023. Avaliação de uma WebQuest

Faz algum tempo que a Professora Tatiane me pediu para avaliar uma WebQuest que ela fizera sobre Machado de Assis, um belo trabalho que foi experimentado com alunos numa escola do Rio. Demorei um pouco para fazer a avaliação solicitada. Acabei fazendo uma análise extensa da WQ da Tatiane. O resultado final ficou parecendo parecer de orientador ou tutor, num formato de avaliação que deveria ser prática comum no julgamento de obras.

O texto que elaborei pode servir de ponto de partida para diálogos sobre o modelo WebQuest. Para tanto é preciso dar uma boa olhada no trabalho da Tati e depois ler o texto que escrevi.

ET: solicitei e obtive permissão da Professora Tatiane para tornar pública minha avaliação. Mas deixei o texto um tempão na geladeira. Agora, revendo o que escrevi, achei que é hora de tornar público o meu escrito. Cá está o tal.

WebQuest ”Conhecendo Machado de Assis”

Introdução

Fiquei com a impressão de que a Introdução ainda está muito colada em concepções de material didático. Qual o resultado de tais concepções? Introduções escritas de acordo com a lógica da matéria. Em outras palavras, centradas no assunto, não no leitor.

O que você faz? Oferece alguns pontos de destaque sobre vida e importância de Machado. Está errado? Não. Em material didático, este tipo de começo de conversa é uma prática comum. Mas precisamos mais que isso numa WQ.

Em WebQuests, a Introdução é uma conversa inicial com o leitor-aluno, buscando fazer alguma ligação entre interesse do estudante e o assunto a ser estudado. Não precisa ser algo muito imediato ou vivência concreta do leitor. Mas precisa ser algo que desperte curiosidade, surpresa, vinculação com a vida cotidiana etc.

Não conheço muito bem Machado de Assis. Por isso não sei se sou capaz de oferecer um bom exemplo de Introdução. Mesmo assim vou tentar [dê o devido desconto à minha ignorância literária]:

Introdução

Ele era um moço pobre e viveu num país distante dos grandes centros culturais do planeta.  Teve de trabalhar muito cedo na vida. Não fez faculdade. Apesar de tudo isso, foi à luta e tornou-se um grande escritor. Vocês sabem de quem estamos falando? Estamos falando de Machado de Assis, um brasileiro que venceu muitas dificuldades e produziu uma obra que, por sua beleza, merece ser lida e comentada. Nos Estados Unidos e na Europa, ele é admirado, estudado, citado. Os maiores especialistas em literatura de todo mundo recomendam obras do nosso Machado Vocês não podem ficar por fora. Precisam conhecer este escritor genial. E é isso mesmo que poderão fazer aqui nesta WebQuest.

Tentei, na conversa inicial mostrar uma situação que provavelmente é vivida por muitos adolescentes. Talvez não seja a situação dos adolescentes com os quais você trabalha. Mesmo assim, vale a pena mostrar que um grande gênio de nosso país não nasceu em berço de ouro, nem teve privilégios na sua formação, assim como a grande maioria dos jovens de nossa terra. Talvez a vida difícil da infância e adolescência de Machado seja algo que provoque algum interesse. Não pretendo, com o exemplo, resolver como criar uma introdução ideal para estudo da vida e obra machadiana. Quis apenas mostrar um rumo. Você e outros autores, certamente, conseguirão fazer introduções que provoquem interesse.

Tarefas individuais, processo e recursos

Esses são os pontos mais problemáticos do seu trabalho. Você não propõe uma Tarefa de acordo com a idéia desenvolvida por Bernie Dodge, o criador do modelo WebQuest. Uma tarefa no âmbito do modelo em estudo é a descrição de um produto, obra ou evento equivalente a produto, obra ou evento, encontrável fora da escola e que exige articulação dos saberes que são propostos como conteúdo de estudo da WQ. A tarefa deve:

