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Dignidade do trabalhador

novembro 26, 2010

Há duas semanas, quase todo tempo que tenho está sendo dedicado a correção de provas e leituras de relatórios de projetos dos meus alunos. Esta tarde fiz merecida pausa.

Durante o recreio, ouço música. Nos meus guardados estão álbuns de Natalie Merchant. Escolho a belíssima Motherland. Toco duas ou três vezes. Depois, vou ao Youtube para verificar se há outras versões da canção. Há muitas, incluindo esta joia que já indiquei aqui:

Vejo que outros intérpretes gravaram a composição de Natalie Merchant. Um deles é Christy Moore, um irlandês com cara de lutador de boxe. Eu não conhecia o gajo. Graças às facilidades da Internet, comecei a explorar shows e gravações de Christy. O cara é muito bom.

Uma das canções gravadas por Christy é Ordinary Man, balada sobre um trabalhador que perde o emprego numa das muitas crises do capitalismo.

Uma das constações que aparece na letra é a de que o patrão, apesar de ter fechado a fábrica e posto os operários na rua, ficou mais rico. O trabalhador é digno e quer ser tratado com dignidade. Ouçam a canção:

Para quem quiser acompanhar a história desse trabalhor vitimado pela crise, aqui vai a letra de Ordinary Man:

I’m an ordinary man, nothing special nothing grand
I’ve had to work for everything I own
I never asked for a lot, I was happy with what I’d got
Enough to keep my family and my home
Now they say that times are hard and they’ve handed me my cards
They say there’s not the work to go around
And when the whistle blows, the gates will finally close
Tonight they’re going to shut this factory down
Then they’ll tear it d-o-w-n

I never missed a day nor went on strike for better pay
For twenty years I served the best I could
Now with a handshake and a check it seems so easy to forget
Loyalty through the bad times and through good
The owner says he’s sad to see that things have got so bad
But the captains of industry won’t let him lose
He still drives a car and smokes his cigar
And still he takes his family on a cruise, he’ll never lose

Well it seems to me such a cruel irony
He’s richer now than ever he was before
Now my check is spent and I can’t afford the rent
There’s one law for the rich, one for the poor
Every day I’ve tried to salvage some of my pride
To find some work so I can pay my way
Oh but everywhere I go, the answer’s always no
There’s no work for anyone here today, no work today

And so condemned I stand, just an ordinary man
Like thousands beside me in the queue
I watch my darling wife trying to make the best of life
And Lord knows what the kids are going to do
Now that we are faced with this human waste
A generation cast aside
And as long as I live, I never will forgive
You’ve stripped me of my dignity and pride, you’ve stripped me bare
You’ve stripped me bare, you’ve stripped me bare.

Alice e Wittgenstein

novembro 17, 2010

Estudos sobre filosofia e linguagem precisam necessariamente passar por Wittgenstein, filósofo de leitura difícil. Mas, as questões que ele levanta são fascinantes e tem tudo a ver com nosso dia-a-dia comunicativo.

Não sou voz autorizada para falar do filósofo austríaco. Mas, meu colega Paulo Henrique Fernades Silveira fala de Wittgenstein com muita competência e conhecimento. E não é só isso. Fala de modo claro, simples elegante, atraente.

Em artigo recente, Paulo Henrique mostra as ideias do grande filósofo a partir de análises deliciosas sobre Alice no Pais das Maravilhas. Você nada precisa saber de filosofia para apreciar o que o Paulo escreve. É uma prosa bonita. E, como resultado, você passará a entender melhor a imaginação infantil e  lances importantes de nossos recursos comunicativos.

Para ler o texto de meu colega de universidade, clique sobre o título que segue:

Professores e fracasso escolar

novembro 17, 2010

CONTEXTO

Dia primeiro de outubro foi lançado nos Estados Unidos um documentário que vem merecendo imensa cobertura de mídia: Waiting for ‘Superman’. O filme aborda dramaticamente a candidatura de cinco crianças a sorteios para vagas em Charter Schools -escolas administradas por instituições privadas e mantidas por meio de transferência de dinheiro público. A obra foi dirigida por Davis Guggenheim, um documentalista que ficou famoso ao produzir filme sobre a atuação de Al Gore, ex-presidente americano, na área ambiental.

