Archive for 8 junho, 2010

Memórias da sala de aula

junho 8, 2010

É moda registrar memórias da história recente. Quase sempre isso é feito por meio da história oral, muitas vezes registrada em textos ou vídeos. Aproveito a onda para divulgar aqui comentário feito por meu amigo Eduardo Sposito para o post Sala de Aula. O velho Edu, num texto muito bonito, conta um pouco de sua experiência no ensino primário. Veja essa beleza de história logo a seguir.

Jarbas,
E lá vou eu. Olhando as duas fotos, se eu tivesse que escolher, escolheria a escola do passado. Me parece dificil qualquer emoção naquela estrutura fria e de alta tecnologia. Seria a diferença entre entrar num boteco e num desses macdonalds da vida.
Se voce tiver aquela situação de um professor e 20 ou 40 alunos sentados durante 4 horas, tanto faz a parafernália tecnológica que voce usar: não se ensina nada.
Um aluno aprende, apesar da sala de aula, se houver outros componentes, outras relações que o estimulem. Me lembro de um monte de coisas da escola primária, mas muito pouco da sala de aula. Começava desde a saída de casa, a ida e a volta em grupos, os recreios, a merenda,as festas.
Só fui entrar no Grupo Escolar no 4º ano primário. O bairro em que eu morava – o Mandaqui, na zona norte de São Paulo – não tinha grupo escolar. Isso no começo da decada de 50.
Então fui alfabetizado na Escola da Dona Antonieta, que não era reconhecida oficialmente. Não lembro muita coisa, mas sei que me sentia muito bem e devo ter aprendido bastante, pois quando fui para uma escola oficial (que também era particular) já entrei no segundo ano.
(Essas escolas deviam ser baratas, pois meu pai era lavador de carro e estudavamos eu e minha irmã.)
Era a escola da Dona Mafalda, que também me deixou gratas recordações.
Sei até hoje a letra da música que nós cantávamos, com a melodia de “Oh! Suzana”
“Quando eu vim para essa escola
Tinha cabeça vazia
Não sabia tabuada, não escrevia e nem lia

Mas a minha professora foi aos poucos me ensinando
Hoje já sei ler no livro, já estou multiplicando

A escola é quase como o lar
E a nossa professora nós devemos respeitar”

E eu nem conhecia a musica americana. Pensei que ela imitava a que nós cantavamos na escola.
Uma das atividades escolares que mais gostava era a descrição: colocavam uma figura impressa num cartaz na parede e você tinha que inventar 20 frases sobre o que você estava vendo. Me lembro que a vigésima era sempre essa: “O céu está azul e muito bonito”.
Ah! e tem a poesia que a filha da Diretora, a Zilah declamou no sete de setembro. Começava assim:
“Sete de setembro, dia de novidade
duas moças carecas passeando na cidade..”

E voce acha que a gente ia estar preocupado com as carteiras.

Só em 1955 é que fui fazer o quarto ano num Grupo Escolar do Estado, pra receber o diploma. Lembro até hoje o nome da Professora: Lauricilda B. Carvalho. E tem a tradicional foto com o Mapa do Brasil atrás e a foto de formatura com a turma toda.
A escola porém ficava em outro bairro – Agua Fria – a uns dois quilometros de casa e a gente ia a pé. Lembro de um dia que achei um relógio de pulso e passei a usar.
Tem uma cartilha dessa época que tem uma quadrinha, mais ou menos assim : “Achei um relógio, gritava Janjão
Pulando e cantando com ele na mão”

Deve ter havido aquelas aulas chatas, mas não me lembro.
A criançada que frequentar aquela escola modernosa acho que não vai passar por isso.

Edu

Escola no século XXI

junho 8, 2010

Registro aqui, sem comentários, mais uma passagem de School, grande livro de Catherine Burke e Ian Grosvenor sobre arquitetura e educação.

Se continuarem a existir no século XXI, as escolas precisarão ser lugares mais inclusivos, mais criativos e mais atentos do ponto de vista humano do que foram até agora, tanto para aqueles que nela ensinam como para aqueles que devem frequentá-las. (p. 159)

Escola e segurança

junho 8, 2010

Homens de terno fazem segurança na entrada. Os entrantes devem passar por catracas com leitores de digitais. Câmaras vigiam circulação de pessoas nos corredores e salas. Muros altos, encimados por cercas eletrificadas de arame farpado, protegem todo o perímetro do prédio. Uma cartilha sobre cuidados de segurança é distribuída semestralmente. Duas ou mais dessas coisas existem hoje na maioria das escolas ou centros educacionais.

