Gente mais nova que eu talvez não não conheça a distinção entre pecados veniais e pecados mortais. Os primeiros eram pequenas bobagens e podiam ser apagados com uma estada no Purgatório. Os segundos eram grandes ofensas que, sem a devida confissão e penitência, levavam o infeliz pecador para o Inferno. Faço este esclarecimento sobre dois conceitos do velho catecismo católico (fruto do Concílio de Trento, movimento reacionário urdido para deter a Reforma Protestante) para justificar mais um alerta contra a censura de usos da Internet. Em comentário a post recente sobre a matéria, um de meus alunos, Leandro, admite a possibilidade de bloqueio ao ORKUT e MSM. Tal bloqueio, segundo o ele, é uma censura venial. Meu amigo Carlos Seabra entrou com outro comentário para esclarecer: censura é sempre pecado mortal. Para mostrar os males da censura, qualquer censura, Seabra cita um poema que merece divulgação. E já que nem todos os frequentadores costumam ler comentários, reproduzo aqui a parte final do comentário de meu amigo:
Lembro a todos que pequenas censuras aceitas por quem tem a boca calada ou os olhos vendados encerram em seu bojo escalada de autoritarismo e prepotência muito maiores, como bem nos alerta em poesia o amigo Eduardo Alves da Costa, no trecho que transcrevo abaixo:
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.