Entre os comentários que saíram na mídia americana, há um que merece destaque, o da historiadora Daine Ravitch, publicado no blog do New York Review of Books. Nas linhas que seguem, faço um resumo das opiniões de Diane. Acho que os comentários dela podem lançar muita luz sobre como os professores são vistos, principalmente na atual administração da educação no estado de São Paulo. Vamos pois às observações da Diane.

THE MYTH OF CHARTER SCHOOLS (resumo)

Diane Ravitch

Waiting for “Superman”
a film directed by Davis Guggenheim

Badalado pela mídia – Time, New York Times, Oprah Winfrey Show, jornais da rede de televisão NBC  (com direito à entrevista com o presidente Obama) – Waiting for ‘Superman’ vem merecendo muita atenção. Outros filmes sobre o mesmo tema – The Lottery e The Cartel – tiveram cobertura muitíssimo mais modesta.

Waiting for ‘Superman’ – assim como os outros filmes atrás menciondos – apresenta uma visão popularizada de idéias sobre educação pública americana que vêm sendo promovidas por algumas figuras e instituições muito poderosas do país.

Mensagem central dos três filmes: a educação pública fracassou; e o problema não é dinheiro, as escolas públicas gastam muito; os desempenhos dos estudantes são ruins por causa de maus professores, cujos empregos são protegidos por poderosos sindicatos; os alunos abandonam os estudos porque a escola fracassou com eles. Mas, os alunos poderiam atingir qualquer meta exigente se fossem salvos de seus professores incompetentes. Teriam notas melhores se as escolas públicas pudessem dispensar os maus professores e contratar bons profissionais de educação. Hoje, a única saída para as crianças, especialmente as desfavorecidas, é escapar da escola pública e ingressar numa Charter School, financiada com recursos públicos e administrada por instituições privadas, muitas delas buscando lucro neste nicho de mercado.

Para The Cartel a solução não é apenas a de criar mais Charter Schools, mas também a de fornecer auxílio financeiro ás famílias para que estas matriculem seus filhos em escolas privadas de sua escolha. O filme nos leva a acreditar que os professores nas Charter Schools e nas instituições privadas serão cuidadosos e competentes. Numa e noutra, as crianças terão sucesso apesar de suas origens. The Lottery ecoa o roteiro de Waiting for ‘Superman’, retratando alunos desesperados para evitar ingresso em escolas públicas do Harlem.

Para muita gente, o quadro pintado pelos filmes exige abandono de uma velha crença. Pessoas que se formaram nas boas escolas públicas americanas  não vêem razão para a privatização. Essas pessoas são de um tempo – que hoje parece distante – em que se acreditava que o desempenho das crianças nas escolas era determinado pelos próprios esforços destas, por circunstâncias, por apoio familiar, não pelos professores. Havia bons, médios e até maus professores, mas as crianças aprendiam. Maus professores não eram obstáculos para a aprendizagem.

Recente levantamento realizado pela Gallup aponta que a população não está satisfeita com  a educação pública, e, ao mesmo tempo, registra que 77%  dos pais atribuem notas A ou B ás escolas públicas frequentadas por seus filhos. Esses índices de avaliação são os mais altos desde 1985, ano em que a Gallup começou a fazer esse tipo de registro.

Waiting for ‘Superman’ e os outros dois filmes citados apelam para uma apreeensão geral de que o país está perdendo competitividade no mundo globalizado. No quadro de uma economia em crise, índices persistentes de pobreza, crianças pouco motivadas para o estudo, as películas em análise descobrem apenas dois culpados: as escolas públicas e seus professores. Não se atribui qualquer culpa à globalização, à desindustrialização, à pobreza, á cultura jeca do país, ou às práticas predatórias no campo das finanças.

