Não há censuras veniais

By jarbas

Gente mais nova que eu talvez não não conheça a distinção entre pecados veniais e pecados mortais. Os primeiros eram pequenas bobagens e podiam ser apagados com uma estada no Purgatório. Os segundos eram grandes ofensas que, sem a devida confissão e penitência, levavam o infeliz pecador para o Inferno. Faço este esclarecimento sobre dois conceitos do velho catecismo católico (fruto do Concílio de Trento, movimento reacionário urdido para deter a Reforma Protestante) para justificar mais um alerta contra a censura de usos da Internet. Em comentário a post recente sobre a matéria, um de meus alunos, Leandro, admite a possibilidade de bloqueio ao ORKUT e MSM. Tal bloqueio, segundo o ele, é uma censura venial. Meu amigo Carlos Seabra entrou com outro comentário para esclarecer: censura é sempre pecado mortal. Para mostrar os males da censura, qualquer censura, Seabra cita um poema que merece divulgação. E já que nem todos os frequentadores costumam ler comentários, reproduzo aqui a parte final do comentário de meu amigo:

Lembro a todos que pequenas censuras aceitas por quem tem a boca calada ou os olhos vendados encerram em seu bojo escalada de autoritarismo e prepotência muito maiores, como bem nos alerta em poesia o amigo Eduardo Alves da Costa, no trecho que transcrevo abaixo:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Uma resposta para “Não há censuras veniais”

  1. antoniomorales Disse:

    O trecho reproduzido pertence ao poema “No caminho com Maiakóvski” e devido ao seu título foi atribuído erradamente ao poeta russo.

    Foi escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, como corretamente assinalado pelo Carlos Seabra.

    Coloco esse comentário apenas para repisar esclarecimento de uma polêmica que durou muito tempo. Mais esclarecimentos sobre o assunto, o poema completo e mais material poético do autor podem ser encontrados no Jornal da Poesia ( http://www.secrel.com.br/jpoesia/autoria1.html).

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