Cotas em universidades públicas

Há negros no Brasil? Argumentos de advogados do DEM no STF contra cotas nas universidades públicas parecem indicar que não. Negros são discriminados? Argumentos de advogados do DEM parecem indicar que não.

Sei que somos todos africanos, pois nossos avós de todos os outros continentes descendem de imigrantes que foram deixando a África em levas sucessivas desde uns 100 mil anos atrás. Mas, há  gentes que são mais africanas outras. Não vou entrar em detalhes históricos e genéticos da questão. Vou apenas oferecer uma observação do cotidiano para contribuir com conversas sobre o assunto.

Ontem fiquei vinte minutos aguardando ônibus em ponto da Avenida Francisco Matarazzo. Reparei nas pessoas que desciam de veículos que vinham de diversas regiões da Lapa e vizinhanças. Oitenta por cento dos passageiros eram marrons, como eu. Uns dez por cento tinham pele bem escura. Outros dez por cento tinham pele clara.

Hoje passei pelo Colégio Rio Branco da Avenida Higienópolis às 12:30 horas. Centenas de alunos estavam saindo da escola. Noventa e cinco por cento deles tinham pele clara [brancos,  sem sombra de dúvida]. Dos cinco por cento  restantes, a maioria era de asiáticos. Marrons comuns e negros eram raríssimos.

Essas duas observações colhidas ao acaso nas ruas de São Paulo não dizem nada? Por que será que gente de pele marrom e mais escura é maioria em quase todas as linhas (a exceção fica por conta do metro da Paulista) de transporte público? Por que negros e marrons não frequentam escolas da elite? Sem o mecanismo das cotas, os negros tem as mesmas chances imediatas de ingresso na USP que os meninos brancos educados em escolas como o Rio Branco?

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9 Respostas to “Cotas em universidades públicas”

  1. J. Basílio Says:

    E eu, que sou branco e pobre? Devo ficar num limbo entre os dois mundos, apenas por não ser de família branca rica e nem de família negra pobre (como se não existissem brancos pobres e negros ricos)?
    Também não tive a oportunidade de estudar no Rio Branco ou em outras (boas) instituições privadas de ensino, mas por ser branco não tenho direito às mesmas vagas que os negros, aqueles que tiveram exatamente o mesmo ensino (e condição social) que eu, têm?
    As cotas não deveriam ser para os pobres, sem discriminação de cor?

    • jarbas Says:

      Caro J. Basílio,

      Sua história pessoal não anula a discriminação racial contra os negros. Nem o qualifica para fazer parte da modesta cota a eles destinada. Os sistemas de cotas, geralmente, contemplam estudantes de escolas públicas. Acho que medidas de correção de injustiças e discriminação são necessárias. Isso não quer dizer que sejam perfeitas.

      Por falar em pobreza, ela foi um dos motivos que um senhor me deu (em 1972) para dizer que eu teria grandes dificuldades para obter bolsa de mestrado na PUC/SP, pois não existia no nível de minhas relações ninguém poderoso que me pudesse indicar. Desisti do mestrado na ocasião. Entre os contemplados com bolsa no episódio havia uma menina filha de fazendeiro muito rico de Rio Preto. Conto essa história para lhe dizer que pobreza também pode ser discriminada. Mas, continuo inisitindo que casos como o seu e o meu não podem nem devem ser utilizados contra a medida emergencial de abrir um espaço mais favorável para que mais negros cheguem a boas universidades.

      Minha intenção ao tocar no tema, contando casos do cotidiano foi a de abrir espaço para conversas. Não pretendo passar verdades definitivas, mas reivindico o direito de defender uma medida que é atacada de todas as formas, incluindo pretensas dúvidas de que é impraticável decidir quem é negro no Brasil.

      Abraço,

      Jarbas

      • J. Basílio Says:

        Ao pensar em histórias como as nossas não pretendo anular reivindicações, basicamente necessárias, para balancear o jogo social. Apenas não compreendo o porquê de tais medidas não abraçarem pessoas pobres. Afinal, o resultado de um preconceito contra uma etnia é diferente quando este decorre de puro racismo étnico ou de “racismo” sócio-econômico (pela maioria das pessoas daquela etnia serem pobres).
        Mas talvez eu seja apenas muito ignorante para compreender sua posição.

