Censura atinge enciclopédia eletrônica
Eu queria dar um tempo para que os visitantes do Boteco Escola pudessem entrar no estabelecimento pela “Festa de Inauguração”. Além disso estava aguardando as publicações dos blogs de meus alunos para construir mensagens sobre os ensaios preliminares de marinheiros de primeira viagem. Mas as coisas da vida andam atropelando meus planos. E, infelizmente, uma dessas coisas foi a descoberta de mais um dos muitos efeitos da censura aos blogs. O acidente aconteceu quando procurei testar um link para o verbete Blog na Wikipedia. Meu teste aconteceu na rede de uma instituição que bloqueia blogs. E mais que isso, ela bloqueia qualquer endereço (URL) que inclua o termo ‘blog’. Consequência: os censores, analistas e progamadores preguiçosos, simplesmente bloquearam qualquer acesso que fale mal ou bem de blogs. Ou para dizer de outra forma: censuraram por tabela qualquer publicação (enciclopédia, dicionário, artigo acadêmico, notícia de jornal etc.) cuja indicação de link utilize a ‘diabólica’ palavra BLOG. Alguém mais bondoso que eu diria que tal situação acontece porque a censura é burra. Penso diferente. Acho que tal coisa acontece porque os censores se dão o direito de governar arbitrariamente as possibilidades de acesso dos usuários. As semelhanças entre isso e a censura nos tempos da ditadura não são fortuitas.
Minha indignação pede um texto duro e longo contra a censura. Mas não vou amolar os leitores com discursos extensos a favor da liberdade de informação. Contento-me em sugerir que a censura a blogs e outras publicações Web passa mensagens importantes no campo da educação. Crianças, estudantes e trabalhadores que sofrem os efeitos da censura em seus ambientes de uso da internet aprendem a lição de que mentes mais esclarecidas decidem por eles o que é bom e o que é mau no ciberespaço. Aos mortais comuns fica vedado o direito de ‘pecar’. E a internet é usada apenas para as atividades que os esclarecidos censores acharem adequadas para o povão. Assim, em vez de autonomia, aprende-se dependência, em vez de liberdade, aprende-se aceitação de controles dos poderosos, em vez de decisão pessoal, aprende-se expectativa de que alguém mais sábio fará a melhor escolha. É essa a educação que queremos para nossos filhos e netos?
Abril 24, 2007 em 9:53 pm
Jarbas,
concordo plenamente. E cito aqui um outro exemplo do que penso ser uma arbritariedade: professores que dão lista de sites para que o aluno pesquise. Não seria melhor orientá-los para que encontrem, avaliem e trabalhem a informação? Terão eles, no dia-a-dia, uma lista passada por outra pessoa para que busquem o que procuram?
Abril 24, 2007 em 10:02 pm
Claro que não é essa a educação que queremos. Dizemos que queremos que as pessoas pensem por sí próprias, se expressem, mas qdo as oportunidades aparecem (ex. Blog), são censuradas…
Adorei seu texto, e mais que isso, partilhar da sua insatisfação com a censura. Que por “preguiça” de avaliar o que presta ou não, procura o caminho mais curto e quase sempre sem um final agradável.
Abril 27, 2007 em 11:15 pm
Às vezes até quase tenho saudades da luta contra a ditadura, pois era mais fácil saber onde estava o inimigo.
Na época da censura até uma tal de Dona Solange era nome conhecido de todo mundo (ela cortava nádegas quando apareciam aos pares, mas permitia-as se isoladas).
Já os censores tecnológicos dos CPDs das escolas, que bloqueiam blogs e verbetes de enciclopédias, além de nem nome terem, se nádegas censurarem nem uma só lhes escapará!
Abril 28, 2007 em 2:05 am
Jaciara, Helana e Carlos.
Obrigado por terem entrado na conversa. Tem gente que não percebe os efeitos trágicos da censura. Acha que os instrumentos de bloqueio são um benefício para defender crianças inocentes e evitar distrações de empregados preguiçosos. Hoje, na mesma instituição em que constatei censura à Wikipedia, vi uma coisa covarde: nas janelas que se abrem quando se clica sobre link blogueiro no Boteco aparece a mensagem “erro…”. Pessoas menos avisadas podem pensar que a questão é “técnica”. Não é. O uso do termo “erro’ é um ato de covardia do censor, passando a idéia de que a impossibilidade do link não é fruto de censura mas de algum problema informático que o pobre usuário é incapaz de perceber. Usar expectativas tecnológicaas ou científicas para justificar atos discriminatórios é uma grande sacanagem, coisa de moralistas que acham que podem dar lições para a patuléia. Quando vejo isso, fica muito difícil segurar os palavrões…
Maio 3, 2007 em 5:40 am
Olha só que coincidência, nessa terça-feira estive em Niterói conversando com meu tio sobre o valor que meu avô atribuía a educação. Esse bate papo, na área de serviço de sua casa, começou na estrada de ferro, passou pela literatura infantil de Monteiro Lobato, foi para a Universidade Rural em 1964 e é claro teve uma atenção especial para os comitês formados no Fundão, o qual ele fazia parte, e as torturas no período do AI-5.
Em 1980 tentei conversar com ele sobre a ditadura e a única coisa que vi em seus olhos foram lágrimas! Lágrima de quem perdeu algo muito importante. E hoje eu continuo a ver lágrimas em seus olhos, mas pude entender o que ele perdeu e não quero essa herança para meus filhos.
Não quero ninguém vigiando e controlando os pensamentos e ações de meus filhos. Proibir qualquer coisa é perigoso, todos nos sabemos disso, então porque se faz? Mesmo eu sendo resistente a tecnologia, eu nunca proíbo meus filhos de terem acesso a ela. Quando percebo um desvio, procuro caminhos alternativos que desperte a atenção deles. Reconheço que os jogos e diversas outras coisas que a internet oferece aos nossos filhos possuem atrativos maiores que os educacionais, mas daí a cortar o acesso é pura falta de informação.
Maio 11, 2007 em 12:17 am
A censura hoje assume formas diversas e nos atinge constantemente. Basta ver o caso recente da publicação da biografia do Roberto Carlos. Ele não leu e não gostou. Pode? E o livro foi recolhido e sua circulação impedida? Tentaram. Mas o livro está disponível em vários lugares na Internet. Gratuitamente. Para quem quiser baixar e ler. Esse não é o primeiro caso. Os biógrafos estão preocupados e desestimulados.
Mas a censura nas redes de empresas e escolas que o Jarbas cita continua de vento em popa.
Sob vários pretextos e justificativas, claro.
Abril 21, 2008 em 1:05 am
Olá a todos. Tenho 15 anos e muitos de vocês podem me achar com pouca idade para julgar um arquivo como este. Mesmo que pensem dessa maneira, eu irei demonstrar aqui, minha profunda tristeza em relação à censura. Posso até não ter entendido corretamente o que quer dizer a mensagem do nosso amigo, mas acho isso a maior burrice de todos os tempos. Pesquise onde quiser, onde bem entender, pois a informação não é algo para se trancar, e sim para ser exposta à sociedade, em BLOGS ou não.