Gulggenheim, diretor de Waiting for ‘Superman’, em entrevista  declarou que na sua infância já se preocupava com o destino de gente que frequentava a escola pública. Narra que essas  suas preocupações nasceram ao ver no caminho para sua escola privada, Sidewell Friends, pais deixando seus filhos em frente das escolas mantidas e administradas pelo estado. E essa circunstância o inspirou para realizar o documentário sobre Charter Schools.Vale salientar que Sidewell Friends, uma instituição particular para a alta elite de Washington, é frequentada hoje pelas filhas do presidente Obama.

O fime de Guggenheim conta a estória de cinco crianças que estão na Lottery (no sorteio) para ingresso em Charter Schools de suas regiões. Os depoimentos mostram famílias que desejam ver seus filhos fora da escola pública. Uma das crianças, matriculada numa escola católica que a mãe não está conseguindo pagar, é a única que já teve opção de não frequentar o ensino oferecido pelo estado. Das crianças, quatro são de extração negra ou hispânica. Apenas uma das crianças é anglo-saxônica e mora num subúrbio de classe média alta. O filme mostra as crianças com sua famílias, seus sonhos de futuro. Todas são amadas. Desde o início os espectadores se identificam com aquelas famílias dedicadas e preocupadas com o futuro de seus herdeiros.

Quais são as chances que as crianças têm de  ingressar na desejada Charter School? Poucas. A relação vagas/candidatos gira em torno de 1/15. Ou seja, na Lottery, 14 crianças ficarão de fora. Provavelmente terão de ir para uma escola pública que oferece vagas para todos.

Logo no início, o filme mosta os seguintes personagens:

  • Geoffrey Canada, presidente da Harlem Children’s Zone,ONG de serviço social que administra 4 Charter Schools.
  • Michell Rhee, executiva que exerce o papel de chanceler do departamento de educação da cidade de Washington, famosa por fechar escolas cujos alunos não conseguiram boas médias nos exames nacionais de desempenho escolar, e por demitir de modo sumário professores e diretores de escolas consideradas ineficientes.
  • David Levin e Michael Feinberg, criadores da KIPP Charter Schools, uma rede com mais de 100 escolas inauguradas nos últimos 16 anos.
  • Randi Weingearten, presidente da American Federation of  Teachers, apresentado como um dos vilões da estória.

Canada, Rhee. Levin e Feinberg são as estrelas centrais do documentário. Mas, Bill Gates e outros presidentes de fundações que fazem doações expressivas para Charter Schools aparecem também em cena. Como heróis, é claro.

Nenhuma escola pública decente é mostrada. Nenhum professor ou diretor da tradicional educação pública dos EUA aparece como alguém competente. O documentário ignora qualquer experiência significativa e de valor em escolas comuns mantidas com recursos orçamentários.

Cito integralmente um trecho do texto de Diane Ravitch:

A situação é terrível, o filme nos adverte. Mas, o que devemos fazer? A mensagem do filme é clara. Escolas públicas são más, escolas administradas privadamente (Charter Schools) são boas. [...] Se púdessemos demitir de 5 a 10% dos professores deficientes a cada ano, diz um economista da Hoover Institution, nosso desempenho em matemática e ciência se aproximaria logo dos resultados obtidos pelos cinco países de maior sucesso escolar no planeta.

O filme registra que apenas 1 entre 5 Charter Schools é capaz de garantir os maravilhosos resultados prometidos. Mas cala-se quanto a isso daí para a frente.

Resultados de pesquisa realizada Por Margaret Raymond, quanto a desempenho de alunos das Charter Schools em matemática e ciência mostram o que segue:

  • 17% delas apresentam resultados (médias) superiores ao de escola pública objeto de comparação.
  • 37% delas apresentam resultados inferiores ao de escola pública objeto de comparação.
  • 46% delas não apresentam diferenças significativas quando comparadas com escolas públicas.

