Archive for the ‘Bons blogs’ Category

Blogs e educação: as aparências enganam

janeiro 4, 2013

Em meu trabalho de uso de blogs em educação, percebi que muitas pessoas simplesmente transcrevem textos didáticos para os posts. O resultado é uma obra sem agilidade, sem atração, sem a marca de conversação que caracteriza os weblogs.

Blogs são, acima de tudo, espaços de encontro para a negociação de significados. Para que tal característica exista, é preciso que os textos possuam certas virtudes literárias. Mas não é só isso. Blogs são instrumentos numa rede de informação e comunicação. Por isso os textos precisam ser escritos com hyperlinks que bem aproveitem as informações disponíveis na Web. Mas, isso não pode ser feito apenas “tecnicamente”. Usar hyperlinks é atividade que supõe construção de textos com possibilidades de leituras em camadas. Por isso é preciso produzir textos que dêem ao leitor possibilidades de explorar o ambiente informativo da Web (tal circunstância muda muito como escrever; produzir textos para serem colocados numa tela e, além disso, ligados a muitos outros textos ao alcance de uma clicada muda muito (ou deveria) o ato de escrever). Exige-se aqui um discurso diferente daquele produzido em papel. E mais, o autor precisa construir um texto integrado com possíveis imagens.

Outra coisa, comunicações em blogs são convites para uma conversa; o autor, portanto, precisa iniciar algo que terá desdobramentos nos comentários feitos por outros. Os comentários, no geral difíceis de prever quanto a conteúdo, ênfases, estilos etc, farão parte de uma obra que sempre poderá ser revista, alterada, enriquecida pelo autor e pelos leitores.

As ferramentas disponíveis possibilitam todas as coisas que mencionei aqui, mas concretizá-las depende de talento do autor ou autores.

Acrescento mais algumas considerações sobre os blogs.

Aparentemente essa ferramenta é um local onde autores podem publicar textos na forma de diários. Por isso, muitos educadores vêem os blogs como um bom instrumento para desenvolver capacidades de redação. Mas, a idéia é muito limitada. Blogs são, sobretudo, um ponto de encontro, um espaço público de conversação. Assim, a melhor metáfora para os blogs não são os diários. É mais adequado pensar os blogs como locais onde as pessoas podem dizer a própria palavra. Eles, assim, podem ser comparados com a praça pública (“a praça é do povo”) ou com a velha ágora grega, o local público onde os cidadãos se encontravam para exercer a democracia direta por meio da palavra e do voto.

café by lautrecOutra possibilidade: os blogs se assemelham aos velhos cafés parisienses do século XIX, espaços públicos importantes onde a conversa era livre. Indo mais longe: blogs são como botecos, onde a conversa corre solta e onde qualquer assunto é bem vindo. A escrita, posts e comentários, os links, as imagens são apenas aparências que encobrem a realidade mais profunda dos blogs, um espaço virtual de encontros humanos.

Todas essas ideias sobre os blogs são frutos de criações que foram se desenvolvendo no tempo. Hoje, educadores que queiram utilizar blogs em seu ofício precisam saber que a ferramenta gerou um modo de comunicação inicialmente inesperado. As aparências enganam…

A escola de sala única de Don Crowdis

maio 1, 2012

Em alguns posts sobre arquitetura e educação, abordei a escola americana de sala única (The Little Red School). Tal tipo de escola é uma instituição respeitável na história americana. Hoje, lembranças românticas da little red school projetam uma educação gentil, integrada, cooperativa, com fortes raízes éticas. Ficam esquecidos os aspectos negativos de tal escola. Má iluminação, aquecimento precário durante rigorosos invernos, pobreza de recursos, qualificação insuficiente dos professores, indisciplina, construção em terrenos inóspitos (a localização das escolas era determinada sobretudo por limitações financeiras que não permitiam construção nos terrenos mais valorizados) são aspectos varridos da memória. Esse tipo de escola também existiu em outros países, porém, sem a importância alcançada nos Estados Unidos.

