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Memória e aprendizagem: complemento 2

janeiro 5, 2009

giordano-bruno-campo-di-fiori

Quando escrevi o post Memória e Aprendizagem, lembrei-me de uma outra referência, a resenha de Anthony Grafton sobre o livro Giordano Bruno: Philosopher/Heretic, de Ingrid D. Rowland, publicada no New York Review of Books de 20 denovembro de 2008.

Giordano Bruno é um dos maiores pensadores do Renascimento. Mente inquieta, não aceitava a mediocridade do pensamento dominante. Divergiu da doutrina católica na qual foi criado em Nola e Nápoles, e educado num convento dominicano. Não se adaptou também ao protestantismo nascente. Vagou pela Europa do século XVI e acabou voltando para sua Itália em 1592. Acabou ficando nos calabouços da Inquisição por quase oito anos e foi queimado como herege no Campo de’ Fiori, Roma, em 1600. [A imagem que abre o post é foto de estátua que intelectuais do século XIX mandaram erigir no local em que Bruno foi sacrificado por causa de suas convicções.]

Fiz um rápido resumo da biografia de Giordano Bruno, mas não vou entrar aqui em comentários sobre sua obra e pensamento. O que me levou a lembrar-me da resenha de livro recente sobre ele foi a questão da memória. Grandes oradores, da época clássica na Grécia e do Renascimento, no geral eram também mestres da memória. Escreviam e decoravam longos discursos ou recitavam peças inteiras de outros autores sem recorrer a qualquer auxílio externo. Um episódio famoso na vida de Giordano Bruno é a demonstração de vituosismo que ele deu em Roma ao recitar, em hebreu, um salmo, na versão normal e de trás para a frente. Tal virtuosismo era compartilhado por outros eruditos da época. Mas não se tratava apenas de uma memorização com objetivo de obter sucesso em performances públicas. As técnicas de memorização utilizadas por Bruno e por outros intelectuais do Renascimento eram ferramentas muito úteis para introduzir sistemas pessoais de classificação capazes de ordenar e dar sentido à enorme massa de informação que começou a circular logo depois da invenção da imprensa.

Métodos de memorização são uma ferramenta necessária se alguém, como era o caso de Bruno, precisa guardar ipsis litteris quantidades significativas de texto. Isso acontece porque nosso equipamento “natural” de memória não realiza tal façanha automaticamente. O resultado da longa evolução de nossa espécie é o de uma memória interpretativa como já observei no post Memória e Aprendizagem. Ao que parece, memorizações como as de nosso herói do Renascimento não tem efeito apenas na capacidade de armazenamento de nosso cérebro. Elas favorecem também outras habilidades intelectuais. Bruno não só guardava textos clássicos, ele os recombinava de modo criativo em sua memória.

Tento enfatizar aqui duas coisas:

  • A memorização não é necessariamente um automatismo sem sentido. Ela pode ser um exercício intelectual interessante.
  • Guardar informação na sua forma literal significa prover o cérebro com conteúdo. E isso é importante porque pensar, inventar, criar não depende apenas de habilidades intelectuais. Depende de conteúdo imediatamente disponível.

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