A proporção de Charter Schools maravilhosas é inferior a 17 por cento. Os números não confirmam as crenças dos reformadores e dos defensores da solução privatista.

Por que Guggenheim não deu devida atenção a Charter Schools administradas por instituições lucrativas e que apresentam péssimos resultados em termos de desempenho escolar de seus alunos? Sabe-se que há duas vezes mais Charter Schools que fracassam do que as que obtêm sucesso. Fica mais uma pergunta: por que o filme foge desses números?

Waiting for ‘Superman’ tem fins propagandísticos. Nada diz sobre a grande variedade de Charters Schools (boas, ruins, medíocres, péssimas). Há excelentes Charter Schools, assim como há excelentes escolas públicas. E há mais perguntas sobre assuntos que o filme não aborda. Por que não mostrar muitos dos podres de certas Charter Schools? Por que ficam de fora do documentário casos comprovados de corrupção, de uso indevido de recursos públicos, de baixos desempenhos escolares dos alunos?

Guggenheim parece acreditar que os professores sozinhos podem superar os efeitos da pobreza  sobre os alunos, apesar de existirem incontáveis estudos demonstrando a ligação entre baixos ingressos financeiros e fracasso escolar. Numa sequência, o diretor do documentário apresenta a história do piloto Chuck Yeager quebrando a barreira do som, para admiração de pessoas que não acreditavam que ele conseguiria realizar tal façanha.  Depois de mostrar o evento de quebra da barreira do som por um  piloto determinado, Guggenheim constrói uma analogia. Sugere que, assim como Chuck Yeager quebrou a barreira do som, nós precisamos estar preparados para acreditar que professores competentes e determinados é tudo o que é necessário para superar as desvantagens da pobreza, da falta de moradia, da má nutrição, dos pais ausentes etc. Estranha analogia!

O filme tem uma tese central: a idéia de que o principal fator para o desempenho dos alunos é o professor. Mas, essa proposição é falsa. Pesquisas de Hanushek mostram que a qualidade dos professorfes é responsável por 7,5 a 10% do ganho de notas pelos estudantes. Outros estudos de alta qualidade vão no mesmo rumo, indicancdo que os números quanto à responsabilidade dos professores em resultados de aprendizagem ficam entre 10 e 20%. Os professores são o fator mais importante no interior da escola. Mas, escolas e professores não são fatores exclusivos nessa história. As mesmas pesquisas indicam que os fatores externos são mais importantes que os professores. De acordo com Dan Goldhaber, economista da Universidade de Washington, fatores não escolares chegam à casa dos 60%. E tais fatores estão fora do controle de escolas e professores. Os professores podem ter grande influência sobre seus alunos, mas seria muito ingênuo acreditar que os professores sozinhos podem desfazer prejuízos causados pela pobreza e pelos males a ela associados.

Guggenheim foge do problema da pobreza mostrando em seu documentário apenas famílias intactas e dedicadas a ajudar as crianças para que estas obtenham bons resultados nas escolas. Todos os casos contados são de “boas famílias”. Nada de crianças com famílias desfeitas, nada de crianças com necessidades especiais. O diretor do documentário também nada fala sobre as Charter Schools que matriculam número representativamente baixo de crianças provenientes de famílias cujo idioma do lar não é o inglês.

O filme não reconhece que a idéia original das Charter Schools entrou no cenário educacional sobretudo por causa da insistência de Albert Shanker, presidente da American Federation of Teachers. Shanker sugeriu a ideia em 1988 para um grupo de docentes de escolas públicas. Sua proposta era a de uma escola especial para os alunos mais necessitados, experimental e flexível, capaz de obter resultados que poderiam ser aproveitados pelas escolas públicas em busca de melhorias. Em 1993, Shanker retirou seu apoio a Charter Schools ao perceber que a idéia estava sendo aproveitada por organizações interessadas em privatizar a educação nos  EUA. Michelle Rhee, chanceler do departemento de educação de Washington, foi empregada da Education Alternatives, uma organização que promove ações na direção contrária à proposta original de Shanker.

