Em regulamentos para julgar blogs candidatos a prêmios, geralmente há normas que sugerem eliminação de diários eletrônicos que não mantenham certa linha “editorial”. Uma das sugestões mais frequentes nessse sentido é a de que blogs dedicados a determinado assunto (educação, tecnologia, arte etc.) não devem ter posts sobre aspectos da vida pessoal de seus autores.
Discordo inteiramente da orientação acima descrita, pois ela parece ignorar a natureza dos blogs. Estes são um local de conversa, não uma alternativa para publicação de ensaios, artigos, reportagens e assemelhados. Esses formatos eliminam a conversa e convertem os blogs em meros substitutos de publicações regidas por normas da cultura tipográfica.
Por causa de sua natureza conversacional, os blogs exigem uma “redação” diferente daquela que aprendemos para utilizar o papel como meio comunicativo. Não sigo em frente com comentários sobre isso por falta de tempo e espaço.
Além da questão da linguagem, blogs exigem uma outra coisa: precisam ser um espaço muito pessoal. Ou seja, precisam ser um espaço no qual o autor mostre sua cara. E uma das formas de mostrar a cara é falar de quando em vez de assuntos que nada tem a ver com o tema ou foco blog. Aprendi isso em comentários da Miriam e da Suzana. Há tempos, de maneiras um pouco diferentes, ambas chamaram atenção para um sentimento que leitores de blog têm, o sentimento de que o autor é um amigo cuja vida pessoal importa.
De autores de blogs que leio quero saber sempre algumas coisas: pra que time torcem, como são os filhos, de onde vieram, como vêem certas situações políticas etc. Não espero comunicações pessoais muito constantes. Mas, espero algumas conversas que mostrem faces das pessoas que falam de educação, tecnologia, arte, literatura ou outro assunto qualquer. Lilia Efimova, pesquisadora rigorosa dos blogs como ferramenta comunicativa, eventualmente fala de A, seu filho, de visita de sua mãe, de dúvidas sobre seu trabalho, de expectativas de carreira. E o tema central do espaço da Lilia é a natureza dos blogs. Ela não deixa, porém, de inserir, entre mensagens de muito apuro acadêmico, fiapos de conversa sobre sua vida pessoal. Seus leitores, sentem por isso, que estão falando com uma amiga.
Faço todos esses registros não para justificar eventuais notas pessoais que aparecem neste Boteco, mas para indicar uma das características que, a meu ver, são próprias dos blogs. E isso cabe bem num espaço que se propõe a produzir “ensaios sobre blogs em educação”.