Às vezes ouço explicações sobre metodologia científica que me deixam preocudado. Os discursos de muita gente que fala sobre o tema valorizam em demasia a burocracia criada para controlar publicações em ciência. O que sinto, muitas vezes, é que gente dominada pelas normas burocráticas acredita que estas últimas são condição sine qua non para a produção de trabalhos investigativos de valor. Ou mais ainda, pensam que as normas burocráticas são metodologia científica. A situação merece uma análise demorada. Infelizmente não tenho agora tempo para embarcar em tal aventura. De qualquer forma, convido os frequentadores deste Boteco a ficarem atentos ao fenômeno.
Não posso, porém, deixar em branco uma das consequências do burocratismo em ciência. Com o tempo, dadas as preocupações com exatidão e objetividade, as convenções sobre comunicação científica foram ganhando um quadro normativo de como escrever “cientificamente”. Em parte, isso foi necessário. Em parte, tornou-se uma camisa de força que faz com que certos relatórios de pesquisa sejam enigmáticos. E não é só isso: gente que não sabe escrever acaba se escondendo atrás das normas burocráticas para justificar a pobreza comunicativa de seus textos.
A Folha de São Paulo publicou ontem notícia que retrata muito bem os males do burocratismo em ciência. A matéria, “Periódico científico aceita publicar trabalho forjado”, narra história de dois autores que utilizaram um software capaz de produzir textos que têm aparência de escritos científicos. A produção dos supostos autores foi aprovada para publicação por um grupo de pareceristas da revista The Scientist. O material, provavelmente obedecia a todas as normas de linguagem acadêmica. Parece que para os pareceristas pouco importou originalidade e conteúdo da falsa pesquisa. O artigo atendia a todas as “normas”.
Na notícia publicada pela Folha, a questão da linguagem me chamou a atenção. O jornal reproduziu um pequeno trecho para mostrar que o artigo não era sério. Mas quem está acostumado a ver certos artigos publicados em revistas científica acharia o texto bastante normal. Vamos à amostra divulgada pela Folha:
Simetrias compactas e compiladores amealharam tremendo interesse tanto de futuristas quanto de biólogos nos últimos anos. A falha desse tipo de solução, no entanto, é que os DHTs podem ser empáticos, extensíveis em larga escala.
Você ainda não está convencido de que textos do gênero são padrão em artigos científicos? Sugiro um experimento. Copie o trecho que acabo de reproduzir, peça a algum amigo da academia que o leia, e pergunte a ele se há algo de errado com tal comunicação científica. Provavelmente ele vai lhe dizer que o termo “tremendo” não é adequado. De resto, achará tudo muito normal.
Você pode achar que meus comentários até aqui estão contaminados pelo caso acontecido com a revista The Scientist. Talvez ache que estou exagerando. Por isso, forneço exemplo de um caso real, uma tese de doutorado defendida e aprovada em uma de nossas melhores universidades. Já publiquei trecho da dita tese numa outra ocasião. Repito a dose para mostrar como o discurso da Academia, com pretensões de ser científico, acaba sendo apenas obtuso. Veja a seguir trecho da tal tese:
Objetivando aduzir elementos para a reflexão em tomo da Pedagogia Histórico-Crítica na direção da dinamização do movimento teoria-prática-teoria e, mais propriamente, no que tange à verificação das possibilidades de estabelecimento da unidade da teoria e da prática num processo de alfabetização, foi realizada uma experiência docente durante um ano letivo em uma turma do 1º ano do I ciclo junto a uma escola da Rede Municipal de Ensino do município de (…). Tomando enquanto problemática o como estabelecer a referida unidade na perspectiva da teoria pedagógica em questão e, como hipótese, que esta unidade pode ser efetuada a partir de uma prática pedagógica mediada por uma didática escolar critica, a primeira parte deste trabalho aborda a Pedagogia Histórico-Crítica a partir da história de sua formulação no bojo dos acontecimentos sociais e políticos brasileiros, chegando à sua explicitação através do destaque dos elementos teóricos centrais que a corporificam e do levantamento de seus pressupostos teórico-metodológicos.
Junho 15, 2009 às 3:14 am |
Caro Jarbas!
Com tal exemplo de texto ‘acadêmico’ verifico que quem realmente sabe, se faz entender, mesmo tendo que obedecer às “normas científicas”. Tenho certeza que isso não é nenhuma “Missão Impossível”, mas sim bom senso e respeito àquele que lê. Fico me perguntando se os “cientistas” que aprovaram essa tese leram e entenderam seu “conteúdo”….
Grande foi Sócrates ao dizer que nada sabia….
Um abraço!
Margarete Barbosa
Junho 18, 2009 às 11:56 pm |
Olá, professor:
adorei este post.Deveria ser publicado em um journal, para que não nos obrigassem a escrever desta forma.
O problema é que se não o fizermos dentro das normas, não somos devidamente qualificados.
Isto ainda deve ser resquício do colonialismo,não é?
Abs,
Junho 19, 2009 às 12:02 pm |
Oi Fátima,
Muito bom tê-la neste estabelecimento. Acho que precisamos organizar um movimento a favor da escrita de boa qualidade na academia. Não sei de onde vem a exigência de uma escrita obtusa. O que sei é que tal escrita nada tem a ver com ciência. Sua prática serve apenas para conferir ares de seriedade a trabalhos medíocres e sem alma, negação completa da paixão que dá vida à ciência.
Luto pessoalmente contra textos pobres e pomposos em dissertações, teses, e artigos. Em banca de doutorado, semana que vem, insistirei mais uma vez sobre o a assunto. Mas, andorinha solitária não faz verão. Gostaria muito que surgisse uma campanha contra escritos ilegíveis nos meios acadêmicos. Acho que a medida é mais urgente na área de educação. Você já reparou que livros de didática, prática de ensino e administração escolar são literatura de quinta categoria?
Abraço grande,
Jarbas