
Acabo de ver entrevista com John Putman, professor de história na San Diego State University. Ele ganhou notoriedade porque desenvolveu um curso sobre a série Star Trek (Jornada nas Estrelas). O foco do programa acadêmico não é cinema ou televisão. É história contemporânea dos EUA e, em certa medida, do nosso planeta. Putman teve que dar um duro danado para conseguir uma coleção completa, em DVD’s, da famosa série e dos filmes que ela gerou para a telona.
Na entrevista, Putman conta que a série reflete valores e modos de ver o mundo da época em que foi produzida. Direitos civis, guerra do Vietnam, papel da ONU, comportamento sexual, contracultura, e muitos outros temas foram “comentados” em Star Trek. Tais comentários não eram diretos. Eles se refletiam nas histórias de ficção sobre um futuro distante. A variedade étnica e nacional na ponte de comando da Interprise, por exemplo, era uma proposta de integração racial e superação da Guerra Fria durante os anos sessenta.
Gene Roddenberry, o criador da série original, iniciada em 1966, declarou que aproveitava a liberdade ficcional para discutir alguns temas quentes que não tinham muito espaço em programas comuns da TV. Os autores que sucederam a Gene mantiveram o compromisso. Nas séries posteriores à original, novos personagens e situações comentam de modo sutil alguns temas de nossa história contemporânea.
Putamn ensina história. Em seu curso Star Trek (a academia aceitou oficialmente tal designação para o programa, e concede créditos normais aos estudantes que o escolhem) o professor da San Diego State apresenta temas de uma época – direitos civis, por exemplo – e em seguida exibe episódio de Jornada nas Estrela onde aparecem situações que refletem visões do tema estudado.
A certa altura da entrevista, Putman faz um comentário interessante. Ele repara que na primeira série de Star Trek, escrita por Gene Roddenberry, a religião era um fator irrelevante nas histórias. Isso refletia em parte o agnosticismo de Gene, como também a secundarização da fé religiosa nos tempos da contracultura, da luta pelos direitos civis, dos protestos contra a guerra do Vietnam. As séries dos anos oitenta e noventa seguem caminho diverso. Refletem a importância que a religião ganhou no espaço político americano.
A proposta de Putman é muito criativa. Ela consegue articular um dos ícones televisivos de nosso tempo com estudos de história contemporânea. As aulas não são superficiais. A idéia não é divertir a moçada. A idéia é a de criar interesse genuino por história a partir de obra que atraiu uma imensa audiência no mundo inteiro. Lembro-me, por exemplo, que a patota inteira do velho Pasquim (Ziraldo na fila do gargarejo) era fã de carteirinha de Jornada nas Estrelas.
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Maio 15, 2009 às 12:01 am |
[...] Star Trek é curso de história. [...]