As Charter Schools de hoje não estão estruturadas para colaborar com as escolas públicas. Elas estão organizadas para competir com as escolas administradas pelo poder público. E, como acontece em mercados competitivos, elas querem eliminar a concorrência. Elas são uma cunha no sentido da privatização. Depois de NCLB (No Child Left Behind), um programa do governo federal orientado por avaliações de desempenho escolar, as Charter Schools buscam alunos que possam obter bons resultados nos testes e livram-se de alunos “fracos” que podem comprometê-las.

No filme aparecem distorções na interpretação de dados. Isso acontece, por exemplo, com as considerações que faz sobre resultados acadêmicos dos alunos de escolas públicas de acordo com dados reunidos pelol governo federal. Em certo ponto da narrativa, o documentário afirma que 70% dos graduandos do ensino médio não conseguem ler. A conclusão está errada. Na verdade, os dados indicam que 25% dos alunos estão abaixo daquilo que é considerado básico.

Guggenheim trata bem seus heróis. Este é o caso, por exemplo, de Geoffrey Canada, celebrado pela criação da ONG Harlem Children’s Zone. O filme não deixa claro que a ONG de Canada recebe altas somas de entidades filantrópicas. Essa circunstância contraria a tese de que as escolas públicas já têm muitos recursos financeiros. Canada faz um bom trabalho, mas com muito mais dinheiro. Com os recursos similares aos recebidos pela Harlem Children’s Zone as escolas públicas poderiam fazer muito mais.

Melhores resultados (sucesso) das Charter Schools é um mito. Mesmo nas escolas de G. Canada, há muitas crianças que não alcançam proficiência. Em 2010, numa de suas escolas, 60% dos alunos não eram proficientes em leitura; em outra, a ausência de domínio aceitável de leitura chegava a 50%. É preciso notar que Canada colocou para fora uma classe inteira de ensino básico porque esta não obteve notas que agradassem o conselho de sua organização. Volto a citar Ravitch:

Ao contrário da mitologia e do que sugere Gugggenheim, mesmo as Charter Schools com os melhores serviços não conseguem reverter completamente os efeitos da pobreza.

O cineasta ignora outros fatos de uma boa história. Ao mesmo tempo que bate forte nos sindicatos, ele aponta a Finlândia como uma nação cujo sistema educacional os EUA precisam imitar. Mas, não explica que a docência naquele país é toda ela sindicalizada, Nem diz que a Finlândia testa seus estudantes raramente. A estratégia do país nórdico é a de investir na preparação, apoio e retenção de excelentes professores. Não atinge excelência demitindo de 5 a 10% de seus docentes anualmente, mas construindo o futuro com paciência. A Finlândia tem um currículo nacional que não se restringe ao básico, mas inclui arte, ciência, história, idiomas estrangeiros. O país, além de tudo, amplia seus programas sociais para os familiares das crianças. Guggenheim simplesmente ignora as realidades do sistema finlandês. Sistema, aliás, financiado e administrado diretamente pelo estado. Trata-se de uma educação inteiramente pública.

Em qualquer reforma se coloca o problema da “escala”. A proposta pode produzir efeitos em larga escala?  O fato de que uma escola possa produzir resultados admiráveis não é em si fator capaz de demonstrar que outras escolas poderão fazer o mesmo.

Muitos exemplos utilizados pelo cineasta não trouxeram mudanças significativas. Este é o caso, por exemplo, da Locke High School de Los Angeles, transformada em Charter. A proficiência em inglês na Locke High em seus últimos anos como instituição pública era de 13,7%. Depois que se converteu em Charter School, tais resultados tiveram um aumento irrisório, foram para 14,9%. Em matemática, os números foram de 4% para modestos 6,7%.

