Ética e Tecnologia Educacional
Comecei a navegar pelos mares da tecnologia educacional (edtech) no início dos anos de 1980 quando fui aceito no mestrado de Edtech na San Diego State University. No começo fiquei preocupado, achando que a nova disciplina pedagógica era coisa para ratos de laboratório (uma idéia que ganhou concretude quando comecei a reparar que uma colega do programa, branca como um rato albino, passava dez ou mais horas diárias no lab dos Apple IIe). Para meu consolo, aprendi então que os pesquisadores da área não definiam tecnologia a partir de máquinas ou equipamentos, mas a partir das capacidades humanas de criar materiais que ajudassem as pessoas a aprender mais e melhor.
No ambiente edtech da década de oitenta, ética era um assunto que pouco aparecia em nossas discussões. Mas lembro-me de um artigo escrito por um dos ex-alunos do departamento que situava a questão ética a partir de uma experiência acontecida assim que buscou emprego como tecnólogo educacional. Ele passou num concorrido processo seletivo de uma indústria do Novo México. Empresa moderníssima. Setor de tecnologia educacional com muita grana e recursos. Mas ele desistiu do trabalho. Motivo: descobriu que a empresa fazia parte da indústria bélica americana. Razão: não pretendia colocar seus talentos de especialista em tecnologia educacional para formar pessoas no campo da fabricação de artefatos cuja finalidade última era matar gente. Numa palavra, recusou um ótimo emprego por motivos éticos.
A história com que abro este post me veio à cabeça assim que vi a nova definição de tecnologia educacional elaborada pela AECT (Association for Educational Communications and Technology). Tal definição é o objeto de um livro recente: Educational Technology - A definition with commentary:
Tecnologia educacional é o estudo e a prática ética para facilitar a aprendizagem e melhorar o desempenho pela criação, uso e administração de processos e recursos tecnológicos.
Esta é a primeira vez que a dimensão ética aparece com destaque numa definição elaborada por uma associação que congrega alguns dos mais importantes nomes da tecnologia educacional. Para oferecer minha modesta colaboração no assunto, proponho que interessados em tecnologia educacional considerem como um dos pontos de partida para a reflexão sobre o compromisso ético em educação o poema que vem a seguir:
Para refletir…*
Soren Kierkegaard**
Se quero ter êxito
ao acompanhar um ser com um fim preciso,
devo ir até onde este ser está
e começar desde lá a caminhada.
Quem não sabe fazer isto, engana a si mesmo
quando pensa que pode ajudar os outros.
Para ajudar um ser
devo certamente saber mais do que ele
mas antes devo compreender o que ele compreende.
Se não chego lá,
de nada adianta
ser mais capaz e sábio que ele.
Se desejo acima de tudo mostrar
aquilo que sei
é porque sou orgulhoso
e quero ser admirado pelo outro
não ajudá-lo.
Todo apoio começa com humildade
diante daquele que quero acompanhar
porque devo compreender
que ajudar
não é querer dominar
é querer servir.
Se não chego lá
não posso ajudar o outro.
* Poema proposto por Britt-Mari Barth, en “Le Savoir en Construction: former à une pédagogie de la compréhension”, como ponto de partida sobre a questão da construção do saber numa relação pedagógica.

Abril 15, 2008 em 11:54 am
Já havia lido esse poema em algum lugar não me recordo onde. Ele dispensa comentários.
quanto a ética, é interessante ver o aparecimento em definições tecnicas, acredito que a falta desta nos diversos setores, é o que atrasa a evolução tanto humana como tecnológica.
forte abraço,
MArco Aurelio - http://www.edutultirsao.blogspot.com, logo alí, onde educação, cultura e diversão saltitam juntas!
Abril 17, 2008 em 10:55 pm
A ética
poucos sabem o que é, mas seria bem agradável pensar a respeito
e refletir sobre o tema. Compromisso ético é extremamente importante.
A ética entra em conflito direto com os interesses pessoais.