Pouca gente se pergunta quais são os efeitos de tanta obsessão por segurança. Em School, os autores levantam essa lebre e concluem que cuidados excessivos com segurança estão mudando [negativamente] os espaços de aprendizagem. Cito um depoimento que os autores foram buscar em pesquisa realizada por School Works:

Minha escola talvez seja segura demais. Ela parece uma prisão. Há altas cercas vermelhas por toda parte, e elas não são muito atrativas. Nós nos sentimos como animais em jaulas. Talvez eles possam pensar em meios bonitos, mas práticos, para tornar nossa escola segura, mas sem tanta feiura. (p.161)

Espaço escolar no século XXI

junho 8, 2010

Grandes realizações no campo de arquitetura e educação aconteceram nas duas décadas que vão de 1960 a 1980. Depois disso, aos poucos, os projetos de construção de escolas voltaram aos trilhos tradicionais. E essa volta ao tradicional continua a ser a tendência predominante na primeira década do século XXI. Essas são constatações feitas pelos autores de School.

Fiz uma pequena introdução para justificar divulgação de trechos do livro que estou lendo sobre arquitetura e educação. E, sem mais delongas, vou direto a dois trechos interessantes.

Aqui está o trecho 1:

[...] apesar de excessões, muitos professores estão mal preparados para trabalhar em ambientes radicalmente modificados [os autores se referem a projetos que eliminaram completamente salas de aulas convencionais e outros espaços tradicionais das escolas], e sua formação e preparação inicial para uma vida inteira de serviços profissionaisnão consideraram seriamente o assunto das condições materiais dos espaços que iriam ocupar. (p. 151-2)

Aqui está o trecho 2:

O quanto experimentação e inovação no design de escolas podem romper com as tradições do passado está limitado pelo simples fato de que, enquanto novos modelos são desenvolvidos e construídos para poucos, muitas crianças vão continuar a exigir um lugar para serem educadas. Na realidade, houve pouco rompimento com o passado e, até certo ponto, isto explica a reemergência da tradição no design de escolas.

Embora algumas escolas emergentes eliminassem os costumeiros corredores e salas de aula, e convidassem [pela sua concepçao de espaço] os atores da educação para aprendizagens cooperativas e colaborativas, nunca houve situação na qual mais que uma minoria de professores e crianças pudessem experimentar tal organização do espaço em suas carreiras. Consequentemente, sempre houve um grande fosso de tempo entre a inovação no design da construção de escolas e a formação e desenvolvimento de professores, voltados para novas formas de práticas pedagógicas que considerassem uso de espaço e tempo de modo alternativo. Apesar das inovações havidas nos anos 60′s e 70′s, ressalvadas excessões de praxe, pouca coisa mudou no sentido de preparar professores como profissionais para ambientes voltados para aprendizagens compreensivas e abertas. (15-2)

Computadores e arquitetura escolar

junho 8, 2010

Em post passado – Ditadura da tela e TIC’s – observei que as plantas dos laboratórios nas escolas, quase sempre, ou repetem a disposição tradicional das carteiras em salas de aulas, ou alojam os equipamentos em bancadas coladas nas paredes. Minhas amigas Miriam e Conceição Rosa me disseram que a última solução segue diretriz do Proinfo. Ou seja, a entrada dos computadores nas escolas, em termos de organização do espaço, nada muda ou muda para pior.

As observações que fiz e as colaborações de minhas ciberamigas aconteceram antes que eu chegasse em página de School que faz comentários sobre espaço escolar e computadores. Hoje acabei encontrando análise em que os autores, Catherine Burke e Ian Grosvenor, registram o acontecido com o ingresso da maquinetas nas escolas. Traduzo, a seguir, trecho expressivo sobre a matéria:

[...] Enquanto isso, as escolas começaram a se transformar com o compromisso governamental em implantar aprendizagem assistida por computadores, mas nem sempre em benefício daqueles que ocupam os prédios escolares o dia todo. Salas de aula, que não foram planejadas tendo em vista usos de computadores, converteram-se muitas vezes em espaços mal arrumados e quentes [com a introdução das máquinas]. Muitos analistas afirmam que apesar da aparência de mudança, a escola permanece notavelmente intacta como instituição. (p. 154)

Ao ler o trecho acima e considerar os comentários de Miriam e Conceição, me bateu uma curiosidade. Está em andamento no Brasil o projeto UCA (um computador por aluno). Especialistas se reúnem com alguma frequência para tocar o projeto, incentivar escolas, inventar meios e modos de melhorar a aprendizagem graças àquelas maquinetas fabricadas especialmente pra o fim desejado. Minha aposta é a de que predomina em tais encontros preocupação com a tela. As maquinetas serão carregadas para salas de aula tradicionais, substituindo eventualmente cadernos e livros. Mas, mudanças ambientais que possam favorecer aprendizagens comunais não devem estar na agenda dos especialistas. Gostaria de receber comentários de quem conhece bem o projeto UCA, se possível contrariando minha aposta.


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