  • Exigir articulação de saberes imitando negociações e integrações de conhecimentos socialmente distribuídos. [Em quase todas as produções da vida cotidiana, as obras são resultado da combinação de diferentes saberes de profissionais com especializações distintas]. Pense, por exemplo, na produção de um filme. Quantas pessoas, com saberes distintos precisam trabalhar numa obra cinematográfica? Roteiristas não fazem trilha sonora. Diretores não produzem efeitos especiais. E por aí vai. O trabalho não é isolado. É articulado. Há quase sempre conflitos na produção, pois os diversos saberes não se casam de modo harmonioso. Há contradições que precisam ser resolvidas, há arestas que precisam ser aparadas. E uma coisa é muito clara: é preciso conhecimento para que a obra tenha qualidade. O grande desafio em WQ’s é reproduzir de algum modo essa dinâmica de usos dos saberes na sociedade. [Em termos teóricos, estamos falando aqui de ”negociação de significados”]. Tudo isso está relacionado com um dos princípios do modelo em estudo: a aprendizagem cooperativa (ou colaborativa) situação na qual uns aprendem com outros no processo de produzir uma obra e, ao mesmo tempo, constroem um conhecimento coletivo. Eu poderia falar mais sobre aprendizagem cooperativa, mas acho que as coisas que rabisquei aqui já são suficientes para nossa conversa.
  • Propor um trabalho que demande transformação da informação. Se bem planejada, uma tarefa elimina do horizonte o corte-e-cole. Todo o material estudado pelos alunos de uma equipe será uma referência, uma fonte para a elaboração da obra definida pela tarefa. Mas não poderá ser copiado ou reproduzido. Outra coisa: o resultado da obra terá de ser algo novo [novo pelo menos para os seus produtores]. Para clarear as coisas, convém verificar se a tarefa proposta corresponde à uma mais das três ultimas categorias da taxonomia de Bloom (síntese, análise, avaliação). Qualquer uma de tais categorias situa o saber como resultado de transformações operadas pelo agente conhecedor. Para ver uma síntese sobre Bloom e WebQuests, convém dar uma olhada em material de Dodge que traduzi e publiquei no Slideshare em:

http://www.slideshare.net/novelino/taxonomia-de-bloom-e-wq-s-presentation/

  • Ser autêntica. A questão da autenticidade não é nova no pensamento pedagógico. Ela aparece, por exemplo, nas propostas de Freinet. Mais recentemente, ela é uma marca registrada da Escola da Ponte. Como é que a gente pode definir autenticidade? Em poucas palavras, autenticidade é qualidade de um saber cujo significado se define em termos de usos concretos no mundo. Esse modo de ver o conhecimento critica certas abordagens do saber no âmbito escolar. Na escola, no geral, o que se pede dos alunos é a elaboração artificial dos conteúdos lá ensinados; as provas são uma forma de avaliar saberes que acontecem exclusivamente em instituições de ensino. Fora dos muros escolares não somos convidados a responder a questionários, a fazer redações, a resolver uma bateria de exercícios etc. Quase sempre, o que se cobra nas escolas é “artificial” – algo inventado exclusivamente para aferir apreensão de certos conteúdos. Em algumas fases de aprendizagem, os desafios tipicamente escolares podem ser uma necessidade. Mas, não se pode ficar nisso. É preciso avançar para desafios que dêem sentido ao saber no mundo. E tais desafios exigem uma re-elaboração de saberes difícil de ser obtida por meio de práticas da didática tradicional.

Enunciei aqui três princípios fundamentais na definição de tarefas. Não é difícil entendê-los. Difícil é aplicá-los em tarefas concretas. Tentarei examinar seu trabalho a partir dos mencionados princípios. Vamos lá!

Em seu trabalho, você funde Tarefa, Processo e Recursos. Essa decisão pode funcionar, mas está sujeita a muitos riscos. O maior deles: a diluição do conceito de Tarefa. Vou centrar meus comentários na questão TAREFA e deixar para frente análises sobre Processo e Recursos.

Você, como a maioria de nós, acaba entendendo a Tarefa com certas características escolares [com baixo teor de autenticidade]. Isso é bastante comum, pois proposta de tarefas autênticas é algo que exige uma mudança muito radical em nossa maneira de criar desafios para os alunos. Assim, apesar da explicação de que o desafio seria o de elaborar materiais para conquistar alunos de outras classes para leitura e apreciação de Machado, os produtos solicitados dos são peças escolares, não obras contextualizadas em ambientes que lhes dêem significado ‘no mundo’. Há muitas atividades propostas, mas não fica claro qual será a obra que conquistará leitores para Machado. Voltarei a esse tipo de observação mais geral sobre a Tarefa.  Vou agora examinar detalhes e oferecer feedbacks específicos sobre o trabalho que você realizou. Antes de seguir em frente, é preciso dizer que seu trabalho está muito bom, sobretudo no que tange à seleção de fontes e recursos para um bom estudo sobre Machado no ambiente Web.

Você criou tarefas individuais e tarefas coletivas. Stricto sensu, tal decisão não se casa com a proposta original do modelo. Tarefa em WebQuest é um desafio para um grupo, não para indivíduos [o produto de uma WebQuest precisa ser resultado e um aprender com os outros, negociação de significado, articulação de diversos saberes numa única obra, saber re-elaborado em análises,sínteses ou avaliações realizadas por um grupo de ‘especialistas’]. Na verdade, o que você chamou de tarefa individual é uma fase dentro de um processo de estudo e produção. [no Processo, uma ou mais fases de estudo individual serão necessárias para que os participantes se convertam em ‘especialistas’]. Em outras palavras, embora a tarefa deva ser um produto que exige compromisso coletivo, sua realização pode exigir trabalhos individuais (sempre orientados para a realização da tarefa sob responsabilidade de uma equipe). Nesse sentido, sua decisão pode ser adequada. A inadequação ocorre porque você decidiu dar o nome de Tarefa a uma fase do Processo.