Outro exemplo que mereceu destaque no filme é a Escola SEED de Washington. O filme e o programa 60′ Minutes da CBS mostram que seus alunos tem um notável índice de aceitação pelas universidades. Mas, a SEED gasta US$35.000 por aluno/ano, três vezes mais que o gasto pelas escolas públicas. É bom recordar que o cineasta diz que há recursos suficientes na rede pública, mas estes são mal aplicados. E no caso da SEED, Guggenheim não explica porque esta Charter School gasta três vezes mais que a média do dinheiro investido por aluno na rede pública do país.

Guggenheim parece exigir que as escolas públicas demitam os maus professores. Mas, não nos diz como é difícil identificar maus professores. Em escolas frequentadas pela elite (escolas de subúrbio de classe média alta) os professores são bons, uma vez que os resultados de aprendizagem costumam ser satisfatórios. É isso mesmo? Ou será que os alunos de escolas frequentadas por pobres continuarão a fracassar, passando a falsa idéia de que a culpa é de maus professores?

Waiting for ‘Superman’ é o mais importante golpe de relações públicas que os críticos da educação pública aplicaram até agora. Seu poder não pode ser desconsiderado. Durante muitos anos, os críticos da direita pediam vouchers – grana do governo para que os pais pudessem pagar escolas particulares de sua escolha para os filhos – e nada conseguiram. Agora, muitos deles estão olhando admirados suas propostas de privatização migrarem para as elites liberais. Apesar de seus duvidosos resultados, as Charter Schools são apoiadas pela administração Obama e por fundações de empresários de extração democratra. As Charter Schools representam uma séria ameça para a educação pública.

Convém mencionar que as nações com sistemas escolares de alto desempenho – Coréia, Singapura, Finlândia e Japão – obtiveram sucesso não pela pela privatização de suas escolas ou fechando aquelas que apresentavam baixos desempenhos, mas fortalecendo o ofício de educar (em instituições públicas). Elas também tem menores índices de pobreza que os EUA. Aqueles que insistem que a pobreza não conta, mas apenas os professores, ignoram tais constrastes.

Se formos sérios, como a Finlândia, na tarefa de melhorar nossas escolas, devemos ser sérios no modo de tratar nossos professores. É preciso boa formação. Seleções bem feitas. Salários dignos. Melhores condições de trabalho. Guggenheim reclama que apenas 1 entre cada grupo de 2.500 professores perde seu registro anualmente por inadequação para a docência. Mas, ele deixa de informar que 50% daqueles que ingressam na profissão deixam-na nos cinco primeiros anos, principalmente por causa das péssimas condições de trabalho, falta de recursos adequados, e estresse na lida com crianças difíceis e pais desrespeitosos.

Há uma colisão de ideias acontecendo em educação, bem agora, entre aqueles que acreditam que a educação pública não é somente um direito fundamental, mas também um serviço público vital, e aqueles que acreditam que o setor privado é sempre superior ao setor público. Waiting for ‘Superman’ é uma arma poderosa daqueles que promovem a privatização. Levanta questões importantes, mas todas as respostas que ele oferece sugerem transferência de dinheiro público para o setor privado. O rombo financeiro de 2008 deveria ser suficiente para nos lembrar de que os gestores do setor privado não têm o monopólio do sucesso.

AQUI ENTRE NÓS

Não sei se Waiting for ‘Superman’ virá para o Brasil. Mesmo que não venha, privatistas de todas as cores entre nós usarão o filme para malhar a escola pública e os professores. Não é de hoje que economistas e outros curiosos da educação dizem que o problema educacional brasileiro é de gestão. Em outras palavras, dizem que medidas privatistas seriam a solução. Faz uns três dias que ouvi de um desses senhores na TV que a administração da educação em todos os níveis precisa de especilistas em gestão.

LEITURAS ADICIONAIS

Há muitas matérias sobre o filme de Guggenheim na Internet. Destaco duas delas:

WebQuest em revista

novembro 16, 2010

Número recente de RED -Revista de Educación a Distancia publica vários artigos sobre WebQuest. Interessados podem conferir com um clic aqui.


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