Lugar de Criança é na Rua

Mês passado escrevi artigo para revista experimental produzida por estudantes da área de comunicação, atendendo a solicitação da Roberta Perônico, minha ex-aluna. A matéria, claro, deveria ser inédita.

Meu texto utiliza referências do grande educador italiano Francesco Tonucci. Mostro as limitações do famoso bordão “lugar de criança é na escola”. Indico necessidade de conversas sobre o resgate da rua como um lugar de convivência humana. Crianças adoram a rua e nela podem viver experiências que funcionarão como matéria prima para re-elaboração de saberes, função primordial da escola.

Agora que a revista experimental foi publicada, posso divulgar o que escrevi para atender a pedido da Roberta. Vejam o dito artigo no destaque que segue:

Lugar de Criança é na Rua

Jarbas Novelino Barato

Sete da manhã. Num bairro nobre de São Paulo, três seguranças de terno preto cuidam da entrada de uma escola tradicional. No interior do prédio, dois outros homens de terno preto fazem parte da paisagem. Todo o perímetro escolar é cercado por muros altos. Esse aparato de segurança é comum em nas escolas privadas para filhos da elite paulistana. Mas, medidas para proteger alunos não estão ausentes em escolas públicas. Quase todas elas possuem muros altos, portões de ferro e outros elementos que indicam preocupação com os perigos de uma cidade violenta.

Crescem, ano a ano, medidas de segurança nas escolas. Cada vez mais, estamos presenciando a concretização da escola fortaleza. Educadores, formadores de opinião, pais e políticos apóiam movimentos para “tirar as crianças da rua”. E concordam com o que diz o bordão de uma campanha que circulou muito tempo pelos meios de comunicação: “lugar de criança é na escola”.

Quase ninguém se pergunta qual é a mensagem que a escola fortaleza passa para as crianças. A maioria das pessoas vê os cuidados de segurança nas instituições educacionais como necessidade.  

Há muito tempo Francesco Tonucci chama a atenção para os males da escola fortaleza. Ele mostra que a escola é um local de re-elaboração da experiência. E de onde vem a experiência? Vem da vida em ambientes onde as crianças podem inventar, brincar, explorar o espaço, circular livremente sem a vigilância de adultos. Em nosso mundo urbano, a experiência deve acontecer na cidade, nos espaços públicos.

A proposta do educador italiano exclui a escola fortaleza. Ela sugere caminhos completamente diferentes dos que vemos hoje no campo da educação. Para que as crianças se eduquem bem é preciso que utilizem o tecido urbano como local de convivência.

As idéias de Tonucci deram origem a um projeto chamado “cidade da criança”. Em municípios que aceitam tal projeto, crianças formam conselhos para mostrar a cidade que desejam. Nessas cidades, as crianças querem, por exemplo, que a circulação de pessoas pelas ruas tenha prioridade sobre a circulação de automóveis. Querem jogar bola na rua. Querem brincar em qualquer espaço urbano que desafie sua imaginação. Querem ter liberdade de ir e vir sem proteção e vigilância de adultos. Não querem playgrounds, querem a cidade.

A escola fortaleza e a cidade das crianças são duas propostas antagônicas. A primeira aceita a cidade hostil. A segunda propõe uma ação política e educacional que exige humanização dos espaços urbanos. A primeira entende que a escola é o local preferencial de aprendizagem. A segunda entende a aprendizagem no espaço urbano como matéria prima para que a escola faça sentido.

Infelizmente estamos aperfeiçoando a escola fortaleza e deixando que o tecido urbano apodreça cada vez mais. Achamos que lugar de criança é na escola. Mas, caso pensemos numa educação mais viva, é preciso garantir às crianças oportunidade de se aventurar pela cidade. É preciso ter consciência de que lugar de criança é na rua.

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9 Respostas to “Lugar de Criança é na Rua”

  1. Augusto Says:

    Gostei Jarbas.

    É também verdade que SP pede escolas-fortaleza. Qual é o tipo de cidade que queremos ter? Como é uma cidade que seja para todos e que tenha espaços públicos para experimentar? Será que SP já era?

  2. anaeluciana Says:

    Professor Jarbas, o ideal seria que as escolas fossem abertas, sem os muros altos e os seguranças nas portas… Porém, vivemos hoje na cidade de São Paulo no ano de 2011 e nada esta fácil! Vivemos no momento, acredito eu, o mais violento de todos! Mesmo com tanta segurança, pais são assaltados na frente das escolas, filhos sequestrados… Não temos mais o direito de viver em liberdade! Infelizmente, somos obrigados a viver cercados de seguranças e muros altos, assim bloqueamos os nossos alunos de interagir com os espaços urbanos.
    Talvez, as escolas do interior e cidades menores podem fazer com que seus alunos frequentem mais os espaços e conheçam melhor a vida urbana.
    Não consigo imaginar os alunos das escolas de São Paulo, principalmente as particulares, saindo para conhecer a realidade da grande cidade de São Paulo.
    Eu acredito que seria uma aula ideal e bastante pertinente! As crianças não conhecem a cidade, a história, seus monumentos e pontos turísticos. Algumas crianças nunca andaram de metrô ou ônibus.
    Eu adoraria levar os meus alunos para conhecer cada ponto de São Paulo!
    Mas, não podemos!
    O seu texto me fez lembrar o livro de Diane Levy “É claro que eu amo você… agora vá para o seu quarto!” quando ela questiona o fato de estar ficando cada vez mais difícil educar uma criança nos dias de hoje. E afirma que o mundo atual difere daquele que crescemos e, é ainda mais diferente daquele que nossos avós viveram. A terapeuta ainda dá um exemplo que ouviu na rádio onde um chefe de polícia contava sobre histórias vivenciadas a 40 anos de serviço: ele contou que certa noite seu chefe o chamou ao gabinete e relatou que alguns clubes de boliche estavam sendo invadidos por ladrões interessados em roubar bebidas alcoólicas. E, assim, toda noite ele ia ficar de tocaia no clube para pegar os “ladrões”. Passaram algumas noites até que ele finamente pegou dois homens que haviam invadido o clube. Ele deu voz de prisão e amigavelmente acompanharam o policial até a delegacia e ainda o ajudaram com a sua bicicleta.
    Não temos mais ladrões como antigamente!
    Vivemos a todo o momento com medo do que poderá nos acontecer. Por isso a violência nos impede de deixar que nossos alunos ou filhos aprendam com a vivência porque temos medo do que poderá acontecer!
    Ao mesmo tempo, cercá-los de muros, seguranças, tanta proteção acabamos sufocando-os o que me faz lembrar o livro: “As crianças aprendem o que vivenciam” de Dorothy Law Nolte e Rachel Harris. Indico a leitura para pais, professores e qualquer pessoa que gosta de aprender mais sobre as nossas relações. Existem muitas passagens interessantes no livro. A autora escreveu o livro contando situações que todos nós já passamos ou passaremos e como devemos evitar frustrações nossas e das crianças. O livro parte de um poema para chamar a atenção do leitor que as crianças estão a todo o momento prestando atenção nas nossas atitudes.
    E, agindo com medo de tudo e de todos estamos educando ou criando crianças medrosas: “…O medo desestabiliza o ambiente de apoio necessário para que a criança possa crescer, explorar e aprender, deixando-a com um persistente sentimento de apreensão, uma ansiedade geral que pode prejudicar de modo fundamental a sua maneira de se relacionar com as pessoas e de enfrentar situações novas”.
    Medo ou receio é o que pais sentem quando seus filhos vão a algum passeio da escola. Eu, como professora não sei como reagiremos frente a tudo isso sem causar nenhum dano às crianças.
    Espero que o que eu escrevi esteja coerente com os seus pensamentos e tenha ajudado.

  3. anaeluciana Says:

    Professor Jarbas, o ideal seria que as escolas fossem abertas, sem os muros altos e os seguranças nas portas… Porém, vivemos hoje na cidade de São Paulo no ano de 2011 e nada esta fácil! Vivemos no momento, acredito eu, o mais violento de todos! Mesmo com tanta segurança, pais são assaltados na frente das escolas, filhos sequestrados… Não temos mais o direito de viver em liberdade! Infelizmente, somos obrigados a viver cercados de seguranças e muros altos, assim bloqueamos os nossos alunos de interagir com os espaços urbanos.
    Talvez, as escolas do interior e cidades menores podem fazer com que seus alunos frequentem mais os espaços e conheçam melhor a vida urbana.
    Não consigo imaginar os alunos das escolas de São Paulo, principalmente as particulares, saindo para conhecer a realidade da grande cidade de São Paulo.
    Eu acredito que seria uma aula ideal e bastante pertinente! As crianças não conhecem a cidade, a história, seus monumentos e pontos turísticos. Algumas crianças nunca andaram de metrô ou ônibus.
    Eu adoraria levar os meus alunos para conhecer cada ponto de São Paulo!
    Mas, não podemos!
    O seu texto me fez lembrar o livro de Diane Levy “É claro que eu amo você… agora vá para o seu quarto!” quando ela questiona o fato de estar ficando cada vez mais difícil educar uma criança nos dias de hoje. E afirma que o mundo atual difere daquele que crescemos e, é ainda mais diferente daquele que nossos avós viveram. A terapeuta ainda dá um exemplo que ouviu na rádio onde um chefe de polícia contava sobre histórias vivenciadas a 40 anos de serviço: ele contou que certa noite seu chefe o chamou ao gabinete e relatou que alguns clubes de boliche estavam sendo invadidos por ladrões interessados em roubar bebidas alcoólicas. E, assim, toda noite ele ia ficar de tocaia no clube para pegar os “ladrões”. Passaram algumas noites até que ele finamente pegou dois homens que haviam invadido o clube. Ele deu voz de prisão e amigavelmente acompanharam o policial até a delegacia e ainda o ajudaram com a sua bicicleta.
    Não temos mais ladrões como antigamente!
    Vivemos a todo o momento com medo do que poderá nos acontecer. Por isso a violência nos impede de deixar que nossos alunos ou filhos aprendam com a vivência porque temos medo do que poderá acontecer!
    Ao mesmo tempo, cercá-los de muros, seguranças, tanta proteção acabamos sufocando-os o que me faz lembrar o livro: “As crianças aprendem o que vivenciam” de Dorothy Law Nolte e Rachel Harris. Indico a leitura para pais, professores e qualquer pessoa que gosta de aprender mais sobre as nossas relações. Existem muitas passagens interessantes no livro. A autora escreveu o livro contando situações que todos nós já passamos ou passaremos e como devemos evitar frustrações nossas e das crianças. O livro parte de um poema para chamar a atenção do leitor que as crianças estão a todo o momento prestando atenção nas nossas atitudes.
    E, agindo com medo de tudo e de todos estamos educando ou criando crianças medrosas: “…O medo desestabiliza o ambiente de apoio necessário para que a criança possa crescer, explorar e aprender, deixando-a com um persistente sentimento de apreensão, uma ansiedade geral que pode prejudicar de modo fundamental a sua maneira de se relacionar com as pessoas e de enfrentar situações novas”.
    Medo ou receio é o que pais sentem quando seus filhos vão a algum passeio da escola. Eu, como professora não sei como reagiremos frente a tudo isso sem causar nenhum dano às crianças.
    Espero que o que eu escrevi esteja coerente com os seus pensamentos e tenha ajudado.
    Luciana Raspa.

