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Reprovação nas escolas

janeiro 4, 2011

Faz muito tempo (por volta da primeira metade dos anos 70) que li uma análise sobre o ensino básico brasileiro examinando a questão da repetência. Em tal estudo, cujo nome e referência minha memória não consegue recuperar, o autor mostrava que nosso grande problema não era, como muitos pensavam, o alto índice de abandono dos bancos escolares. O grande problema, dizia o autor, era o elevadíssimo índice de reprovação dos alunos. Ás vezes, constatava o referido estudo, a repetência era registrada como desistência por causa de um tratamento estatístico equivocado.

O escândalo da repetência fez com que a maioria de nossos estados acabasse com a retenção dos alunos no final de uma ou mais séries de ensino. Na imprensa e no discurso de opositores de medidas que impedem excessiva retenção dos alunos, fala-se de “promoção automática”. Acho que essa expressão não faz justiça aos esforços dos sistemas de ensino. O que se quer é evitar a severidade de um entendimento tradicional que vê a avaliação como meio para punir alunos que não conseguem determinados índices de desempenho escolar.

As medidas para evitar repetência infelizmente não sanam os problemas que geravam altos índices de reprovação na educação brasileira. A discussão sobre causas do fracasso escolar não avançaram muito, pois ignoram questões relacionadas com educação e classes sociais. Não vou aprofundar aqui o tema da repetência ou da “promoção automática”. Citei-o apenas apra sugerir uma conversa que vá mais fundo. E tal conversa precisa começar pela questão do fracasso escolar. Esse fracasso tem dois sentidos:

  1. a escola, como a conhecemos, é uma fábrica de fracassados do ponto de vista cultural;
  2. a escola não consegue cumprir bem sua função de oferecer educação de qualidade para todos.

A questão do fracasso escolar tem soluções. Uma dessas soluções é a pedagogia radical de Don Lorenzo Milani, criador da Escola de Barbiana. Tal pedagogia anda meio esquecida nas faculdades de educação. Acho que já é hora de voltarmos a dialogar com Don Lorenzo Milani. As idéias e realizações desse genial educador italiano podem iluminar nossas conversas sobre reprovação e outros assuntos de interesse no mundo da educação.

Para contribuir com estudos sobre a Escola de Barbiana resolvi fazer um resenha temática de obras que falam da vida e obra de Don Milani. Essa resenha acaba de ser publicada e está disponível na Web. Interessados poderão vê-la no link que indico a seguir:

Ficarei muito feliz se prováveis leitores da citada resenha registrarem aqui suas opiniões por meio de comentários.

Pedagogia do cuidado

julho 7, 2010

Como sabem, ando levantando referências sobre a Escola de Barbiana e Don Lorenzo Milani. Um dos materiais que encontrei foi a belíssima canção I Care, de Aleandro Baldi. Já postei aqui link para a citada canção no Youtube. Não consegui, na ocasião, copiar versão que pudesse ser vista e ouvida diretamente no Boteco.

Encontrei agora uma nova versão de vídeo, feita no México. Essa versão tem uma vantagem: apresenta tradução do poema de Aleandro Baldi para o espanhol, idioma mais fácil para nós que o italiano. Assim, é possível ouvir a belíssima melodia e, ao mesmo tempo, acompanhar a história de uma volta de Don Milani à sua escola.

O título deste post reflete a idéia do educador de Barbiana de que é preciso educar com cuidado. Ou seja, é preciso educar dando apoio e ensinando companheiros a apoiarem-se mutuamente. É preciso preocupar-se com o outro. Mas essa preocupação não deve ficar nos sentimentos. Ela deve gerar ação. Ela deve ser o começo de um importar-se com o outro atendendo suas necessidades, dando-lhe ajuda efetiva, favorecendo seu crescimento.

Segue aqui a versão de I Care feita no México, com legenda em espanhol.

Timidez é problema?

maio 11, 2010

Anos atrás, uma orientadora pedagógica me chamou para uma conversa sobre uma de minhas filhas. Para minha surpresa, a educadora se disse muito preocupada com a timidez de minha herdeira. Escutei as observações sem nada dizer, mas sai da escola com a impressão de que a orientadora avançou diversos sinais em sua fala. Nunca achei que timidez fosse per se um problema. Se uma criança não se sente à vontade para ser “participativa” não penso que a mesma deva ser pressionada a falar. Muita gente gosta mais de escutar e ficar na dela. Forçar a barra, no caso, é invasão de privacidade. Não me parece que educadores tenham direito de invadir a vida alheia em nome de duvidosos princípios de aprendizagem.

Confesso que fui tímido quase toda a minha vida escolar. Pelo que me recordo, fui falante e particiaptivo apenas no primeiro ano de grupo. Nos anos seguintes me recolhi. Nada perguntava aos professores e não falava a não ser que interrogado. Isso me prejudicou? Talvez sim. Na vida profissional quase sempre tive dificuldade para atuar participativamente de acordo com os modelos sugeridos pelos gurus de administração. Quase sempre preferi ficar na minha.

Sempre que falo em timidez e modelos de participação muito prestigiados no âmbito escolar, lembro-me de um episódio da vida de Charles Horman, jornalista americano assassinado pela ditadura de Pinochet no Chile. A mãe de Charles foi chamada à escola infantil onde estudava o filho, uma instituição de prestígio da comunidade judaica de Nova Iorque. A orientadora entrou com um papo semelhante ao que tive de escutar sobre o comportamento não participativo de minha filha. Ao voltar para casa, com os devidos cuidados, a mãe do futuro jornalista sugeriu que o mesmo participasse mais das atividades escolares. Sugeriu que ele fizesse perguntas (um dos problemas apresentados pela orientadora era o de que Charles nunca fazia perguntas). A resposta do menino foi primorosa: “nada pergunto porque já sei o que a professora vai responder”.