Tento uma explicação para a sua proposta de tarefas individuais. Seu entendimento sobre o componente em análise parece influenciado pelo conceito de tarefa em trabalhos escolares. Essa é uma situação muito comum em elaborações de WQ’s. Outra possibilidade explicativa é certa confusão entre atividade e tarefa. O pensamento hegemônico no campo da pedagogia insiste muito numa educação ativa. E para colocar esse princípio em prática, os educadores costumam sugerir muitas atividades: pesquisar, levantar dados, realizar experiências etc. Não há nada de errado com isso. O que se pode questionar é um certo ativismo que se contenta com a própria atividade, em vez de situar qual é o objetivo dela. Pesquisar, por exemplo, não é um fim em si mesmo. Pesquisar é uma atividade aconselhável quando estamos à procura de uma resposta para uma indagação que mobiliza nosso interesse.

Você propõe três tarefas individuais: produção de um relatório, elaboração de uma reportagem, e produção de uma resenha. Esses três trabalhos têm cara de redação para fins meramente escolares. Não fica clara qual a finalidade de cada qual, nem como eles serão articulados na produção da tarefa grupal. Entendo que as produções propostas são modos de comprometer os alunos com o estudo da matéria das especialidades que lhes tocam. Cada produto intermediário, no caso, poderia ser uma ferramenta útil para as discussões da equipe nas reuniões preliminares para conversas sobre a tarefa coletiva. Mas isso não fica claro na proposta. Nos próximos parágrafos apresento observações mais específicas sobre cada tarefa individual.

Relatório. Em sua redação você sugere que “recolher fatos e acontecimentos” é uma tarefa. Tal característica paga tributo ao entendimento [já mencionado] que equipara tarefa a atividade. Depois você apresenta a elaboração de um relatório como produto. Esse enfoque está mais próximo do conceito de tarefa no modelo desenvolvido por Bernie Dodge, embora, como já disse, no caso de sua WQ ela seja uma fase do Processo. Mas não fica claro para quem e para que é o relatório [ou seja, o produto não é contextualizado]. Fica parecendo que elaborar relatório é um formato de redação que você quer que os alunos desenvolvam. Fiquei na dúvida se o hiperlink para a palavra relatório é uma boa ajuda para o informe solicitado. O hiperlink leva o aluno a um artigo sobre relatórios sobre trabalhos laboratoriais nos campos de física e química. Muito legal, mas a meu ver de pouca serventia no caso de um registro biográfico. Você relaciona uma série de questões que o relatório deve responder.  As questões têm um jeitão de perguntas de provas escolares. Entendo que elas podem orientar leituras do aluno. Nesse sentido elas são um bom expediente em termos de sugestão de método de estudo. Mas não tenho certeza se esta foi sua intenção. Numa WQ famosa, The Tuskegee  Case

(cf: http://jarbasquest.wordpress.com/exemplo-de-wq/)

Tom March faz isso. Veja, por exemplo, o seguinte trecho:

Papel 2: Cientista

Sua tarefa principal será a de ver a Pesquisa Tuskegee desde o ponto de vista de um pesquisador ou cientista. Seu trabalho é o de assegurar que o grupo a que você pertence entenda detalhes da doença e como se procede na condução de investigações científicas. Use as informações cujos links estão relacionados abaixo para responder as seguintes questões:

  1. 1. Como é que a sífilis é transmitida? (Forneça uma resposta com exatidão científica)
  2. 2. Como é que a sífilis afeta o corpo humano?
  3. 3. Que benefícios a humanidade poderia ganhar com o conhecimento sobre sífilis não tratada?
  4. 4. O que você diria que é mais importante em termos gerais: o pequeno número de pessoas afetadas num estudo ou o conhecimento que poderia se obter como resultado da investigação?

Na tradução do material do Tom, pisei na bola utilizando a palavra tarefa para introduzir uma fase do Processo [como você pode ver, o uso conseqüente de certos conceitos não é coisa fácil...]. Embora o que você definiu como tarefa individual fique melhor arrumado como fase de um processo, faço neste item uma última observação que tem a ver com Tarefa: o que se pede no relatório é um desempenho descrito na taxonomia de Bloom como Compreensão. Tal forma de conhecimento não é adequada para a Tarefa de uma WebQuest (embora possa ser uma fase do Processo). Para uma visão rápida da taxonomia de Bloom, você pode dar uma olhada em recurso já citado:

http://www.slideshare.net/novelino/taxonomia-de-bloom-e-wq-s-presentation

Reportagem. Vale aqui quase tudo que já observei no parágrafo anterior. A reportagem solicitada é sobre a Academia Brasileira de Letras. Repare, porém, que todas as perguntas guias que aparecem em seu texto referem-se à obra literária de Machado, não à Academia.

