.

A desvalorização do trabalho manual é estranha. Em primeiro lugar porque a manifestação mais evidente de inteligência humana é o trabalho. É pelo trabalho que mudamos o mundo. É pelo trabalho que construímos novos mundos que nos transformam. Em segundo lugar porque nossa atuação no mundo é corporal. O mundo ignora o discurso, mas pode mudar em função de movimentos. Os movimentos mais expressivos são os das mãos.

Deixamos de olhar para as mãos. Há quase que uma cegueira social nesse sentido. E isso é engraçado. De vez em quando, nos cafés que frequento, passo longo tempo observando pessoas conversando. Não as ouço, nem quero saber o que falam. Presto atenção no balé das mãos. Essas não param. Enfatizam o discurso. Reforçam explicações. Comunicam os sentidos que a palavra não consegue expressar. Mas, quem fala e quem escuta não percebe toda a expressividade das mãos em diálogos comuns, em conversas do cotidiano.

Ao ver o balé das mãos dos conversadores, confirmo minhas convicções de que na história da nossa espécie os gestos antecederam as palavras. Hoje sobram resquícios da riqueza gestual em movimentos dos quais não tomamos consciência.

Não quero estender em  demasia este post. Quero apenas provocar e propor. A provocação aparece nos parágrafos anteriores. A proposição vem a seguir.

Convido os educadores a olharem para mãos no trabalho. Como isso pode ser demorado, caso procuremos ver trabalhadores em seus locais de trabalho, acho que a solução pode ser um filme. E temos filmes assim. Acabo de ver um deles, In Praise of Hands.

O filme é uma produção de 1974 e mostra gente produzindo em várias partes do mundo: Japão, México, Canadá, Polônia etc. As cenas concentram-se nas mãos, na sua articulação, no seu movimento fluente, na sua influência para que a obra vá ganhando forma. As mãos se movimentam a partir de avaliações constantes das mudanças que vão acontecendo com a matéria prima. Trabalhador, ferramentas e materiais articulam-se com fluência, com aparente naturalidade. Todas as produções são exemplos primorosos de inteligência, de inteligência das mãos.

Paro por aqui, sugerindo aos interessados que vejam o filme com muito carinho e reparando como as mãos expressam um saber que não cabe nos limitados limites do discurso.

Segue link para o filme.


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