Meu pai estudou numa escola de sala única. Fez os três anos de ensino primário numa escolinha de roça regida por uma professora que orientava alunos de três diferentes séries no mesmo espaço. Alunos mais velhos ajudavam os mais novos e até substituiam a professora quando essa, por qualquer razão, se ausentava. No último ano de escola, meu pai foi ao aluno que mais vezes substituiu a mestra. Conheci alguns dos livros que circulavam naquela escolinha de roça. O de geografia tinha linguagem e conteúdo que só fui encontrar no meu terceiro ano de ginásio.

Sempre fico imaginando a grande competência de organização e planejamento da professora que lecionava na escola de sala única nas remotas fazendas do Minas, onde viveu meu pai. É preciso notar que os alunos de tais escolas eram bem alfabetizados e tinham bom domínio das quatro operações. E chegavam a avançar em seus estudos. Meu pai, por exemplo, com apenas três anos de escolaridade, sabia fazer escrituração contábil e fiscal, uma competência necessária para quem ganhou a vida durante muitos anos como meieiro em fazendas de café.

Volto ao assunto da escola única para homenagear Don Crowdis, o blogueiro mais velho do planeta durante alguns anos. Postei aqui e no Facebook notas sobre ele recentemente e quis saber se Don ainda vivia, pois seu último blog estava mudo desde novembro de 2008. Uma de minhas ex-alunas, Ângela Vicente, acaba de me informar que Don faleceu no final do ano passado, aos 98 anos. A notícia da morte dele pode ser vista no seguinte link: Globelife.

Don foi muito ativo nas áreas de educação , cultura, ciência e comunicações. Ele começou sua carreira como professor de uma escola de sala única na qual se congregavam alunos de nove diferentes séries. Por isso, resolvi homenagear esse grande blogueiro reproduzindo um post que ele publicou em 2008, num registro sobre sua experiência como professor de escola de sala única. Traduzi o texto do Don com certa liberdade, tentando conferir ao escrito em português o mesmo estilo coloquial que ele empregava em seus blogs. Nessa minha tentativa, talvez eu tenha cometido alguns erros de interpretação. Mas, como se diz popularmente, o que vale é a intenção.

 

Post de Don Crowdis

Não fui aluno de escola de sala única, mas ensinei numa delas. Antes de lá chegar, me parecia impossível ensinar nove séries diferentes numa única classe. Porém, aprendi que não é. Fazíamos juntos estudos da Natureza, e em excursões ao longo até a praia, os maiores cuidavam dos menores. Durante muito tempo, cada um estudava de modo independente. Mas, os alunos procuravam-se mutuamente para ajuda, do mesmo modo que me procuravam. Quando lia histórias para os pequenos, os maiores também ouviam. Quando alguém chegava a níveis mais avançados já tinha visto a matéria antes, mais de uma vez. Assim, o próximo passo em aritmética ou gramática não era uma surpresa. As amizades aconteciam sem barreiras de idade e os alunos que iniciavam alguma ação de bullying não iam muito longe.

Eu gostaria de ter ficado mais tempo naquela escola para melhor acompanhar os alunos, pois eles eram meus amigos e acho que foram bem em seus estudos e na vida. Eles não tiveram as vantagens do ônibus escolar, dos sistemas de som, dos audiovisuais, do professor especialista em cada matéria, da cantina, da orientação vocacional. Na verdade, não tiveram vantagem alguma. O sistema de aquecimento eram dois barris de óleo e a água encanada [banheiro incluso] ficava fora do prédio. Mas eles aprenderam a trabalhar sem supervisão e a ajudar-se mutuamente, aprenderam a fazer o máximo com os recursos disponíveis. Certamente não eram alienados ou perdidos entre dois mil outros alunos vagando pelos corredores. Hoje você vê gente defendendo as vantagens das unidades pequenas, do estudo independente; e dos professores que são amigos, guias e orientadores. Tudo isso soa muito parecido com minha escola de sala única de muito tempo atrás.  

O blogueiro mais velho do planeta

maio 1, 2012

Até 2008, Don Crowdis escrevia ótimas crônicas em seus blogs. Textos limpos, inteligentes, bonitos e bem fundamentados. Ele continuava a blogar aos 95 anos de idade e seu último post é de 2008. Muita gente do mundo todo, eu incluso, frequentava o primeiro blog do Don e mantinha conversas com o velho intelectual canadense. O segundo blog durou poucos meses. Depois, silêncio. Não sei se Don ficou doente ou se partiu para outra dimensão. Sei que os textos lúcidos dele fazem falta.