Resenha. Vale aqui também quase tudo que já disse com relação à fase Relatório. Se o que você escreveu logo no início refere-se aos outros membros da equipe, seu trabalho segue uma linha parecida aquela a que me referi ao citar uma obra de Tom March. Você diz:

Você será uma peça essencial para que seus colegas conheçam um dos escritores mais importantes da Literatura Brasileira.

Essa instrução situa bem compromisso de trabalho para concretizar aprendizagem cooperativa. Mas não fica muito claro em seu texto que os trabalhos individuais alimentarão uma atividade concreta de trabalho coletivo, ou se você está pensando na resenha como um texto para alunos de outras classes (o público para o qual a equipe deve preparar uma ”obra” capaz de provocar interesse por Machado)

Você articula bem Processo e Recursos, apresentado os últimos na medida em que são necessários ao estudo dos alunos. Selecionou também fontes que me parecem muito adequadas para o estudo da vida e obra de Machado. Mas talvez você possa, numa outra WQ trabalhar de modo sistemático o Processo. Não vou fazer nenhuma observação específica sobre suas soluções para esta parte da WebQuest. Vou apenas apresentar algumas direções que talvez possam ajudá-la na próxima aventura.

Há várias metáforas para definirmos processo numa WebQuest. Podemos entendê-lo como uma receita um modo de fazer que discrimina fases importantes (passos) e ingredientes necessários (recursos) na melhor ordem de execução de acordo com opinião de um especialista (o professor-autor). Gosto muito da metáfora do mapa. O processo pode ser entendido como uma ferramenta que define os melhores caminhos para se chegar ao lugar pretendido. Esse modo de ver abre um espaço interessante para a atuação dos mestres. Os docentes nesse caso podem ser vistos como cartógrafos, profissionais que conhecem bem o território a ser percorrido e são capazes de indicar as melhores alternativas de viagem. Finalmente, há uma metáfora muito utilizada em textos construtivistas: o processo deve ser visto como um andaime, um apoio seguro para que o estudante construa seu próprio saber. Insisto no tema por um motivo básico. Em discussões sobre WebQuest alguns educadores sugerem que o modelo proposto por Dodge não está alinhado com o construtivismo. Um desses educadores deu um salto na cadeira quando, numa mesa redonda, sugeri a metáfora do mapa e disse que um dos papéis do docente é o de cartógrafo. Depois do salto, o referido educador me disse que o aluno deve tudo fazer, mapas incluídos. Fiquei a pensar que tipo de mapa pode elaborar alguém que não conhece o território no qual a viagem deve ocorrer.

Há um engano muito freqüente nos meios educacionais. Há educadores que confundem certos princípios radicais da Escola Nova com construtivismo. Acham que nada pode ser indicado para os aprendentes, pois indicações significariam intervenções indevidas nos processos de elaboração do saber por parte dos alunos. Isso não é construtivismo, é um entendimento escolanovista dogmático de que tudo deve estar centrado no aluno. Os grandes construtivistas, Vygotsky, Piaget e Bartlett, não assinariam isso. Em Vygotsky, por exemplo, construir saber é atividade que envolve negociação de significados em conversas que incluem interlocutores com diferentes níveis de conhecimento. Construir saber não é uma empresa solitária, nem resultado de buscas de pesquisadores que partem de um zero absoluto. No caso da educação, gente que já conhece o território, professores, preparam andaimes adequados aos saberes significativos que os aprendizes precisam (re)construir. Assim, indicar caminhos (processo) e fontes de estudo (recursos) é uma atividade docente importante numa perspectiva construtivista conseqüente. Desculpe-me essa explicação aparentemente fora de propósito. Mas achei que convinha fazê-la, tantas são as conversas que confundem um escolanovismo falsamente libertário com orientações construtivistas.

O Processo numa WewbQuest deve ser uma proposta clara de caminho que a equipe precisa percorrer para produzir a obra esperada. O autor deve: propor uma direção clara do que fazer passo a passo, definir etapas individuais e coletivas de trabalho, fornecer ajudas (sugestões do que reparar num texto, por exemplo). Determinar passos num processo depende muito de conhecimento que o autor tenha sobre seus leitores. Tal conhecimento é importante na tomada de decisão sobre o que precisa ser claramente explicitado a fim de que o leitor entenda o que deve ser feito. Uma dica: em processos é bom usar o imperativo para introduzir cada passo.