Entro aqui com toda essa conversa sobre timidez e participação porque acabo de aprender uma coisa que, no fundo, já sabia: certa timidez de alunos nas escolas é um comportamento resultante de origem de classe. Os pobres costumam ser tímidos nas escolas porque o tipo de participação que se requer é um treinamento de mando próprio da burguesia. Filhos de papai entram no jogo com facilidade. Filhos de camponenses e operários permanecem calados, pois sabem que sua participação não é esperada. É claro que a timidez de minha filha, assim como a de Charles Horman, não era a mesma que a dos filhos dos trabalhadores. Herdeiros de intelectuais de classe média, minha filha e Charles achavam que a participação esperada era um jogo de cartas marcadas. Preferiam o silêncio, em vez de atuarem num teatrinho cujo script era determinado por educadoras obcecadas com a idéia de que os alunos deviam ser “ativos”.

Fiz até aqui uma longa introdução para falar de uma aprendizagem recente. E me perdi um pouco no falatório. Minha intenção, desde o início foi a de falar sobre timidez a partir de um trecho de Carta a uma Professora, livro escrito por alunos da Escola de Barbiana. No citado trecho, os alunos de Don Lorenzo Milani comentam a questão da timidez na escola a partir da experiência de um deles. Tal trecho iluminou meu entendimento. Aprendi que os pobres se calam na escola quando os professores jogam o jogo da participação. Os alunos das classes trabalhadoras sabem que a participação proposta não é para eles. Aliás, eles não aprendem a ser tímidos quando o jogo participativo ocorre na escola. Eles já chegam ás intituições de ensino convencidos de que não devem “aparecer”.

Foto de abertura: Don Milani conversa com alunos de Barbiana; provavelmente foto dos arquivos da Fundação Barbiana, reproduzida por 1er Circolo Diddatico Statale di Luca. A foto que acompanha o parágrafo introdutório à minha fala sobre Barbiana tem a mesma fonte e mostra o conjunto dos edifícios onde Don Milani desenvolveu sua admirável obra educacional.

Ética do cuidado

maio 9, 2010

Ética é cuidado. Uma dimensão de relação de respeito, consideração, amor pelo outro. Esse modo de ver a ética em ação é sintetizado, em inglês, pelo verbo to care. I care pode ser traduzido de duas formas: 1. eu cuido, 2. eu me importo. Na verdade, I care significa as duas coisas ao mesmo tempo.

Fiz uma introdução necessária para falar de uma linda música de Aleandro Baldi, I CARE.  A obra do cantor e compositor italiano é uma homenagem a Don Lorenzo Milani, criador da Escola de Barbiana. Homenagem linda e justa. A ação de Don Milani em sua escola de Barbiana é um exemplo de cuidado. Ele cuidou (deu apoio e se importou) com os jovens camponeses expulsos das escolas convencionais. Ofereceu a eles cuidado. E a abertura sem reservas para o outro resultou numa educação libertadora que precisa ser mais conhecida.

Indico, a seguir, o registro da canção/homenagem no Youtube. Infelizmente não é possível incorporar o VT a este espaço do Boteco. Você precisará clicar na flecha do vídeo e, uma vez que apareça a mensagem de interdição á incorporação, precisará clicar de novo para ouvir a linda I CARE.

No Youtube, há uma transcrição da letra de I CARE. Com receio de que no futuro a obra possa ser desativada naquele espaço de compartilhamento de vídeos, reproduzo aqui o poema que homenageia uma das mais belas aventuras educacionais do século XX.

I CARE

Cari ragazzi sono qui,
sono tornato,
chiamate tutti gli altri
suonate la campana.
Oggi riapre la scuola
di un povero curato,
un certo Don Milani,
mandato qui a Barbiana.
Anche se col tempo
voi siete un po’ cambiati,
ed i miei occhi
non sono più quelli d’allora,
e se i vostri ginocchi
non sono più sbucciati,
stonati canteremo,
quella canzone ancora:

RIT.
i care,
i care,
c’è bisogno che io
abbia cura di te,
you care,
you care,
c’è bisogno che tu
abbia cura di me,
i care,
i care,
è solo un modo per dire
che d’amore ce n’è,
un bisogno più forte
il più forte che c’è,
i care,
i care,
i care.

Apriamo quella porta
risistemiamo i banchi,
spolveriamo i quaderni
rileggiamo gli appunti.
Forza miei giovani studenti
dai capelli bianchi,
perchè quello che conta
è non darsi mai per vinti,
il mondo è un po’ più ricco
la vita è sempre dura,
e in questa catapecchia
attaccata al monte Giovi,
c’è ancora la canzone
della nostra bocciatura,
che insieme cantavamo,
per non sentirci soli.

RIT.
I care,
i care,
c’è bisogno che io
abbia cura di te,
you care,
you care,
c’è bisogno che tu
abbia cura di me,
i care,
i care,
è solo un modo per dire
che d’amore ce n’è,
un bisogno più forte
il più forte che c’è,
i care,
i care,
i care.

Qui dove sono adesso
non è così lontano,
non fosse per il fatto
che mi mancate tanto,
ed io pur di star con voi
rinuncerei anche al perdono,
e Dio lo capirebbe,
di questo son convinto,
parola mia d’amore,
parola mia Lorenzo.

I care,
i care,
you care,
you care,
abbia cura di me.

Ragazzi sono qui,
sono tornato,
ma lo sapete bene,
che non sono mai partito,
che non sono mai partito.
I care.


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