Saberes Invisiveis

Hoje estou preparando uma aula sobre dualismo epistemológico. Tentarei examinar com meus alunos certos pares antitéticos que refletem preconceitos quando falamos de conhecimento. De uma lado temos mente, teoria, conhecimento; do outro lado, corpo, prática, habilidade. Estes segundos componentes dos pares com os quais pensamos o saber são desvalorizados. São vistos apenas como atividades que dependem dos primeiros.

Não vou aqui falar muito sobre pares antitéticos. Prefiro deixar registrado um texto que escrevi   para apresentar obra de um autor que precisa ser lido, Mike Rose. O nome do livro é O Saber no Trabalho. Se a tradução fosse minha, o título seria outro: O Saber do Tabalho ou o Saber do Trabalhador. Mas isso não importa muito. Importa dividir com vocês o texto que escrevi para apresentar o livro do Mike. Segue aqui o meu escrito:

APRESENTAÇÃO DO LIVRO “O SABER NO TRABALHO”, DE MIKE ROSE

De vez em quando, Neca Barato levava mulher e filhos para ver a obra. Mostrava detalhes do estuque bem feito, da aplicação uniforme de massa fina, dos azulejos assentados com perfeição, das inclinações quase imperceptíveis do piso do banheiro para que a água seguisse caminhos desejados, do prumo impecável das paredes. Seu Neca era um pedreiro que gostava de mostrar os resultados de seu trabalho. Tinha orgulho de sua obra. Ele me ensinou a ver inteligência num trabalho tido como atividade de gente rude, pouco educada e sem grandes conhecimentos. Neca Barato é meu pai.

Durante muito tempo evitei utilizar minhas origens de classe e minha convivência com os profissionais da construção civil em conversas com educadores, embora estes últimos usassem com muita freqüência a figura do pedreiro como exemplo de pessoa intelectualmente limitada. Mas quando mergulhei em estudos sobre o saber técnico de cabeleireiros, garçons, cozinheiros, auxiliares de enfermagem e outros trabalhadores do setor de serviços, julguei que era hora iluminar minhas investigações acadêmicas com as dimensões dos saberes sugeridos pelas obras que meu pai construía.

Começo esta apresentação com minha história pessoal porque O Saber no Trabalho é um livro marcado por experiências de vida parecidas com as minhas. O autor, Mike Rose, é filho de uma garçonete, profissão que nos Estados Unidos é tida como pouco exigente em termos cognitivos. Além disso, ele cresceu entre operários de uma grande ferrovia. E muitos aspectos que desenvolve em seu livro me fizeram compreender melhor o significado da obra como expressão de um saber que não se esgota na execução, mas que se vincula a dimensões axiológicas, estéticas e epistemológicas quase sempre ignoradas pelos educadores.

Os estudos de Rose sobre a profissão da garçonete são surpreendentes. Mostram um conhecimento invisível que só pode ser revelado por pesquisadores capazes de ver o trabalho da garçonete com sensibilidade e empatia, não apenas com as ferramentas supostamente impessoais de pesquisa em ciências sociais. Da conversa do autor com sua mãe emergem saberes de uma psicologia popular aprendida e aplicada em jogos sutis de relacionamento entre clientes e garçonetes; estratégias de planejamento que se estruturam a partir de demandas emergentes nas horas de maior movimento nos restaurantes, com ganho de eficiência no uso de tempo e espaço; capacidades de circular em áreas movimentas carregando com a devida elegância bandejas, pratos, xícaras e talheres; criação de expressões vocabulares que facilitam comunicação entre sala e cozinha; prodígios de memória no manejo de grande diversidade de pedidos e de perfis de clientes atendidos simultaneamente; julgamentos de como conduzir serviço e conversa com os clientes para assegurar maiores ganhos de gorjetas; habilidades de relacionamento entre companheiras e companheiros de trabalho para obter maior fluência no atendimento, e muito mais.