No Processo os princípios que informam a Tarefa devem ficar evidenciados. Assim, além de observar clareza nas instruções, qualidade da orientação de estudo, indicação de recursos no momento em que estes devem ser estudados, uma boa avaliação do Processo deve reparar se este concretiza aprendizagem cooperativa, transformação de informação e autenticidade.

Recomendo, mais uma vez, estudo do Processo proposto por Tom March em sua WebQuest sobre o caso Tuskegee:

http://jarbasquest.wordpress.com/exemplo-de-wq/

Tarefas em grupo

Logo no início do item Tarefas individuais, você diz:

Vocês serão membros de uma equipe de três colaboradores: um investigador, um jornalista e um crítico literário. E cada um, em sua função, vai percorrer caminhos – ora diferentes, ora semelhantes –, para produzir uma apresentação que leve seus colegas a conhecer ou reconhecer Machado de Assis.

Quando li este trecho entendi que haveria uma obra coletiva (um produto) construída pela equipe para levar os colegas a “conhecer e reconhecer Machado de Assis”. Mas não é isso que transparece no item Tarefas em grupo. Na verdade você propõe a elaboração de três diferentes coisas pelo grupo: a produção de um conto a la Machado, uma animação com scratch, uma redação de e-mail dirigido a um colega (de outra classe?). Nenhuma delas é claramente um produto ao qual possamos dar o nome de apresentação. Aparentemente, as três tarefas que você propõe são exercícios para que o grupo (a equipe de trabalho) comece a apreciar Machado [“queremos ver como vocês ‘degustaram’ a obra deste escritor”].

Minha impressão é a de que sua WQ acaba não propondo claramente uma TAREFA, um produto com cara de obra. Voltarei a esta observação oportunamente.

No item Tarefas em grupo ficam implícitas muitas atividades que são na verdade componentes de um processo.  Se em Tarefas individuais você diluiu o conceito de Tarefa, aqui fez o contrário, diluiu o conceito de Processo.. E como os modos de fazer estão ocultos, parece-me que você espera que os alunos façam bem as coisas sem qualquer orientação explícita. Em resumo: você acabou não apresentando para os leitores-alunos um processo claro de como fazer as coisas no grupo.

Examino, a seguir, cada um dos itens desta seção Tarefas em grupo.

Uma variação narrativa do conto principal explorado pelo grupo. Essa é uma proposta interessante. Poderia até ser a Tarefa da sua WQ, desde que recebesse um tratamento bem estruturado em termos de desafio de produção literária (para que, para quem, para que contexto etc.). Ao propô-la, você supõe duas coisas que não estão explicitadas em parte alguma da WQ : que os membros do grupo leram (individualmente ou em grupo?) contos de Machado de Assis, que os membros do grupo estudaram o gênero narrativo em foco. Outra coisa: como é que tal obra se articula com o objetivo de conquistar para Machado alunos de outras turmas? Produzir um conto nos termos que você propõe pode ser uma atividade muito proveitosa, mas ela nada tem a ver como objetivo declarado da Tarefa que você enunciou da seguinte forma:

Com o intuito de manter vivo o nome e a história desse grande escritor entre as crianças e jovens de nosso país, que pouco lêem hoje em dia, resolvemos pedir a sua ajuda para apresentar Machado de Assis a seus colegas das outras séries deste colégio (grifo meu).

Convém perguntar: que destino terá a história que o grupo escrever? Fora da escola, textos são escritos para publicação em algum lugar, além disso, são escritos tendo em mente certo público. Quase sempre a declaração de destino, no caso, será ficcional, pois dificilmente o texto dos alunos será realmente encaminhado para publicação. Mas, mesmo que seja uma invenção, o destino declarado é um modo de contextualizar a produção. Da maneira que você apresenta a atividade fica parecendo que os alunos deverão escrever a história porque o professor assim o quer, nada mais.

Uma animação em Scratch. Ficou me parecendo que esta tarefa foi proposta porque é uma coisa gostosa de fazer. Fica a pergunta: pra que? A animação será publicada na Internet? Ela deverá ser um veículo para conquistar leitores para Machado? Você nada diz sobre finalidade do trabalho. Fica parecendo que o Scratch foi proposto porque é divertido. As observações que já foram feitas sobre a tarefa anterior cabem também aqui.

Um e-mail a la Machado, com o propósito de convencer alguém a ler a obra machadiana produzida pelo grupo. A sugestão se aproxima do objetivo da Tarefa. Mas não a vejo com força suficiente para concretizar a finalidade desejada. Parece que há um único destinatário para o e-mail [o propósito não era atingir os colegas?]. Creio que uma obra capaz de convencer pessoas a se aproximarem de Machado precisaria ser algo público (e-mail é privado). Além disso, deveria ser algo com bastante impacto, explorando provavelmente certos gostos, convicções ou modos de pensar dos destinatários.