Para interessados indico links para os blogs do Don. Para ver o primeiro deles, clique aqui. Para ver o segundo, clique aqui.

Don foi curador de museus e pioneiro em produções de TV. No vídeo abaixo, integrado a este Boteco, ele pode ser visto e ouvido, falando sobre sua vida, sobre Halifax, sobre museus de ciência.

Depois que publiquei este post, continuei buscando mais informações sobre Don Crowdis. Encontrei um vídeo precisoso no qual Don fala de sua experiência como blogueiro senior. Tocante.

Blogs em educação

outubro 12, 2010

Num programa de capacitação de professores, preparado pela professora Suely Aymone, encontrei indicação de trabalho de alunas do curso de educação da Universidade de Lisboa. O trabalho, divulgado por meio de VT no Youtube, procura definir com muita elegância o que é um blog, mais particularmente um blog na seara da educação.

Achei que valia a pena colocar aqui a obra das meninas de Lisboa.

[ Obrigado pela dica, Suely]

Educação infantil e cidade das crianças

outubro 4, 2010

Francesco Tonucci, educador italiano, vem insistindo na necessidade de se pensar a educação infantil fora da escola.  Ele reconhece a importância da escola. Mas, considera que a experiência fora da escola é fundamental. Fiel a suas ideias, Tonucci promove projetos da Cidade da Criança, uma proposta que tem por objetivo recuperar os espaços urbanos como locais de convivência.

Já postei neste Boteco diversas notas sobre Tonucci, ou sobre Frato, o Tonucci que se transforma em produtor de charges imperdíveis sobre educação. Agora, graças a um pio de @carmenduran, acabo de ler post sobre a generosidade do educador italiano no blog de Discencia. No citado post, Pedro Villarubia inclui um vídeo com uma comunicação preciosa de Francesco Tonucci sobre a cidade das crianças. Achei que deveria incluir tal vídeo no acervo deste Boteco Escola.

Escola Moderna: Um Blog

julho 15, 2010

Para complementar o post anterior, preciso indicar um blog:

O espaço indicado é uma inciativa de amigos e ex-alunos do professor Maurício Tragtenberg, principal referência brasileira para estudos sobre a Escola Moderna e Francisco Ferrer.

Uso original de blog

julho 10, 2010

Os usos de blogs mudaram muito com o tempo. Quase sempre os diários eletrônicos foram utilizados como repositórios de crônicas (histórias no tempo), imitando os velhos diários de bordo (logs). Mas, há outros usos que fogem muito do modelo predominante. Usos originais. Vou contar algo sobre um de tais usos. Antes disso, porém, preciso falar um pouquinho sobre Edgar Morin

Morin, conhecido filósofo francês, já percorreu muitos caminhos como intelectual. E um desses caminhos aconteceu no campo da comunicação social. No início dos anos de 1960, Edgar Morin escreveu um livro sobre comunicações que se tornou um clássico: Cultura de Massas no Século XX: O Epírito do Tempo. A obra foi publicada no Brasil pela Editora Forense em 1967. Estudantes de comunicações, meus amigos da ECA e da FAAP, leram o livro em questão e tinham Morin como um de seus gurus.

Em 1968, Morin veio ao Brasil para uma reunião da UNESCO sobre meios de comunicação. Estudantes da área formaram uma corte juvenil que acompanhou o intelectual francês durante todo o tempo de sua estada em São Paulo. Além disso, organizaram encontros para que Morin pudesse conversar com jovens brasileiros. Um desses encontros, cujo objetivo era o de mostrar para o convidado um painel sobre os grupos de esquerda do movimento estudantil brasileiro, foi organizado por meu amigo Mario Luiz Thompson (na época estudante de jornalismo na FAAP e presidente do centro acadêmico da escola). Tive o privilégio de ser um dos convidados. Acabei ficando fã de Morin e, numa outra ocasião, integrei a entourage que foi jantar com ele numa lanchonete do Shopping Iguatemi. Comprei e li o livro dele sobre cultura de massas. Para mim, hoje soa estranho ver Morin tão badalado pelos educadores. Para mim ele sempre foi um bom comentarista de Hegel e um analista muito competente dos meios de comunicação.

