Desescolarização

Como já disse várias vezes, fico impressionado com a vitalidade do discurso da Escola Nova. Esse movimento, surgido no final do século XIX, é responsável por um discurso que, dentro e fora da escola, define para consumo público o que é educação. Ou seja, educadores e meios de comunicação continuam a rezar o credo escolanovista, quase sempre sem o saber.

Preocupa-me sobretuto a equiparação do construtivismo ao escolanovismo. Muito do que se afirma sobre construtivismo, na verdade é uma conversa requentata da fala dos evangelistas da Escola Nova.

Confusão entre idéias da Escola Nova e abordagens críticas dos sistemas escolares é muito comum. Acho que exemplo disso é um vídeo sobre Ivan Illich produzido pela UNIVESP. Vejam-no:

Na época em que esse vídeo foi produzido eu prestava serviços à UNIVESP. Avaliei a versão incial do material. Algumas de minhas observações foram consideradas, outras não. Para interessados no assunto, reproduzo, a seguir, meu parecer sobre o vídeo em análise:

Sociedade sem Escolas

observações sobre o roteiro

 

 

 

Jarbas Novelino Barato

17/03/2008

 

 

O vídeo está bem realizado e desperta interesse pela obra de Ilich. Mas há alguns detalhes que precisam ser revistos. Vamos a esses pontos.

 

1.     Na escola, o professor é o dono da verdade. Ele está ali para ensinar.

 

Essa é uma crítica que reflete certo pensamento hegemônico sobre o professor em nossos dias. Mistura certo radicalismo da Escola Nova com uma interpretação simplificada do construtivismo. Não é, propriamente, a crítica fundamental de Illich. O autor critica as instituições, burocráticas, dominadoras, defensoras do status quo. Sei que é muito difícil representar isso graficamente. Mas acho que é preciso amenizar um pouco a impressão de que o culpado maior por tudo é o professor. Este representa um poder, mas não é “o poder”.

 

O que pode ser feito? Não tenho uma sugestão clara e simples. De qualquer forma, acho que seria bom substituir a afirmação “Na escola, o professor é o dono da verdade” por algo mais ou menos assim: “Na escola, o professor decide o que os alunos precisam aprender”. 

 

Não sei como resolver um outro problema. No trecho em análise, a crítica aparece como uma constatação atual, não como uma observação de Illich. Tal constatação poderia ser um pouquinho mais explicada. Exemplo: “Apesar de muitas reformas, a escola continua a ser uma instituição com muitos problemas. Exemplo disso é o que se passa na maioria das salas de aula ainda hoje”.

 

2.     O papel mais importante do aluno é conseguir os diplomas e certificados que são necessários no mercado de trabalho.

 

Essa parece ser outra crítica que não é propriamente illichiana. A idéia de uma escola que serve exclusivamente interesses do mercado é também fruto de um radicalismo que deixa de examinar muita coisa que acontece no processo de escolarização. Como Illich ainda não entrou na história, suponho que tal interpretação não é dele, mas funciona mais uma vez como uma constatação. E essa constatação precisa, no mínimo, ser discutida.

 

O que fazer? Mais uma vez é preciso evitar uma simplificação. Certificados e diplomas são muito mais expectativas cartoriais de uma certa sociedade que proposta da escola. Quem valoriza certificados e diplomas é a sociedade, não necessariamente a escola. Talvez um comentário similar ao que segue possa amenizar as coisas: “Os alunos vão para escola esperando obter certificados e diplomas, em vez de procurar conhecimento…”

 

Tudo mais que segue, a partir da menção de Illich, parece adequado. Não vou por isso fazer qualquer tipo de consideração. Algumas das conclusões, porém, precisam ser revistas.

 

3.     A televisão e a Internet são novas fontes de conhecimento com uma linguagem diferente: uma nova forma de estimular os estudantes. A tecnologia está a serviço da educação.

 

Não creio que tal conclusão seja de Illich. Ela é uma interpretação. A afirmação “ A tecnologia está a serviço da educação” é bem problemática e não teria as bênçãos  de Ivan Illich. O autor pensava em oportunidades de aprendizagem autônomas, fruto de iniciativa e interesses dos aprendizes. Esse sonho pode ser facilitado pela mídia. Mas esta não está a serviço da educação. Solução? Creio que a afirmação poderia ser substituída por algo como: “ Tecnologia é uma ferramenta que pode dar ao estudante grande liberdade para aprender”.

 

4.     Segundo o New York Times, cerca de 500 mil crianças americanas não vão à escola. Aprendem com seus pais ou estudam online. Escolas online já operam em 18 estados.

 

Os dois casos citados não são exemplos de desescolarização. A crítica de Illich não se prendia a prédios escolares. O sistema de home schooling (permissão para que os pais eduquem em casa seus filhos) é bastante escolar. Os pais firmam um acordo com a autoridade escolar local, com a obrigação de seguir um determinado programa. O mesmo pode ser observado com relação a educação online nos moldes praticados hoje nos EUA. Os programas online são muito estruturados, deixando pouca ou nenhuma iniciativa para os alunos.

 

Na perspectiva illichiana, as novidades tecnológicas seriam libertadoras se os aprendizes pudessem escolher livremente o que aprender. Esse é um potencial da Internet. Mas quando os educadores “domesticam” a Internet essa passa a ser um instrumento de escolarização, não de desescolarização. A grande novidade é a possibilidade de um uso “não reguladas novas tecnologias de informação e comunicação. Situação bastante diferente do home schooling ou da educação online.

 

O que fazer. Mais uma vez não tenho uma solução definitiva. Acho apenas que home schooling e educação online não são bons exemplos de desdobramentos daquilo que Illich esperava. Minha sugestão é a de substituir o trecho por algo que mostre o interesse das pessoas por ferramentas (blogs, chats, orkurt, listas etc.) que não são controladas opor ninguém. Por algo que mostre também que é possível aprender sem programas ou burocracias que se dizem especialistas em educação. Acho que o trecho poderia ser substituído por algo que comunicasse algo mais ou menos assim: “Hoje é possível aprender muito, sem entrar na escola ou em programas escolares a distância. A Internet e outras tecnologias permitem que qualquer pessoa diga sua palavra, sem controle, sem censura, sem necessidade de aprovação. Por outro lado, basta curiosidade e alguma conhecimento de como buscar informações na rede mundial de computadores para elaborar conhecimentos. E nessa rede, gente de toda parte pode formar comunidades de aprendizagem, lidando com o conhecimento de maneira muito informal, mas aprendendo coisas que jamais veria em instituições escolares”.

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Uma resposta to “Desescolarização”

  1. Augusto Says:

    Olá Jarbas,

    Obrigado pelo artigo. Claro que há muito já se fala no tema, mas ao mesmo tempo hoje se usa a muleta da tecnologia e da internet para justificar uma interconectividade do aprendizado que, apesar de se apresentar de outras maneiras hoje, sempre existiu. Também acho que Illich não acharia educação online, por exemplo, como sinônimo de desescolarização.

    Os pensamentos fundamentais de aprendizado institucionalizado continuam mais presentes que nunca nessa época de conexões online. O adquirir conhecimento como a base do aprender também pode ser uma simplificação, não? Que outras coisas podemos aprender? Será que todas elas são influenciadas diretamente por novas tecnologias?

    Abraço!

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