Na proposta de redação de e-mail, você comenta:

O objetivo dessa produção é tentar imaginar como Machado de Assis, um homem do século XIX, escritor, sarcástico, escreveria tal e-mail: o presente sendo “invadido” pelo passado.  Queremos ver como vocês “degustaram” a obra desse escritor. Para isso, avaliaremos a capacidade de representar o que aprenderam do estilo machadiano analisando a seleção vocabular feita, as colocações pronominais, as formas de tratamento e as construções frasais utilizadas.

Comunicar objetivos para alunos é uma providência muito recomendada. Mas o trecho me parece fora de lugar. Na Tarefa e no Processo, as comunicações devem estar voltadas para a obra (o que deve ser feito) e para o modo de fazer (como desenvolver o trabalho). Nestes dois itens, cabem apenas justificativas voltadas para suas finalidades específicas. Além disso, no mesmo trecho, você adianta uma justificativa sobre como será feito o julgamento do produto-e-mail. Isso poderia integrar a Avaliação.

Contos, poemas e crônicas de Machado

A relação dos sites listados neste item são recursos. Mas você não os indica dentro de uma proposta clara de estudo tendo em vista uma Tarefa. Fica parecendo que a leitura do material é opcional. Na tarefa do grupo, objeto de estudo da obra machadiana são os contos do autor. Mas, aqui você inclui crônicas e poemas.  Há excesso de informação, e falta clareza quanto àquilo que precisa ser lido e estudado para dar conta do recado. No Processo (e Recursos) é preciso passar instruções claras e diretas para os alunos sobre características esperadas da obra e sobre fontes de informação de boa qualidade que o professor selecionou (andaime) para proporcionar ajuda para os alunos.

A sugestão de leitura feita no item tem certo quê de preocupação supostamente construtivista [os alunos escolherão o que quiserem para elaborar seu próprio conhecimento’]. Já fiz um reparo sobre este modo de ver. Ele é escolanovista, não construtivista. É bom não confundir laissez faire com elaboração pessoal do saber.

Finalmente aqui vai uma observação bem “crica”. Ao introduzir a lista de recursos com textos de Machado você diz: “divirtam-se!”. Aparentemente o convite reforça uma idéia muito comum de que a boa educação deve ser divertida. E, no caso, de que ler Machado é divertido. Gente menos avisada pode achar que o Bruxo de Cosme Velho é um Luís Fernando Veríssimo do passado. Muita coisa boa não é necessariamente divertida.

Outros recursos: textos e vídeos

Não fica claro se estes recursos são opcionais, recomendados ou necessários; nem como se integram com a Tarefa. Alguns deles não são de grande qualidade, especialmente o vt sobre O Alienista.

Geralmente, sugere-se que recursos adicionais, do tipo “para saber mais” ou “curiosidades”, sejam indicados na Conclusão. Mas é bom não apresentar uma lista muito extensa. Dois ou três recursos de boa qualidade bastam.

Conlusão

Não tenho muitas observações sobre o item. Acho que você poderia fazer algo mais coloquial, num tom de conversa com os leitores-alunos. É bom lembra que a principal finalidade da Conclusão é a de manter o interesse pelo assunto estudado. Boa Conclusão reitera o que já foi dito na Introdução.

Avaliação

Sua WebQuest não tem uma proposta  de avaliação sintonizada com as sugestões mais apropriadas no modelo criado por Bernie Dodge.  Já faz algum tempo que o componente em análise privilegia avaliação de produto. Em WebQuests é importante mostrar para os alunos como sua obra provavelmente seria julgada no mundo profissional. Parece-me que os educadores não trabalham de modo muito confortável com essa perspectiva. O que é uma pena, pois na vida importa muito saber como nossas’obras’ são julgadas por especialistas, pares, usuários.