  2. jarbas Says:

    Caro J. Basílio,

    Sua argumentação é ótima. A conclusão é de um excesso de modéstia que não posso aceitar.

    Não há nada que justifique castigar aqueles que já foram duramente castigados.Falo dos pobres, sem disitinguir etnias. Diane Ravitch, uma educadora que admiro muito, não se cansa de relembrar isso. Ela mostra que não há educação capaz de superar alguns problemas que são decorrência da pobreza. Fillhos de pobres estão condenados desde o berço (apenas para constar, não tive berço, meu pai adaptou um caixote como cama para meus 2 primeiros anos de vida).

    Romper o círculo vicioso da pobreza requer alguma medida radical. Na minha infância, como observou Lima Barrto, pobre tinha apenas dois caminhos para ir além do primário em seus estudos: o seminário ou o quartel. Fui para o seminário. Outra saída pode ser uma educação radical como a praticada por Dom Lorenzo Milani em Barbiana.

    Continue com seus ótimos argumentos. Gosto deles, embora nem sempre concorde. Mas é na discordância sadia que a gente pode construir futuros melhores e mais justos.

    Abraço grande,

    Jarbas

  3. jarbas Says:

    Minha amiga Flaviana Medeiros E. Oliveira comentou , no Facebook,este post e a conversa com o J. Basílio aqui nos comentários. Achei que é interessante trazer o texto dela para cá, pois ele pode enriquecer a conversa sobre cotas nas universidades públicas. Cabe reparar que Flaviana manifesta concordância com J. Basílio. Por tabela, ela não concorda inteiramente comigo. Sem mais, vamos ao texto da minha amiga do Senac da Bahia:

    “Gostei do texto e da discussão com J. Basílio. Também tenho a mesma opinião que ele e acho que as cotas deveriam ser sociais, para pobres. Consequentemente o número de negros, marrons, vermelhos, amarelos e brancos pobres aumentaria nas universidades e só assim conseguiríamos romper com o círculo vicioso da pobreza neste país. Fui a 1ª da minha família materna a chegar à universidade. Não sou doutora, mas sou professora e tenho orgulho de ter aberto uma porta para que muitos primos acreditassem ser capazes de estudar e mudar o rumo da família. Hoje somos muitos formados, para orgulho de meu avô, ferroviário aposentado, pobre, lá no interior de Minas… ” (Flaviana Medeiros E. de Oliveira).

  4. Flaviana Says:

    Olá Prof.Jarbas, valeu por ter trazido meu comentário pra cá. Falo com sentimento, sem fundamentação teórica. Estou aberta aos comentários. Obrigada pela credibilidade.

  5. Gabriel Says:

    Caro Jarbas,
    concordo com a sua opinião de que “medidas de correção de injustiças e discriminação são necessárias”. Afinal foram séculos de exploração. Ainda bem que na decisão final do STF prevaleceu o bom senso!
    Sem mais,
    Gabriel.

  6. Antonio Morales Says:

    Também penso que as cotas deveriam ser para pobres em geral não só cedidas por critérios éticos. Mas acredito que cotas para pobres seriam muito mais difíceis de serem preenchidas com critérios objetivos pois exigiriam um sistema muito mais sofisticado de seleção e controle. Traduzindo: é muito mais fácil ludibriar critérios sociais e econômicos de seleção do que critérios étnicos.

    Contudo, opino que não deveríamos desistir de ampliar as oportunidades para todos os que são barrados por sua pobreza de ingressar em universidades. E mais: criar as condições necessárias para que esses estudantes permaneçam no sistema pois suas condições econômicas e sociais podem fazer que desistam a meio caminho.

  7. Sheila&Amanda Says:

    Li seu comentário a respeito do que viu passando em frente ao Colégio Rio Branco da Higienópolis. Lá não estudam crianças com nenhum tipo de dificuldade também. Mesmo se for branca…
    Leia meu blog/denúncia e vai entender também um pouco do descaso dos “gigantes” pela inclusão das crianças…

    https://ouvindopoucofalandomuito.wordpress.com/

    obrigada

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