A riqueza cognitiva do ofício de garçonete tem equivalentes em saberes de cabeleireiras, marceneiros, soldadores, eletricistas e encanadores, outras profissões estudadas por Rose. Tem também uma mesma sina: é invisível aos olhos de observadores incapazes de ver o trabalho como desdobramento constante de atos de inteligência. Vale observar que a expressão conhecimento invisível é diferente de uma expressão muito utilizada por pesquisadores da área de educação e trabalho: conhecimento tácito. Este último é visto como um saber não verbalizado, mas que pode emergir a qualquer momento na vida do trabalhador. O primeiro é um saber do qual o trabalhador tem consciência,     de quem as mas que não é evidente para observadores incapazes de examinar as atividades produtivas a partir dos olhar de quem as faz. Essa invisibilidade do trabalho lembra uma outra invisibilidade, a de grupos humanos cuja existência é ignorada pelos poderosos. Lembra a invisibilidade do camponês índio do romance Garabombo, o Invisível, de Manuel Scorza.

O Saber do Trabalho desvela o conhecimento invisível presente em todas as profissões por meio de uma metodologia de pesquisa que não separa mão e cérebro, que não traz para encontros com os trabalhadores molduras interpretativas elaboradas previamente em gabinetes e laboratórios. A investigação de Mike Rose procura apreender o fazer-saber presente nos modos pelos quais os trabalhadores dão sentido às suas obras. Nesse caminho, o autor supera as insistentes dicotomias – teoria e prática, conhecimento e habilidade, saber e fazer – que caracterizam os modos hegemônicos de estudar educação e trabalho.

Fazer, saber, apreciar a obra e agir com responsabilidade profissional articulam-se num todo em cada atividade dos trabalhadores que Rose estuda. A história do aluno que refaz por motivos estéticos uma fiação correta, mas “feia”, que ficaria oculta no interior da parede de uma construção, revela essa articulação entre a técnica (fazer-saber) e as dimensões éticas (responsabilidade profissional) e estéticas (beleza da obra) no trabalho.  Tudo isso é entendido e aprendido como um único saber, definidor da identidade do profissional, revelando uma riqueza de conhecimentos imperceptíveis para quem não foi educado para apreciar obras bem feitas.

Rose sonha com uma educação democrática e com uma formação profissional que não separe mão e cérebro, ensino acadêmico e ensino técnico. Seu livro é referência indispensável para qualquer educador envolvido com formação profissional ou com educação geral de trabalhadores e seus filhos. O Saber no Trabalho abre uma janela importante para que possamos aprender com os trabalhadores. As investigações de Rose procuram entender os processos de fazer-saber formadores de identidades dos trabalhadores, individual e coletivamente. Elas não reduzem saber trabalhar a habilidades ou competências, a parcelas de conhecimento desvinculadas de compromissos sociais e da satisfação de produzir. Este livro de Mike Rose sugere pistas ainda pouco exploradas, mas muito promissoras, em termos de metodologias que privilegiem a obra como ponto de partida e de chegada em educação profissional.

Jarbas Novelino Barato

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13 Respostas to “Saberes Invisiveis”

  1. T Says:

    Pois é Prof… é tão difícil romper tradições impostas historicamente…
    A questão do corpo, do fazer ou mesmo do tal afamado “saber-fazer” atual.
    Nossa tradição grega de homens livres, onde a classe dos escravos é que trabalhava!
    O pensar e o fazer com as próprias mãos, ou o de se sujar e ter as mãos limpas…
    A dicotomia acadêmica onde uns pensam e outros fazem…
    bj

  2. Rafaela Bastos Says:

    . – Democracia… Igualdade… Liberdade…
    Ouvimos tantas falas mal fundamentadas sobre!
    Durante séculos vivemos em um Mundo hierarquisado, não é apenas nosso país que sofre com a tal, mas todos.
    Sim é algo que vem sendo aplicado desde A.C., e mudar maus costumes requer tempo, trabalho e vontade. Será que você deseja mudar?
    Esses saberes estão por toda parte, os tais invísiveis, estão presentes em nosso cotidiano e vida o tempo inteiro… Nunca foram invísiveis, á partir do momento que não quero ver algo, não o vejo o desconsidero e sigo minha vida.
    Todos esses saberes sempre foram visiveis basta querer ve-los, pois acabamos vendo apenas aqueles que consideramos mais valorizados, esquecendo de ver os que compartilham o dia a dia conosco, e muitas vezes fazem nossa rotina funcionar.