Como diz um amigo meu: “cairam muitas folhas do calendário”. De quarenta  e um calendários, para ser exato. E eu voltei a me encontrar com a tribo da comunicação social. Comecei, ano passado, a dar aulas para o primeiro ano de cursos de tal tribo. Planejei propor algumas coisas que mostrassem vinculação da filosofia com comunicação. E uma das propostas foi a de solicitar leitura de Cultura de Massas no Século XX. Mas, não fiz isso de modo acadêmico. Pedi a cada grupo que escolhesse um dos capítulos para estudo. Pedi mais. Pedi aos meninos e meninas que tenho o privilégio de ter como alunos para produzir comunicações criativas sobre o capítulo estudado. Eles entenderam o recado. Produziram vídeos interessantes, fizeram performances teatrais, criaram músicas (composisões originais e paródias), sintetizaram o assunto em poemas. Nada acadêmico. Alguma zoada. Alguma farra. Muito show. E, certamente, muita aprendizagem.

Repeti a dose este ano. Os resultados foram parecidos com os de 2009, com algumas novidades. Uso original de blog foi uma delas.

Para apresentar resultados de seus estudos, um grupo dos meus alunos do campus da USJT no Butantã criou um blog. Eles estudaram o capítulo XIV, O Amor, do livro do Morin. Para exemplificar as observações do filósofo sobre o tema no cinema, selecionaram segmentos de diversos filmes. Para comunicar seu entendimento sobre os temas abordados no capítulo, produziram posts. Em poucas palavras, criaram um blog que mostra ótima compreensão de O Amor na obra de Morin. Como professor, em nada colaborei para a solução encontrada. Meus alunos criaram com inteira liberdade uma solução que pode servir de exemplo para professores e estudantes interessados em fazer algo parecido.

Falta apenas o principal: indicar onde é possível ver o blog-síntese dos meus alunos. Aqui vai a indicação:

Blog do Mazzini

abril 13, 2010

Acabo de saber que um velho amigo entrou na blogosfera. Gente fina e grande músico, Mazzini veio para o mundo dos blogs para falar de cultura, música, belezas da vida cotidiana. Ele escreve como fala, com muita suavidade, mas sempre indo ao ponto. Vale a pena visitar a cibercasa desse meu amigo de muitas décadas. Para tanto, não deixe de clicar AQUI.

Boteco é cultura

abril 10, 2010

Acabo de linkar o Boteco Cultural a este blog. A casa merece ser visitada. Para que vocês tenham uma idéia das qualidades do lugar, copio aqui o texto de apresentação da mesmo:

por que boteco?

O Boteco Cultural é uma revista eletrônica que pretende falar de toda e qualquer manifestação no campo da expressão estética. Mas também da cultura como o ponto de acordo de uma sociedade; a expressão de uma força que molda e rege o conjunto de crenças, comportamentos, valores, linguagem.

Para quem acha que esse papo já ficou sério demais, um aviso: o Boteco quer estar plenamente sintonizado com seu meio, a web. Ou seja, buscamos um fazer jornalístico expresso, informal e em construção permanente. E, só pra não esquecer, irreverente também.

Por esse motivo, um boteco. Afinal, qual lugar mais à vontade, descontraído e democrático que conhecemos? Além disso, fazemos com os limões de nossa fragilidade em relação ao mercado, a nossa limonada. Mercado do qual nada escapa, principalmente a cultura.  Por esse motivo, Boteco Cultural.

Esperamos que você, que teve a curiosidade e infinita paciência de ler este texto, continue por aí.

Beba da cultura!

Educação Esperança

março 29, 2010

Com este belo título: Educación Esperanza, meu amigo-irmão, Sigfredo Chiroque, está publicando textos que olham para acontecimentos da educação no Peru. Gente interessada em educação comparada ou em conhecimento da situação educacional de nossos irmãos peruanos tem boa fonte nos escritos desse grande educador andino.

Chiroque, passou parte de sua juventude no Brasil. Aqui estudou, participou de lutas políticas e produziu alguns de seus textos sempre engajados. No Peru, além de carreira acadêmica na Universidade de São Marcos, meu amigo de longa data faz um belo trabalho no Instituto de Educación Popular.

Para visitar o blog do Chiroque,  clique no destaque que segue:


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