É moda registrar memórias da história recente. Quase sempre isso é feito por meio da história oral, muitas vezes registrada em textos ou vídeos. Aproveito a onda para divulgar aqui comentário feito por meu amigo Eduardo Sposito para o post Sala de Aula. O velho Edu, num texto muito bonito, conta um pouco de sua experiência no ensino primário. Veja essa beleza de história logo a seguir.
Jarbas,
E lá vou eu. Olhando as duas fotos, se eu tivesse que escolher, escolheria a escola do passado. Me parece dificil qualquer emoção naquela estrutura fria e de alta tecnologia. Seria a diferença entre entrar num boteco e num desses macdonalds da vida.
Se voce tiver aquela situação de um professor e 20 ou 40 alunos sentados durante 4 horas, tanto faz a parafernália tecnológica que voce usar: não se ensina nada.
Um aluno aprende, apesar da sala de aula, se houver outros componentes, outras relações que o estimulem. Me lembro de um monte de coisas da escola primária, mas muito pouco da sala de aula. Começava desde a saída de casa, a ida e a volta em grupos, os recreios, a merenda,as festas.
Só fui entrar no Grupo Escolar no 4º ano primário. O bairro em que eu morava – o Mandaqui, na zona norte de São Paulo – não tinha grupo escolar. Isso no começo da decada de 50.
Então fui alfabetizado na Escola da Dona Antonieta, que não era reconhecida oficialmente. Não lembro muita coisa, mas sei que me sentia muito bem e devo ter aprendido bastante, pois quando fui para uma escola oficial (que também era particular) já entrei no segundo ano.
(Essas escolas deviam ser baratas, pois meu pai era lavador de carro e estudavamos eu e minha irmã.)
Era a escola da Dona Mafalda, que também me deixou gratas recordações.
Sei até hoje a letra da música que nós cantávamos, com a melodia de “Oh! Suzana”
“Quando eu vim para essa escola
Tinha cabeça vazia
Não sabia tabuada, não escrevia e nem liaMas a minha professora foi aos poucos me ensinando
Hoje já sei ler no livro, já estou multiplicandoA escola é quase como o lar
E a nossa professora nós devemos respeitar”E eu nem conhecia a musica americana. Pensei que ela imitava a que nós cantavamos na escola.
Uma das atividades escolares que mais gostava era a descrição: colocavam uma figura impressa num cartaz na parede e você tinha que inventar 20 frases sobre o que você estava vendo. Me lembro que a vigésima era sempre essa: “O céu está azul e muito bonito”.
Ah! e tem a poesia que a filha da Diretora, a Zilah declamou no sete de setembro. Começava assim:
“Sete de setembro, dia de novidade
duas moças carecas passeando na cidade..”E voce acha que a gente ia estar preocupado com as carteiras.
Só em 1955 é que fui fazer o quarto ano num Grupo Escolar do Estado, pra receber o diploma. Lembro até hoje o nome da Professora: Lauricilda B. Carvalho. E tem a tradicional foto com o Mapa do Brasil atrás e a foto de formatura com a turma toda.
A escola porém ficava em outro bairro – Agua Fria – a uns dois quilometros de casa e a gente ia a pé. Lembro de um dia que achei um relógio de pulso e passei a usar.
Tem uma cartilha dessa época que tem uma quadrinha, mais ou menos assim : “Achei um relógio, gritava Janjão
Pulando e cantando com ele na mão”Deve ter havido aquelas aulas chatas, mas não me lembro.
A criançada que frequentar aquela escola modernosa acho que não vai passar por isso.Edu





