Archive for 7 fevereiro, 2009

Objetos de aprendizagem X ferramentas básicas

fevereiro 7, 2009

isd-structure

Em post anterior argumentei que a maior parte  dos objetos de aprendizagem  ou educacionais tem características muito parecidas com os velhos softwares de drill  & practice. Podemos resumir essas características gerais numa única expressão: muita estrutura. Em materiais com muita estrutura tudo já está pronto. Compete ao aluno seguir o caminho proposto. O professor nada tem a fazer no caso, quando muito indica o material.

Na elaboração de propostas de uso das novas tecnologias em educação, há um debate importante sobre estrutura e liberdade. Para elaborar  materiais é preciso pensar numa estrutura. Por outro lado, professores e alunos precisam de liberdade para construir percursos de aprendizagem determinados pelos interesses que vão brotanto in processu (in fieri, diriam as pessoas mais afeitas ao discurso filosófico). Dois educadores que conheço, Fred Saba e Bernie Dodge consideram muito essa questão.  Saba, especialista em educação a distância, vê excesso de estrutura em algumas propostas de e-learning e  propõe aos instructional designers cuidados de revisão para não converter os materiais criados para fins de EaD em camisas de força. Bernie sempre chama a atenção dos autores de WebQuests para as armadilhas da estrutura. Sinto que a questão não é muito discutida aqui na terrinha.

Um modo de dar mais espaço para liberdade, para a criatividade do professor, é o uso de ferramentas básicas. Tais ferramentas, às quais David Carraher gosta de dar o nome de inteligentes, exigem muita invenção docente e permitem que os alunos as utilizem de modos muito originais. Em estudos mais amplos do fenômeno tecnológico, mais ou menos estrutura é um assunto importante. Ferramentas, máquinas e equipamentos com muita estrutura dão pouca ou nenhuma margem de criatividade para o trabalhador. Doutro lado, ferramentas básicas são instrumentos que abrem espaços para a invenção e criatividade. Em tais ferramentas o que mais importa é o saber e competência de quem as usa. Nesse sentido, elas são muito mais ricas que as ferramentas complexas e estruturadas, mas nada flexíveis.

Escolas como fortalezas

fevereiro 7, 2009

A metáfora mais recorrente para os nossos ambientes escolares é a de que as escolas são como fábricas.  Acho que este modo de ver está sendo suplantado pela idéia das escolas como fortalezas. Muros altos, câmaras de vídeo por todo lado, seguranças enternados na portaria e nos corredores, guaritas, catracas eletrônicas etc. já são elementos comuns na paisagem das escolas privadas. Acredito que essa obsessão com segurança tem reflexos na arquitetura. Conheço pelo menos um caso que mostra isso.

Meu amigo Newton Bryan, na época em que foi secretário de educação de Campinas, achou muito estranha a planta de um prédio escolar para educação infantil. Ficou particularmente intrigado com a altura das janelas. Elas estavam muito acima do tamanho das crianças, bem no alto das paredes. Chamou o arquiteto para uma conversa. Explicou-lhe que janelas como as planejadas criariam um ambiente opressivo para as crianças. O arquiteto concordou, mas disse que janelas tão altas tinham uma explicação. Elas evitariam que alguma criança fosse atingida por bala perdida em caso de tiroteio no bairro.

As escolas fortalezas acabam sendo justificadas por causa das “ruas”. Estas se tornaram sinônimo de perigo físico e moral. Tanto que aceitamos pacificamente a afirmação equivocada de que “é preciso tirar as crianças da rua”. Faz bastante tempo que o educador italiano Francesco Tonucci denunciou esse erro político. Aceitar, sem nada fazer, a deterioração dos espaços urbanos é uma das causas da escola-fortaleza. E mesmo em prédios escolares que não tenham sofrido mudanças arquitetônicas significativas, o modo de ver e administrar o espaço é determinado pela paranóia da segurança. Uma das coisas que as crianças aprendem na escola-fortaleza é medo. A idéia da cidade da criança, projeto inspirado por Tonucci, do qual falei nos dois posts anteriores, procura recuperar as ruas como espaço de convivência.

Uma outra referência para pensar interferências nas cidades capazes de humanizar os espaços urbanos é a obra do arquiteto Aldo van Eick que criou playgrounds em áreas abandonadas da cidade de Amsterdam. Um desses playgrounds é mostrado na imagem que segue, contrastando o antes e o depois.

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