Censura outra vez: um complemento
No post anterior recomendei leitura de um ótimo comentário sobre o indispensável livro de Diane Ravitch, A Polícia da Palavra. A citada obra examina a censura nos meios de produção de materiais didáticos nos Estados Unidos. Uma prática comum é a de interditar alguns clássicos da literatura nas escolas. Outra prática comum é a de modificar textos clássicos em antologias escolares, substituindo ou cancelando palavras supostamente ofensivas.
Toda essa conversa sobre censura nos meios educacionais fez com que me lembrasse de um fato acontecido há dois anos. Uma de minhas filhas frequentava um curso de alemão na Unicamp. Havia na turma alunos de graduação e pós de diversas áreas da universidade. Certo dia a professora distribuiu um trecho do romance Robison Crusoe, numa versão alemã, com o objetivo de incentivar a leitura e oferecer um tema comum para a aula de conversação. Como a história é bastante conhecida, a professora imaginou que a atividade poderia mais fácil e agradável que as lições comuns sobre o idioma de Goethe. Essa situação, aparentemente tranquila, provocou uma reação que deixou espantados alunos e mestra. E tal reação veio de uma aluna da pedagogia.
A moça da Faculdade de Educação, assim que o texto de Defoe foi distribuído, pediu a palavra e fez um discurso duro contra o “racismo” do autor. Reafirmou sua condição de “educadora”. Disse que na Faculdade de Educação aprendia-se a criticar desvios ideológicos de textos. Disse ainda que via o Robison Crusoe como uma obra de caráter racista. E concluiu dizendo que o texto de Daniel Defoe não poderia ser usado em escolas, nem mesmo numa universidade como a Unicamp. A professora não soube o que dizer. Apenas reafirmou sua intenção de trabalhar com um texto agradável, nada mais. Os outros alunos, gentes das engenharias, letras, biologia, sentiram grande desconforto. E o texto de Defoe acabou não sendo utilizado. Acho que não preciso comentar a intervenção da estudante de pedagogia, pois censurar um clássico de 1714 a partir de suposições do que é politicamente correto nos dias de hoje beira a insanidade.