No início, anos de 1995 e 1996, Bernie Dodge não propôs o componente Avaliação para o modelo WebQuest. Posteriormente, a partir de análises de WQ’s feitas por docentes e de estudos sobre avaliação, o mencionado componente passou a integrar o modelo. E por razões de coerência, Bernie escolheu como ferramenta de avaliação em WebQuests uma abordagem que julga características (qualidades) de produto (obra), a avaliação baseada em rubricas. Por que coerência? Tarefas são obras coletivas que uma vez concluídas aparecem sob forma de produtos ou eventos, e como tal devem ser avaliadas. Em outras palavras, o foco da avaliação em WebQuests é um produto(um programa de rádio, uma reportagem,um projeto de lei, uma peça de teatro,um campanha,uma carta,um projeto para a construção de algo, etc.). E na vida, quando temos uma obra, a avaliação mais conseqüente é a avaliação das qualidades de tal produto. O foco da avaliação no caso não é nem quem fez, nem o processo pelo qual a obra ganhou corpo. Isso caminha na contramão daquilo que se enfatiza na avaliação escolar em nossos dias. Sinto que os educadores preocupam-se em demasia com a avaliação de pessoas. E tal avaliação ocorre em dois níveis: no de desempenho e no do esforço individual. No primeiro nível, o foco é a apreensão de um certo conteúdo, quase sempre medido em provas e testes. No segundo, o foco é a preocupação em compensar esforço e dedicação dos alunos. Não há nada de errado com esses dois níveis, pois são dimensões avaliativas importantes para julgar o trabalho escolar. Mas eles não bastam. Cabem também avaliações voltadas para julgamento de obras tal qual a que se propõe em WebQuests. É este último tipo de avaliação que precisamos desenvolver. [seria preciso mais tempo e espaço para comentários sobre avaliação autêntica e avaliação baseada em rubrica, mas como você tem pressa, mando já parte de minhas considerações; em outra ocasião conversaremos mais sobre avaliação].

12 Respostas to “023. Avaliação de uma WebQuest”

  1. Eliana Franzão da Silva Says:

    Caro professor Jarbas

    Bom dia

    estou tendo dificuldade de encontrar a webquest dos insetos, o senhor pode me orientar.

    muito Obrigada.
    1 APGN

  2. Eliana Franzão da Silva Says:

    Caro professor Jarbas

    Bom dia

    O senhor pode me informar onde encontrá-la
    a web quest dos insetos?
    muito Obrigada.
    1 APGN

  3. jarbas Says:

    Cara Eliana,

    Você pode entrar na WebQuest dos insetos por meio do seguinte post deste Boteco:

    http://jarbas.wordpress.com/2010/08/20/webquest-dos-insetos/

    No final do post indico um link que, se clicado, leva você até o exemplo de WebQuest que traduzi muitos anos atrás. Abraço,

    Jarbas

  4. Idalina Isabel Says:

    Olá professor!

    Tomei a liberdade de procurar por aqui alguma dica para montar uma introdução decente em minha WQ, pq ESTA DIFIIIIIICIL !
    Mas acho que encontrei, espero que de certo ;D

  5. jarbas Says:

    OLA AQUI QUEM LHE ESCREVE É JOSE LUIZ LOPES RA 200101064, PROFESSOR, ACHEI QUE SABIA O QUE ERA AVALIAÇÃO DE UMA WEB QUEST, POIS O SENHOR EXPLICOU EM AULA QUE A AVALIAÇÃO SERIA EM CIMA DO PRODUTO FINAL DA WEB QUEST E SE ELE SEGUIA ESPECIFICAÇÃO RECOMENDADA PELO PROCESSO DE REALIZAÇÃO, CONTUDO AO LER O TEXTO ACIMA VERIFIQUEI QUE AVALIAÇÃO DA WEB QUEST SERIA O FATO DE AVALIAR TODA A WEB QUEST, SE ELA TEM VALOR EDUCACIONAL SE FOI BEM ELABORADA, SE IRA DESPERTAR INTERESSE NAQUELES QUE PARTICIPARAM, SE ESTA BEM ESTRUTURADA, CLARA PRECISA E INTELIGIVEL A QUEM QUER QUE A LEIA E TENTE REALIZA-LA, ASSIM FICOU A DÚVIDA, AVALIAR A WEB QUEST É AVALIAR TODO O TRABALHO OU SOMENTE AVALIAR O RESULTADO OU SEJA O PRODUTO DA WEB QUEST?????

    JOSE LUIZ LOPES RA 200101064

  6. Andre Militão Ra200811407 Says:

    Olá professor Jarbas!!!Quem escreve é seu aluno Andre Militão(RA 200811407) turma tecnologia educacional, sexta-feira(17h20 as 19h00).

    A avaliação de uma Web Quest deve estar de acorodo com o produto proposto. Antes de avaliar o modelo de WQ deverá ser levado em conta sua aplicabilidade, se é viável ou não. O foco da avaliação é um grande problema, pois podemos avaliar o produto e quem o fez, e a avaliação se torna por um lado positiva, mas por outro negativa, na medida em que a avaliação é feita na maioria das vezes em ver o aprendizado de conteúdo dos alunos e não seu desempenho.
    abs

  7. jose luiz lopes Says:

    OLA AQUI QUEM LHE ESCREVE É JOSE LUIZ LOPES RA 200101064, PROFESSOR, ACHEI QUE SABIA O QUE ERA AVALIAÇÃO DE UMA WEB QUEST, POIS O SENHOR EXPLICOU EM AULA QUE A AVALIAÇÃO SERIA EM CIMA DO PRODUTO FINAL DA WEB QUEST E SE ELE SEGUIA ESPECIFICAÇÃO RECOMENDADA PELO PROCESSO DE REALIZAÇÃO, CONTUDO AO LER O TEXTO ACIMA VERIFIQUEI QUE AVALIAÇÃO DA WEB QUEST SERIA O FATO DE AVALIAR TODA A WEB QUEST, SE ELA TEM VALOR EDUCACIONAL SE FOI BEM ELABORADA, SE IRA DESPERTAR INTERESSE NAQUELES QUE PARTICIPARAM, SE ESTA BEM ESTRUTURADA, CLARA PRECISA E INTELIGIVEL A QUEM QUER QUE A LEIA E TENTE REALIZA-LA, ASSIM FICOU A DÚVIDA, AVALIAR A WEB QUEST É AVALIAR TODO O TRABALHO OU SOMENTE AVALIAR O RESULTADO OU SEJA O PRODUTO DA WEB QUEST?????

    JOSE LUIZ LOPES RA 200101064

  8. José Says:

    Professor Jarbas, a avaliação que o senhor fez, procura esclarecer as partes da Webquest, orientando a professora sobre aquilo que pode ser feito e aquilo que poder ser melhorado. Dessa forma, a avaliação tem como objetivo enriquecer com dicas importantes a contrução de atividades com a ferramenta Webquest.

    José – Licenciatura

  9. Edison Vieira Pavão Says:

    Olá Prof. Jarbas,
    avaliação é um tema complexo, como e o que se deve avaliar?
    A avaliação baseada em rubricas é interessante assim como a avaliação da qualidade do produto ou obra. Penso que o sistema de avaliação deve ser repensado, tanto a obra quanto o sujeito autor dessa obra devem ser avaliados por critérios estabelecidos dentro de um pensamento que olhe os aspectos do sujeito e de sua obra percebendo os aspectos subjetivos, claro esse será um problema, qual o parametro para uma avaliação subjetiva, contudo não é possivel ignorar as formas de avaliação, vamos pensar mais sobre isso,
    um abraço,
    Edison Pavão (turma de sexta as 17:20).

  10. Onofre Crossi Filho Says:

    Boa tarde, Mestre!

    Entendo que as WebQuests são ‘ferramentas’ para a construção de ‘produtos’ com objetivos bem definidos. Logo, uma boa ferramenta, se bem usada, pode proporcionar bons produtos. Mas, uma ferramenta ruim raramente permitirá construir produtos bem acabados, comprometendo o seu resultado final, pois comprometem a qualidade do trabalho de quem a usa. O detalhamento das características que esperamos encontrar numa boa WebQuest, como foram comentadas nesse seu artigo, permite entender o que se deve esperar de uma boa ‘ferramenta’. A avaliação de rubrica, contida numa WebQuest, permite que o produto seja avaliado por seu usuário final, independente da qualidade da ferramenta que foi usada. Encontramos, então, dois níveis distintos de avaliação: o da qualidade da ferramenta e o da qualidade do produto que foi construído com o uso dessa ferramenta, seja ela boa ou não, seja seu usuário habilidoso ou não. De qualquer modo, a tarefa da avaliação será sempre bastante complexa se pretender ser, de fato, justa.

    Abraço,

    Onofre.

  11. Gledison J. T. Rocha(Licenciatura, R.A. 943020565, turma de sexta-feira às 17:20 horas) Says:

    Oi Professor Jarbas!
    As WebQuests ao final geram um produto que durante todo o processo exige critérios que vai desde sua concepção, elaboração, avaliação até a realização, ou seja, necessita de ferramentas que a própria WQ fornecerá ao leitor para se chegar ao produto final e uma destas etapas importantes é a avaliação. A avaliação de rubrica fornecerá informações do produto final, isto é bem provável de quem se beneficiará deste produto, mas há também a avaliação do método ou ferramenta utilizada para gerar este produto, em suma temos a avaliação da ferramenta e o do produto gerado. Uma avaliação é sempre complexa, pois exige, bom senso do avaliador, critério empregado e ponderando o que realmente se pretendi avaliar.
    Abraço,
    Gledison

  12. Geyse Priscila 1APGN Says:

    Ola professor, estou enviando a WQ’s…

    http://www.zunal.com/webquest.php?w=78531

    Aqui tambem o nome e RA das meninas do grupo.

    – Fernanda Domiciano dos Santos RA: 200811088
    – Gideane Pereira de Souza RA: 201013770
    – Geyse Priscila de O. Dias RA: 201013859
    – MAria Regina de Chaves Araujo RA:200913050

    Obrigado porfessor[

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