    bjo’ss

  3. Aline Vilar Says:

    Na sociedade em que vivemos todos esse saberes foram sempre invisíveis, as vezes não porque queremos mas por o brasileiro viver sempre correndo, os saberes que acabamos de ver passam despercebidos.
    Mas a verdade é que as pessoas que exercem esse saber, que tem conhecimentos em áreas especificas convivem conosco e que sem eles seria impossível sobrevivermos, pois um depende do outro.
    O ideal é mudarmos nossos hábitos, visões, missões e etc., mas será que o brasileiro é capaz de mudar exercer a igualdade?
    esse texto nos faz refetir sobre isso e se existe o preconceito.

  4. Adriana Karnal Says:

    adoraria ser sua aluna,rsrsr

  5. Ana Virginia Says:

    Bom dia,
    também adoraria ser sua aluna, estou cursando uma especialização em Mídias na Educação na UFRGS e para uma das cadeiras preciso fazer um estudo netnográfico sobre blogs educativos.
    Em primeiro lugar quero pedir sua autorização para analisar seu blog Boteco Escola e postar as considerações no nosso wiki.
    Também preciso de um endereço de e-mail para mandar um questionário para o senhor responder, se não for muita ousadia da minha parte.
    Agradeço e que Deus continue te iluminado para continuar este trabalho maravilhoso que tens feito.
    meu e-mail é anavirginiabrentano@yahoo.com.br

  6. Afonso Malatesta 1LCSMJO Says:

    Acabo de me deparar com algo que nunca havia prestado atenção, mas que esta presente no nosso dia a dia, tantas profissões que são desprezadas, e vistas como algo de baixo escalão por grande parte da sociedade, são fundamentais tambem. Para tentar deixar claro o que estou dizendo me baseio no exemplo de um lixeiro, que muitas vezes não é tratado com o devido respeito, mas sem ele, as coisas seriam piores, e ele que faz isso tem o saber para tal função, não adiantaria colocar um executivo que acha que pode fazer o serviço, ele não conseguiria.

    É uma boa discussão.

  7. Renato Says:

    Fala, Professor Jarbas.
    O texto nos faz refletir, sobre o mundo no qual vivemos.
    Os saberes invisiveis, sempre existiram e nunca vão deixar de existir.
    Mais o texto, é bom, gostei. E seria bom indica-lo a pessoas que convivem com certo “preconceito”.

    Um abraço.

  8. Carla Sacrato Says:

    Esse texto me lembrou um discurso que venho ouvindo faz algum temp de uma pessoa que admiro muito, essa pessoa se tornou um grande estudioso e mesmo depois de ter passado pelos mais diversos estagios da vida academica continua dizendo que o melhor livro que já leu em sua vida foi sua mãe, uma mulher sem grandes estudos teoricos, mas que possui um rico conhecimento pratico da vida. Seu pai tambem era pedreiro e dele tirou sua formação base. Ou seja não se precisou de diplomas para passar conhecimento de vida.

    O que temos de sempre ter em mente é que o conhecimento tem varias formas, e não esta apenas nos bancos das universidades.
    O problema é que temos a mania de valorizar o “raro”.
    O conhecimento academico não abrange a maior parte da nossa população então pensamos que o raro é melhor… E desvalorizamos as coisas mais comuns mas nem por isso menos importantes.

    Ninguem consegue ser especialista de tudo, se colocarmos um engenheiro para recolher lixo ele com certeza não realizara a função bem, porque naquele assunto ele é ignorante. E vice versa…

    E geralmente esses cargos que damos menos importancias, são os das pessoas que mais contribuem para manter nossa qualidade de vida e bem estar.