  4. jarbas Says:

    Oi Lu. Belo comentário. Creio que Tonucci não ignora o estado de violência a que chegaram nossas cidades. Mas, acho que ele não considera nossos cuidados de proteção das crianças via escolas-fortalezas uma solução. É um paliativo. Mas, a gente não pode perder de vista que a luta por educação passa pelas condições de vida das crianças fora da escola. Nesse sentido, o alerta do educador italiano é importante, pois muita gente em educação se entusiasma por escola de tempo integral, esquecendo-se de que a vida cidadã não pode ser vivida exclusivamente num espaço artificiall como o da escola.

    Tenho a impressão de que a questão da escola-fotaleza não é discutida em cursos de formação de professores. Os mestres se encantam com uma escola total, achando que nela as crianças aprenderão mais e melhor, além de ficarem protegidas contra os perigos da rua. Se capitularmos e ficarmos contentes com tal tipo de solução, a educação escolar ficará cada vez mais vazia.

    Paro por aqui. Mas, apenas arranhei a questão. A gente devia conversar mais sobre ela. Abraço grande, Jarbas.

  5. Legal » Catacumbas do Blog » Lugar de criança é na Rua Says:

    [...] um ótimo texto do sempre lúcido Jarbas, que, mais uma vez, nos leva à reflexão da dicotomia existente entre o mundo em que vivemos e o [...]

  6. Helena Says:

    Puxa, Professor, li o texto com a dor no coração de saber que seria de fato melhor termos o privilégio de permitirmos as crianças nas ruas, experimentarem, se aventurarem, decidirem, evitarem, analisarem… viverem diversas situações da vida!
    Por outro lado, tambem concordo que a escola fortaleza não seja a solução. Afinal, com tantas regras, a criança, dentre outras coisas, se sente presa e por muitas vezes perde o gosto por estudar, sem aproveitar o verdadeiro estudar adequado para a idade.
    É um dilema grande!
    Por isso gostei tanto do texto, por nos chamar a reflexão. A fortaleza não é o ideal, mas tambem deixar a criança distante de tudo tambem não é.
    Só quando percebemos que o caminho escolhido não é pleno é que podemos refletir juntos para buscarmos novas possibilidades.
    Gostaria somente de acrescentar, minha vivência, que de fato, não importa se é em escola de alunos mais ou menos ricos, em ambas as situações temos a dificuldade das ruas e da escola fortaleza.
    Trabalho na Secretaria da Educação do Estado de SP e dei aula nas escolas públicas da periferia. Mesmo nestas, que embora tenha muros altos, eles são arrombados. Desta forma, os traficantes passam o dia na quadra, buscando a oportunidade de entrar na escola, que tem sempre suas portas trancadas. Inclusive eu, professora, tinha que aguardar até alguém vir abrir os cadiados para entrar de volta ou sair com os alunos entre uma aula e outra. Fora outros desafios diários por conta desta realidade.
    Precisamos urgentemente pensar em novas possibilidades!
    Obrigada mais uma vez!
    Helena =)

  7. Helena Says:

    Relendo o texto, percebi que não disse o quão angustiada estava por imaginar que as crianças mereçam a vivência nas ruas, mas que por conta da violência, isso acabou. Conforme explicado pelos outros colegas nos outros posts.
    A violência e o perigo nas ruas de hoje é que geram todo o problema.
    Enfim, espero que agora, acrescentando esta informação, o post anterior tenha mais sentido ;)

  8. anaeluciana Says:

    Professor Jarbas, obrigada pelo elogio! Estou por aqui para mais discussões! Abraço grande!
    Luciana Raspa

  9. Lugar de criança é na Rua | Legal Says:

    [...] um ótimo texto do sempre lúcido Jarbas, que, mais uma vez, nos leva à reflexão da dicotomia existente entre o mundo em que vivemos e o [...]

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