    Parece ser um conhecimento invisivel, mas so percebemos sua falta quando ele não é realizado. Quando está tudo certo não procuramos elogiar, mas se esta errado queremos nossa paz de novo, e muitas vezes nem sabemos pra quem reclamar, porque a pessoa passou invisivel aos nossos olhos…

    O fundamental nessa percepção de saberes invisiveis é ter humildade pra reconhecer que todo trabalho é importante e tem sua função para a manutenção da sociedade.

  9. Jessica Marques Says:

    Olá Professor Jabas,
    Gostei muito do texto do senhor, principalmente por abordar de um tema que além de envolver vários outros assuntos também problemáticos, é algo que por muitas vezes é desconsiderado pela população.
    A primeiro momento ressalto que o texto, nos remete não somente ao fato que as pessoas são “invisíveis” aos olhos dos profissionais de um cargo mais alto na hierarquia pofissional, mas sim que estes profissionais que são vistos com menor grau de importâcia muitas vezes se ceitam deste modo, e começam a agir como “pessoas invisíveis” para toda a sociedade.
    O fato é que certas barreiras são colocadas, e por muitas vezes pela “pressão” feita por outros da sociedade, certas dificuldades são impostas para que não haja um envolvimento desses profissionais que tanto trabalham e ainda assim são des merecidos.

  10. Jully Says:

    Professor,
    muito oportuno este texto, sobretudo para nós universitários,que por esta condição, não nos cobrirmos com o manto da arrogância e nos sentirmos capazes de julgar quem não teve tal oportunidade.

  11. Monique Ronqui Says:

    Caro Prof° Jarbas,
    Interessante esse texto, a leitura se torna ainda mais envolvente tendo em vista a mesma ser, sua experiência pessoal.
    Em todos os tempos, em todas as culturas sempre houve os “Saberes Invisíveis” por aí.
    As sociedades sempre foram divididas em classes sociais ou castas, sugerindo hierarquia.
    Podemos observar num contexto próximo de nós, como se passam despercebidos os trabalhadores que usam uniformes (garis, operários de fábricas, entre outros).
    É certo que independente do tipo de trabalho que se exerça (braçal, ou intelectual) todos são imprescindíveis no contexto geral, havendo uma interdependência entre as mais diversas classes trabalhadoras.*

  12. Fabricio Says:

    Ola, Professor!

    Eu trabalho como garçom, e sei o quanto essas atividades são desvalorizadas. Independentemente de eu trabalhar em uma das chamadas atividades invisíveis, sempre admirei esses trabalhos, e sempre achei errados esses estereótipos que são empregados a eles, para mim é apenas uma área diferente de conhecimento, assim como qualquer outra, sempre me questionei como mesmo depois de tantos avanços intelectuais as pessoas ainda são incapazes de reconhecer estes trabalhos, alguém deve fazê-los, o que seria da nossa cidade sem alguém pra varrê-la, ou para construí-la, são apenas prestações de serviço. Conhecimentos mais práticos do que teóricos não deixam de ser conhecimentos, esses trabalhadores conseguem realizar atividades admiráveis sem o auxilio de teorias, como o reconhecimento de medidas a vista sem precisar realizar muitas operações matemáticas, um pintor, ou um escultor que tem seus trabalhos tão valorizados e admirados também ignora conhecimentos teóricos para realizar suas obras nem por isso é visto como ignorante. Existem algumas pessoas que dizem não ser preconceituosas, mas pra mim a maioria são apenas hipócritas, eu duvido que estas pessoas algum dia pararam por alguns minutos para observar o trabalho destes profissionais e perceber suas habilidades praticas. Essa situação leva, às vezes, os próprios profissionais a não valorizar seu conhecimento.

    Fabrício, 1 MCSNPP

  13. bields84 Says:

    Belo blog sobre psicologia!

    Frequentarei aqui mais vezes!

    Esse post realmente tem a ver com o que eu procuro sobre psicologia! perfeito!

    se quiser que eu publique algo de sua autoria, é só falar que eu coloco no meu blog com sua identificação e endereço do blog!

    da uma olhada no http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

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